Capítulo 13

734 Palavras
Capítulo 13 Maria Júlia (Maju) narrando Desci o morro com a Luiza no colo depois de buscá-la na creche. Ela conversava animada sobre a aula, mostrando um desenho que tinha feito para mim, enquanto eu tentava sorrir, escondendo tudo o que estava acontecendo dentro de mim. Conforme caminhávamos pelas vielas, percebia alguns olhares discretos na minha direção. As conversas diminuíam quando eu passava. Outras pessoas simplesmente me encaravam. Os boatos já tinham se espalhado. E, pior do que ouvir qualquer comentário, era imaginar que todos acreditavam que eu estava com o Terror porque queria. Aquilo machucava. Mas não tanto quanto a verdade. Cheguei em casa e encontrei Cecília sentada na varanda, balançando uma das pernas de tanta ansiedade. Assim que nos viu, Luiza correu até ela. — Tia Cecília! — Meu amor! Ela pegou minha irmã no colo e começou a fazer cócegas nela. Pela primeira vez naquele dia, ouvi uma gargalhada sincera. Enquanto as duas brincavam, entrei na cozinha e comecei a preparar alguma coisa para a Luiza comer. O armário estava quase vazio. Abri um pacote de macarrão. Restava menos da metade. Respirei fundo. Precisava encontrar um jeito de fazer aquele pouco render. — Você vai continuar fugindo de mim? A voz da Cecília me fez parar. Continuei mexendo na panela. — Não estou fugindo. — Então olha pra mim. Virei devagar. Ela cruzou os braços. — Você nunca mentiu pra mim. Hoje está mentindo o tempo todo. Engoli seco. — Eu já disse que está tudo bem. Ela deu uma risada sem humor. — Você acha mesmo que eu acredito nisso? O silêncio respondeu por mim. — Maju... Ela caminhou até ficar na minha frente. — Eu conheço você desde criança. Você tá diferente. Tá assustada. Tá tentando convencer todo mundo de que escolheu ficar perto do Terror... ...mas seus olhos dizem outra coisa. Meu coração apertou. Por um segundo, tive vontade de contar tudo. De dizer que eu estava vivendo um terror. Que cada minuto da minha vida era controlado por aquele homem. Mas bastou lembrar das ameaças. Da Luiza. Do meu pai. E calei outra vez. — É melhor você não perguntar mais nada. Falei quase num sussurro. Ela me encarou por alguns segundos. Depois suspirou. — Eu só quero ajudar. Sorri de forma fraca. — Eu sei. E justamente por isso... ...fica longe dessa história. Ela percebeu o peso das minhas palavras. Não insistiu. Apenas abraçou a Luiza mais uma vez. — Qualquer coisa, me chama. Assenti com a cabeça. Observei Cecília ir embora sentindo uma culpa enorme. Ela merecia a verdade. Mas eu não podia colocá-la em perigo. Assim que fechei a porta, dei banho na Luiza, fizemos a tarefa da escola e passamos um tempo desenhando no chão da sala. Ela coloria um castelo enquanto eu fingia prestar atenção. Na verdade, minha cabeça estava longe. Quando coloquei minha irmã para dormir, subi até o meu quarto. Abri a gaveta da cômoda. Meu coração afundou. Ela estava completamente revirada. Procurei o dinheiro que eu havia escondido. Nada. Revirei todas as roupas. Nada. Corri até a bolsa. Também estava vazia. Fechei os olhos. Meu Pai. Ele tinha levado tudo. O dinheiro do meu último salário. E também o dinheiro que o Terror havia jogado para mim. Sentei na cama sem forças. Nem aquilo eu tinha conseguido salvar. Uma batida forte ecoou na porta da frente. Desci rapidamente. Ao abrir, encontrei um vapor armado. — Recado do chefe. Meu estômago embrulhou. — O Terror quer você na boca. Olhei para trás, em direção ao quarto onde a Luiza dormia. — Eu não posso ir. Estou sozinha com a minha irmã. Não tenho com quem deixá-la. O vapor levou a mão ao rádio preso no ombro. — Chefe... ela tá dizendo que tá sozinha com a irmã pequena. Fez silêncio por alguns segundos, ouvindo a resposta. Depois voltou a me encarar. — Ele mandou avisar... Meu coração acelerou. — Ele mesmo tá vindo pra cá. E falou pra você deixar a casa arrumada. O vapor virou as costas e foi embora. Fechei a porta lentamente. Senti minhas mãos começarem a tremer. Meu olhar percorreu a sala simples da casa. Depois subiu para a escada. Até parar no quarto onde a Luiza dormia. O Terror... ...estava vindo até a minha casa. E, pela primeira vez, eu tive medo do que poderia acontecer dentro das quatro paredes que sempre chamei de lar.
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