Capítulo 20

1309 Palavras
Capítulo 20 Maria Júlia (Maju) narrando O céu começou a escurecer enquanto eu ainda estava sentada com Cecília na pracinha, observando Luiza brincar. As primeiras gotas de chuva caíram sobre o chão de cimento, fazendo as crianças correrem para perto dos responsáveis. — Acho melhor a gente ir — falei, levantando. Cecília concordou. — Eu te acompanho até a sua rua. — Não precisa. — Maju, para de ser teimosa. Acabei rindo. — Você também é impossível. Peguei a mão da Luiza e me despedi de Cecília antes de seguir para casa. A chuva ainda era fraca, mas o suficiente para deixar as vielas escorregadias. Luiza pulava de uma poça para outra, tentando fugir das gotas que caíam sobre sua cabeça. — Cuidado, menina. — Mas é divertido! — Você vai chegar em casa toda suja. — A irmã lava minha roupa. Balancei a cabeça, sorrindo. — Abusada. Quando chegamos em casa, estranhei imediatamente o silêncio. Meu pai não estava na sala. Também não estava na cozinha. — Pai? Nenhuma resposta. Entrei, fechei a porta e deixei a bolsa sobre a cadeira. Aquilo já não me surpreendia tanto. Meu pai tinha o péssimo hábito de desaparecer sem avisar ninguém e voltar quando bem entendia. — Ele saiu de novo? — Luiza perguntou. — Parece que sim. — Ele vai voltar? Olhei para minha irmã. — Vai. Eu não sabia se estava dizendo aquilo para ela ou para mim mesma. Coloquei Luiza no sofá e liguei a televisão. — Fica aqui assistindo desenho enquanto a irmã troca de roupa. — Tá. Subi alguns degraus. Foi quando ouvi um barulho atrás de mim. Virei. Meu coração disparou. Terror estava parado perto da porta. Ele tinha entrado sem que eu sequer percebesse. — Terror... Ele ignorou meu susto e olhou diretamente para Luiza. Ela também o encarava. Por alguns segundos, os dois ficaram em silêncio. Então ele voltou os olhos para mim. — Arruma as coisas dela. — As coisas dela? — Ela vai dormir fora hoje. Meu coração acelerou. — Onde? — Na casa da minha tia. — Por quê? — Porque você vai comigo ao baile. Pisquei algumas vezes. — Eu não posso deixar minha irmã com uma pessoa que eu m*l conheço. O olhar dele endureceu. — Você conhece minha tia. — Conheço de vista. — É suficiente. Respirei fundo. — Terror, eu não vou deixar a Luiza em qualquer lugar. Ele deu um passo na minha direção. — Não estou perguntando se você quer. Antes que eu respondesse, uma voz pequena surgiu atrás de nós. — Eu posso ir? Terror olhou para ela. — Pode. Luiza abriu um sorriso. — E vai ter comida? Ele quase sorriu. — Vai. — E doce? Ele soltou uma risada curta. — Também. Luiza colocou as mãos na cintura. — Então eu quero. Olhei para ela, incrédula. — Luiza! — O quê? Terror olhou para mim. — Parece que sua irmã já decidiu. Eu respirei fundo. Não tinha como discutir. — Vai arrumar suas coisas — falei para ela. Luiza correu escada acima. Terror permaneceu na sala. Eu o encarei. — Você podia pelo menos ter avisado antes. — Se eu avisasse, você inventaria alguma desculpa. — Porque eu tenho motivos. Ele se aproximou. — E eu tenho paciência limitada. Não respondi. Subi para arrumar a mochila da Luiza. Separei algumas roupas, o pijama, produtos de higiene e o coelhinho de pelúcia que ela não largava por nada. Quando desci, Terror estava sentado no sofá ao lado dela, assistindo ao desenho. A cena era tão estranha que fiquei alguns segundos parada. Ele percebeu meu olhar. — Terminou? — Sim. Peguei a mochila. Luiza correu até mim. — irmã, ele prometeu doce. Olhei para Terror. — Eu não prometi nada. Ele arqueou uma sobrancelha. — Prometeu sim — Luiza rebateu. Ele soltou uma risada baixa. — Então eu compro. — Viu? — ela comemorou. Peguei minha irmã no colo. — Se comporta, ouviu? — Pode deixar. Beijei sua testa. — A irmã te ama. — Eu também te amo. Aquelas palavras apertaram meu peito. Eu não gostava de deixá-la longe de mim, mas sabia que a pessoa escolhida por Terror não faria nada contra ela. E, naquele momento, confiar nisso era a única opção que eu tinha. Descemos juntos. A casa da tia dele ficava algumas vielas abaixo e também funcionava como um pequeno restaurante. Quando chegamos, uma mulher nos recebeu na porta. — Já estava esperando vocês. Ela abriu um sorriso ao ver Luiza. — Então essa é a princesa? Luiza sorriu. — Meu nome é Luiza. — Desculpa, Luiza. A mulher se abaixou para ficar na altura dela. — Quer conhecer a cozinha? Luiza olhou para mim. Assenti. — Pode ir. Ela entrou animada. Antes de desaparecer, voltou correndo e me abraçou. — Volta logo, irmã. Fechei os olhos por um instante. — Eu volto. Quando ela entrou novamente, senti um vazio imediato. Terror segurou meu braço. — Vamos. — Para onde? — Minha casa. Olhei para o céu. Ainda estava claro. — Ainda nem começou o baile. — E daí? Ele começou a andar. Eu fui obrigada a acompanhá-lo. Não havia espaço para discussão. A casa de Terror era muito maior do que a maioria das casas do morro. Assim que entramos, ele fechou a porta e colocou a arma em um compartimento trancado. Depois se virou para mim. — Seu pai saiu. Meu corpo ficou tenso. — Eu sei. — Saiu carregando uma mochila. Franzi a testa. — Ele fez isso. — Dessa vez foi diferente. — Como? Ele me encarou. — Saiu pela entrada principal e não parecia estar indo simplesmente comprar alguma coisa. Senti um aperto no peito. — Você sabe para onde ele foi? — Se soubesse, não estaria perguntando. Fiquei em silêncio. — Eu não sei nada sobre ele, Terror. Meu pai mudou depois que minha mãe foi embora. Ele começou a beber mais. Depois vieram as drogas. Hoje eu praticamente crio a Luiza sozinha. Ele me observou por alguns segundos. — Você sempre coloca a culpa nele. — Porque ele é responsável pelas escolhas dele. — E você? — Eu faço o que posso. Ele se aproximou. — E se eu não tivesse aparecido? A pergunta me atingiu. — Eu não sei. — Sabe, sim. Ele parou diante de mim. — Você não tinha dinheiro nem para comprar comida. Baixei os olhos. Ele tinha razão. E eu odiava admitir aquilo. — Eu sei. Ele levantou meu rosto pelo queixo. — Então não esquece. Se hoje sua irmã está alimentada, é porque eu permiti. Meu peito apertou. — Eu não pedi para depender de você. — Mas depende. Soltou meu rosto. Caminhou até a janela e observou o movimento lá fora. — Hoje você vai comigo. — Eu já entendi. — Não. Ele voltou a me encarar. — Quero que entenda outra coisa. Hoje todo mundo vai saber que você está comigo. Meu coração acelerou. — Terror... — Não quero você se escondendo. — Eu não tenho interesse em ninguém. — Ótimo. Ele se aproximou novamente. — Então não vai ser difícil. Segurou meu queixo. — No baile, você fica perto de mim. Não cria problema. Não desaparece. E não dá motivo para ninguém achar que pode se aproximar. Engoli em seco. — Entendeu? Assenti. Ele soltou meu rosto. — Vai se arrumar. Fiquei alguns segundos parada. — O quê? — Você ouviu. Quero você pronta quando eu mandar sair. Subi as escadas em silêncio. Enquanto caminhava, uma certeza começou a tomar conta de mim. Aquela noite não seria apenas mais uma ida ao baile. Terror queria deixar claro para todo mundo que eu estava sob o controle dele. E eu ainda não sabia o que seria pior: Os olhares do morro… Ou descobrir até onde ele estava disposto a ir para manter sua palavra.
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