Capítulo Dois - Marcas

3944 Palavras
Mesmo mancando cheguei em casa mais cedo do que meu pai. O relógio marcava meia-noite e o homem ainda não dava sinais de voltar. Ou ele estava com um cliente particularmente insistente, ou estava machucado. Torci para que fosse a primeira ou então seria dois de nós mancando amanhã. Dei o meu melhor para massagear minhas contusões e percebi com um suspiro resignado que amanhã eu estaria roxo. Observei numa metade de espelho quebrado as marcas da mão de Archeon no meu pescoço e engoli em seco pensando nos olhares que receberei amanhã. Engoli em seco, mas o ato fez minha garganta arder e eu balancei minha cabeça o que, infelizmente, doeu também. Suspirei. Bem, pelo menos eu não estava sangrando. Pensei em comer alguma coisa, mas o latejar na minha garganta me lembrou que não era uma boa ideia e fui pegar um balde para me limpar um pouco. Levei a água para o quarto e tirando minhas roupas com um certo esforço, comecei a passar o pano molhado nos machucados. Estremeci vendo as marcas no meu quadril. Amanhã seria r**m até para andar: Archeon tinha sido bastante bruto dessa vez. Ele estava puto, possesso com o que aquele faerye tinha dito e não se conteve ao aliviar a raiva em mim. Passei o pano por entre as bochechas da minha b***a e estremeci quando notei o sangue verde manchando o tecido. Desviei os olhos e terminei de me limpar, fingindo que nada estava errado. Depois, vesti uma roupa solta para dormir e deitei no colchão. ____ Acordei com um estrondo na sala e ouvi meu pai xingar. Suspirei me levantando e caminhei lentamente até lá. Agora com meu corpo descansado, tudo doía ainda mais o que era uma merda, mas eu aguentaria isso, como sempre fiz. O relógio na parede marcava meia-noite e trinta e quatro e percebi com resignação que não tinha cochilando nem trinta minutos. Pisquei meus olhos cansados e encarei o homem mancando enquanto tentava fechar a porta com o maior silêncio possível. A porta rangeu e meu pai xingou de novo. Suprimi um riso pensando em como era interessante o fato de que os objetos pareciam fazer sons mais altos quando isso era justamente o que você queria evitar. Balancei a cabeça para apagar esses pensamentos e notei quando o homem se encostou na porta fechada, como se lutasse para ficar em pé. Alguns clientes, eu sabia, pagavam por mais que sexo; eles pagavam para dominar, humilhar e machucar. Sentiam prazer com isso. Eu sabia apenas vendo seu estado deplorável que nesse dia meu pai tinha tido um desses clientes. Por isso quando meu pai cedeu, caindo no tapete remendado do chão não esperei nem mesmo meio segundo antes de ir até ele com a calma que só alguém acostumado com essa situação poderia. Lembro-me quando era pequeno, minhas mãos tremiam e eu chorava quando meu pai chegava em uma dessas situações. Não aconteceria hoje, já não acontecia á anos: eu havia crescido o suficiente para entender que minhas lagrimas não deixaria meu pai melhor. Com mãos estáveis, levantei cuidadosamente a camisa suja. Talvez esse fosse o momento em que eu suspirasse ou chorasse com a visão que estava tendo. Mas eu não era mais assim. Por esse motivo, olhei friamente para os machucados; categorizando todos os danos e tomando nota dos piores. Os vergões verdes e azuis profundos pareciam doloridos, mas só metade deles eram ruins o suficiente para que o sangue esverdeado do homem caído no tapete escorresse. Não comentei sobre as marcas adornando o corpo do zombie mais velho e mudei minha atenção para um corte particularmente sangrento. Os piores primeiro, pensei com um suspiro. Zombies tinham cura lenta. Machucados que sangravam eram sempre ruins. O homem não se moveu em nenhum momento desde que caiu no chão. Inconsciência também é r**m. Suspirei. — Zoffirg¹? — Chamei, tentando determinar se era óbito ou cansaço. — Eu... Eu estou... Estou bem, Zou... — Foi dito muito baixo, a voz abafada pelo tapete. Também revelava altos níveis de dor. Cansaço. Contive um suspiro. — Isso aqui é bastante profundo. — Falei mexendo em um dos cortes e escutando um gemido de dor. — Pelo menos deita no sofá... — Querido, eu estarei bem amanhã. — meu pai balbuciou, gemendo de dor ao mover os braços. Observei os movimentos com uma sobrancelha arqueada antes de abanar a cabeça e ajuda-lo a levantar, dizendo: — Eu não teria tanta certeza. — Disse num tom um tanto divertido, talvez frio. Já tínhamos tido aquela conversa muitas vezes antes. — Até a p***a de um humano se cura mais rápido que nós. A cura era, infelizmente, um dos piores atributos de um zombie. Até um simples corte de papel levava semanas para curar e era por isso, na verdade, que as pessoas preferiam trabalhar no bordel. Machucar um zombie era caro devido ao tempo de cura e o clube devia ter ganhado bastante por causa dessa noite do meu pai. Consegui arrastar o homem moribundo até o sofá - depois de muitos gemidos de dor -, e peguei o já quase acabado kit de primeiros socorros. Notei com um suspiro que o algodão tinha acabado e fui buscar o pano mais limpo que podia para usar. Meu pai parecia ter desmaiado nesse tempo em que fiquei fora, mas eu não estava tão preocupado e apenas comecei a molhar o tecido com um resto de soro fisiológico antes de lentamente começar a limpar os ferimentos. Em seguida passei uma espécie de unguento caseiro anti-inflamatório e cicatrizante nas feridas antes de cobrir tudo com gaze e meu pai soltou um grito de dor bastante exagerado. — Para de drama, ce' já deveria estar acostumado. — Falei com um sorriso fraco no rosto e ajeitando a atadura. — Fica quieto, cozifae²! — Essa frase foi pontuada com um gemido. Zouely riu. Me afastei para olhar o trabalho que tinha feito e balancei a cabeça, dizendo: — Hmm... Isso aqui não vai curar tão cedo. Está muito pior do que a última vez... Meu pai fez um som fraco e virou a cabeça na minha direção. Encarei aqueles olhos verdes e escutei ele falar com a voz mais clara do que antes. — Eu sei o que você acha disso. Sei que você faz o que acha certo mas... Zouely, você acha que eu não sei? Que eu faria isso se não fosse bem recompensado? — O tom dele se transformando de calmo a indignado em segundos. — Você é meu zatlan³ e tudo o que faço é para te dar uma vida boa. E com o dinheiro poderemos dar um jeitinho aqui na casa, te dar mais roupas. Suas calças já estão mostrando as suas canelas. Ignorei o que ele disse sobre minhas calças e perguntei: — Quanto você ganhou por isso? — Falei enquanto fazia um gesto com as mãos indicando seu estado. — 500 Æ — Foi a resposta e eu arfei. Minha voz falhou por um momento. — 500 Anoletas⁴? Meu pai assentiu e eu continuei — Por uma noite? — E então ele hesitou. A suspeita cresceu em meu peito. — Zoffirg? — Ele estava fazendo um acordo com Roxlan quando eu saí. — Meu pai falou com a voz um pouco fraca.— Roxlan disse que ia me deixar descansar essa semana e que na próxima diria o que ele resolveu com aquele faerye. — Você basicamente quer dizer que esse cara vai continuar te machucando assim? Não vai sobreviver nem dois dias! — Zouely! — Você não pode aceitar isso zoffirg! Isso te machuca! Você não po-... — OQUE VOCÊ FAZ TAMBÉM TE MACHUCA! OLHE PARA VOCÊ ZOU! E eu nunca impedi você porque sabia que você sabia o melhor! E eu fiquei calado quando você entrou nessa casa mancando um dois anos atrás! Quando você fingiu que estava tudo bem e que aquele monstro não tinha usado você! Eu escutei você chorar e esperei vir falar comigo! Mas você nunca fez! Você nunca falou! Então você não tem o direito de fazer isso agora, não pode me impedir de buscar o melhor para nós dois! Escutei calado todo o discurso, eu estava com raiva, triste e cansado e quando senti meus olhos arderem tanto pelas lágrimas quanto por outra coisa eu apenas corri para o quarto. Como um covarde. —— O café da manhã foi bastante tenso já que nós dois parecíamos dispostos a ignorar um ao outro. Hoje eu não havia acordado atrasado, portanto, não precisei correr para comer, mas eu preferia que tivesse para não ter que enfrentar aquele clima horrível. E estávamos os dois em silêncio quando ouvimos bem baixinho algum tipo de anúncio sendo anunciado. Provavelmente alguma outra besteira como a morte de algum cara rico e voltei a concentrar minha atenção no meu sanduíche. Ignorei completamente o aviso até ouvir meu pai arfar. "...E deverão ser mandados até a praça, com algumas de suas peças de roupa. Vão receber educação, teto e comida até que se formem. Da Ordem, por um futuro melhor." Não entendi a mensagem, visto que só escutei metade dela, e quebrei meu voto de silêncio. — O que foi? Meu pai me olhou por um momento parecendo até ser outra pessoa. — A Ordem decidiu que todas as crianças dos quatro até os 15 anos vão poder estudar. E os jovens até 25 vão fazer um curso técnico... — O quê? Quando isso? — Perguntei chocado. Era apenas demais ver o conselho mudando alguma coisa depois de 30 anos. — Lá para fevereiro. — Um pouco menos de três meses então. E então nós dois ficamos em silêncio novamente, cada um perdido em seus pensamentos. Olhei o relógio e notei que este indicava sete e quarenta e cinco. Saco. — Tenho que ir. — Falei já me dirigindo até a porta. — Tenha uma boa aula. — Foi a resposta que recebi. Bufei. "Boa aula", até parece. Fechei a porta atrás de mim e caminhei até a praça sem tentar falar com ninguém, mas eu podia sentir os olhares em mim. Obviamente estavam encarando meu novo "colar". Teoricamente, eles não deveriam ver isso como alvo estranho ou novo já que metade deles também tinham marcas assim. A diferença era que eles sabiam exatamente quem tinha feito aquelas marcas em mim. "v********a" foi dito baixinho em algum ponto atrás de mim e eu apenas fingi que não ouvi, respirando fundo e tentando me manter calmo. Ignorei a dor fraca na minha cabeça e segui meu caminho. A professora já estava lá desta vez e encarou meu pescoço. Os meus colegas aproveitaram a oportunidade para encarar as contusões também e isso foi o suficiente para me irritar. — Quê que foi, c*****o? — Gritei irritado. — Nunca viram uns machucados não? Cuidem das suas vidas de merda! Ohara e os outros pareciam assustados e desviaram o olhar de mim. Eles apenas viraram seu rosto para longe e ninguém nem tentou me chamar de qualquer coisa. Eu me sentia tão bem, poderoso, mesmo que soubesse que daqui à algumas horas eu seria a p*****a de Archeon novamente. Me encostei numa parede e ouvi com metade da minha atenção Ohara iniciar o assunto de hoje enquanto com a outra metade eu observava os transeuntes apressados caminharem pelas ruas sujas de Prinnardya e exibindo meus dentes num rosnado para qualquer um que ousasse me encarar. Ohara sabiamente me ignorou, talvez, pensei, ela tenha se lembrado de quem sou. Ou do que fiz. Captei um "bem que ele mereceu" vindo baixinho, mas tão baixinho que um zombie comum não poderia ter ouvido. Eu, de qualquer forma, não era comum e, portanto, meus olhos aguçados correram pela rua que podia ver. "Não sei não, Willy" foi a resposta sussurrada numa voz feminina e meus ouvidos já procurando pelo som praticamente se viraram para a minha esquerda. "Ele é perigoso..." a mulher continuou e então eu os vi, escondidos numa sombra fraca e me encarando a uns 20 ou 30 metros de mim. Eu sorri e pude ver a pele verde da menina empalidecer até que suas veias escuras estivessem bastantes expostas. Sai de perto da "aula" sem falar nada e caminhei ainda sorrindo até o casal. Meu humor estava péssimo e eles escolheram fofocar de mim no pior dia possível. O menino teve então uma reação bem parecida com a da menina — empalideceu até sua pele ficar mais e mais transparente — e então correu, como o maior covarde do século. Meu sorriso se alargou e eu fui atrás dele. Vi quando a menina agarrou a não do garoto e o puxou para longe de mim. Entrei num beco próximo sabendo exatamente onde a rua onde o casal estava daria e corri até chegar numa encruzilhada. Do outro lado, na minha frente, os dois vinham correndo e a menina olhava para trás. Me aproximei lentamente com minhas mãos atrás das costas e o menino estancou o passo. A menina bateu contra ele e eu escutei o menino gaguejar alguma coisa bem baixinho enquanto olhava para mim que apenas continuei indo até eles. Quando me viu novamente, a menina começou a olhar loucamente ao redor, se preparando para fugir novamente. — Vai correr? — Indaguei. — Acha que podem dizer tudo o que querem e não terão consequências? Parei a alguns metros na frente deles. — Você é um monstro nojento! — Ela gritou, raiva presente em seu tom. — Você deveria morrer! Praga! Monstro! Você merece ser essa v********a nojenta e eu torço pelo dia em que seu traficante nojento mate você! Continuei sorrindo enquanto ela falava, mantendo meu rosto naquela mesma expressão praticada em anos de escutar aquelas merdas e fingir que não me afetava. Que estava tudo bem e que nada que me dissessem doía. Não era verdade. Aquilo me machucava mais e mais e eu nem mesmo podia realmente me defender porquê ela não estava mentindo. Nenhum deles estavam. Eu era sim um monstro fodido e talvez o melhor para todos é que eu caia numa vala qualquer tão morto quanto a família que matei. Quando a garota terminou o discurso, eu sabia que tinha no máximo alguns segundos para decidir o que fazer. Pensei em mata-los como tinha feito com Sid Rogerey três semanas atrás, mas não tinha certeza se queria sujar minhas mãos de sangue de novo. E, além disso, a situação era diferente. Sid tinha invadido minha casa durante a noite e tentado cortar meu pescoço enquanto eu dormia e esses dois apenas haviam fofocado sobre mim num dia particularmente r**m. Talvez eu pudesse dar uma surra neles e deixá-los lá? Alguém os encontrariam e eles ficariam bem... Infelizmente eu não pude decidir já que o menino até então paralisado avançou em mim com uma faca. A decisão já tinha sido tomada por mim. Desviei do golpe do garoto e segurei o braço que segurava o objeto. Ele tentou com a outra mão me dar um soco, mas eu abaixei e tentei fazer com que ele largasse a faca. Foi nesse momento que, completamente desprevenido, recebi um chute entre as pernas da menina e cai no chão gemendo de dor. Porra! O menino veio pronto para rasgar meu pescoço, mas eu me levantei num pulo e, tentando ao máximo ignorar a dor nas minhas bolas, agarrei o pulso do garoto e desviei a direção da faca. A menina, novamente, veio por trás de mim e quando o amigo dela tentou novamente cortar meu pescoço eu abaixei. Houve um grito e senti algo molhado espirrar em mim e me afastei. O garoto estava paralisado em cima da menina, a faca caída no chão e as mãos dele pressionando o pescoço dela, enquanto ele chorava. — MONSTRO! MONSTRO NOJENTO! — Ele gritava, a voz um urro desesperado enquanto ele soluçava. — VOCÊ A MATOU! VOCÊ! EU VOU MATAR VOCÊ! Balancei a cabeça com um bufo ouvindo a mentira descarada. Algumas pessoas se aproximavam para ver a comoção e decidi que não valia a pena continuar ouvindo aquelas coisas. Estava cansado e sujo de sangue e decidi não chegar nem perto do Accaputti — já estava machucado o suficiente — e resolvi ir para casa, mancando levemente por todo o caminho. Meu pai, estranhamente, não estava em casa e eu apenas me joguei no sofá me sentindo subitamente cansado. Eu pensaria sobre isso depois. Não lembro quando adormeci, mas quando acordei, tudo já estava escuro. —— Estava sentado em uma das cadeiras da cozinha comendo um sanduíche de frango desfiado quando meu pai entrou, mancando, pela porta da frente. — Onde você estava? — Perguntei depois de engolir a comida que tinha na boca. — Pensei que ia ficar em casa já que tava machucado... Mas quando cheguei de manhã o senhor já não tava aqui. Meu pai fez uma careta e se moveu para sentar ao meu lado. — Roxlan decidiu me chamar para falar sobre o acordo e o cliente estava lá também... O analisei por um segundo. — Você não parece mais machucado. — E não estou. Roxlan deixou bem claro quando o pryato⁵ pediu que se eu ficasse muito machucado não poderia cumprir o acordo no prazo certinho. Fiz uma careta. Pryatos tinham fama de egocêntricos. — E o acordo? O que é? — Meu pai hesitou e meu peito apertou. — Zoffirg? O que aconteceu? — Eu... Eu vou... — Meu pai continuou hesitando. Ele parou um pouco e, passando a língua sobre os lábios, disse: — olha só... Vou ter que ir ficar com o cliente durante um tempo. Meu coração começou a bater rápido de mais, a sensação rapidamente me deixou sem ar já que os meus pulmões não estavam acostumados àquele ritmo. Senti uma pontada no peito e levei minha mão até o local. Meu pai me olhou alarmado e começou a tentar me acalmar, porém, sua voz parecia longe e minha cabeça girava. Eu ia morrer? Comecei a sufocar, meu corpo tremeu e eu não consegui mais me manter sentado na cadeira. Meu pai me agarrou quando eu caí e me deitou no chão. Lutei para respirar e encarei o homem desesperado que eu sabia estar gritando. Mas meus ouvidos zumbiram eu não escutava nada além disso. Então quando comecei a ver luzes escuras apenas fechei os olhos e deixei minha cabeça bater no chão. —— Acordar foi entranho, pensei sentido minha cabeça latejar. Continuei deitado no meu colchão sem me mover e quando olhei para o teto, tudo girou e minha mente começou a fornecer flashs de memória sobre como eu tinha parado ali. Fechei os olhos, tentando catalogar minhas lembranças. Ataque. Mortes. Roxlan. Cliente. Viajar. Soltei um gemido quando meu coração surtou novamente, mas, dessa vez, mantive tudo sobre controle e consegui impedir a minha morte. Eu sabia que embora tivesse conseguido ficar vivo nessa primeira provação na próxima eu não teria tanta sorte. Meu pai devia ter ficado louco de preocupação, pensei, mas ainda assim não tive forças para levantar. O aniversário de 29 anos dele estava próximo e eu ainda não tinha nenhuma ideia do que dar para ele. Assim como eu e muitos outros, meu pai havia nascido num mundo pós-guerra — próximo ano seria o trigésimo segundo (32°) aniversário do fim da guerra — e cresceu sabendo que pessoas da mesma raça que ele eram piores que nada. Ele viu a cada dia de sua vida nossa gente morrendo de fome, viu o sofrimento pela escassez de empregos, viu mulheres, homens e crianças sendo estuprados dia-após-dia nessa cidade infernal e não havia nada que ele pudesse fazer para impedir. Não quando ele era uma criança e não agora como um adulto. Ele viu crianças tão mestiças quanto eu nascendo nas nossas ruas enlameadas e então sendo abandonadas por pais e mães que odiavam tudo o que eles eram, o que eles representavam. Meu pai viu a dor e ouviu o choro e ao perceber que não podia ajudar, chorou junto aos seus. E junto aos seus ele sobreviveu. Quando tinha 11 anos viu Roxlan iniciar a construção do Montegomery e depois, ano após ano, o lugar ofensivo crescer. O mundo não melhorou depois disso e com 13 anos, meu pai passou pela dor insuportável de perder um zoffirg. Meu zomur⁶ era um bom homem, honesto, mas que por causa de sua beleza frágil foi agredido de todas as formas possíveis e depois deixado para morrer jogado num canto como lixo. Usado como um brinquedo e jogado fora quando quebrado. Por causa disso, meu pai e minha zorua⁷ começaram a passar necessidades já que nenhum dos dois estavam acostumados a trabalhar. Minha avó tinha uma saúde muito frágil desde que tivera meu pai. Embora, isso provavelmente se deva ao fato de que ela foi espancada e violentada pouco antes de ele nascer prematuramente. Era um milagre ele ter sobrevivido. E quando minha zorua passou fome para que meu pai pudesse comer, ele fez a única coisa que tinha prometido não fazer ao pai morto: aos 14 anos, ele bateu à porta do clube onde ficou até os dias de hoje, quase 15 anos depois. Era uma história de dor e sofrimento que eu havia escutado aos poucos enquanto ouvia escondido os adultos fofocando. Acho que por isso eu nunca havia falada com Noxzyin sobre isso. Meu pai não tinha ideia de que eu sabia sobre sua infância e eu não queria fazê-lo lembrar disso. Soltei um suspiro fraco e me forcei a levantar do meu colchão e senti incrédulo uma lágrima escorrer pela minha bochecha. Fazia um tempo desde a última vez que eu chorei. Bem, desde ontem, na verdade. Devo estar sensível, chorar duas vezes em dois dias não o meu estilo. Levantei com algum esforço e me arrastei até a sala vendo meu pai e Roxlan - que também tinha uma história de vida meio triste - conversando baixinho, mas assim que me viram, os dois encerraram o assunto. — Como você está? — Meu pai perguntou me guiando até o sofá velho. — Melhor. — Foi a única coisa que respondi, encarando Roxlan. — Porquê você está aqui? — Seu Zoffirg ficou muito preocupado com sua reação ao saber que ele vai ficar um ano longe e... — Um ano? — Interrompi com uma voz falha. — Sim, sim... — Roxlan murmurou trocando um olhar entre meu pai e eu. — De qualquer modo, o senhor Hostane não se importa que você vá junto desde que não atrapalhe nada. Fiquei mudo e Roxlan provavelmente entendeu isso como aprovação já que continuou: — Ele também prometeu não encostar em você. Ele entende que você é bastante jovem e que não trabalha para mim e... — Vou com você? — Ignorei completamente o que o homem dizia ao me virar para meu pai. — Eu não acho que eu consiga ver e não fazer nada. — Eu também não acho que é a melhor ideia — Meu pai umedeceu os lábios levemente num gesto nervoso e continuou: — Mas você nunca ficou sozinho em casa por mais de um dia e, além disso, é muito tempo. Mas você também só vai ficar lá durante três meses já que vai para aquela escola então... Escola. Eu já tinha até esquecido do anúncio de ontem. A ideia tinha mérito, mas eu sabia que se fosse simplesmente embora Archeon ficaria puto. Esfreguei a minha testa num jeito nervoso e mordi o lábio levemente antes de encarar os dois. Eu tinha tomado uma decisão, pensei com um suspiro, só me restava arcar com as consequências.
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