O túnel de serviço era um gargalo de concreto úmido e ar viciado que parecia comprimir os pulmões de Maya. O som das explosões acima deles reverberava nas paredes, transformando o silêncio do subsolo em um coro de destruição. Zion corria à frente, a lanterna tática acoplada à sua arma varrendo a escuridão, revelando canos enferrujados e o vapor que saía de suas bocas devido ao frio extremo que subia das águas do lago.
— Zion, espere! — Maya tropeçou em um ressalto de ferro, a respiração saindo em nuvens brancas e curtas.
Ele parou instantaneamente, voltando-se para ela. Não havia tempo para delicadezas, mas seus olhos negros queimavam com uma intensidade que a ancorava no presente. Ele a segurou pelos ombros, verificando se ela estava ferida.
— Estamos quase lá, Maya. O túnel deságua em uma doca privada abaixo do nível do cais — ele disse, a voz baixa, mas vibrante. — Marcus sabe que o cofre foi acessado. Ele vai cercar as saídas terrestres. A única direção que ele não espera que tomemos é o Lago Leman no meio de uma tempestade de gelo.
— Atravessar o lago? — ela perguntou, incrédula. — A essa temperatura, se cairmos na água, teremos menos de três minutos antes do choque térmico.
— Não vamos nadar. Arthur deixou um protocolo de fuga. Se o contato dele ainda estiver ativo, haverá um interceptador submersível nos esperando.
Eles continuaram, o túnel terminando em uma grade de ferro pesada que Zion chutou com toda a sua força. O som do metal cedendo foi abafado pelo rugido do vento que vinha do exterior. Diante deles, o Lago Leman estendia-se como um deserto de obsidiana líquida, com blocos de gelo flutuando como fragmentos de espelhos quebrados.
Assim que pisaram na passarela de madeira que contornava a base do Consulado, um ponto de luz vermelha dançou no peito de Zion.
— CHÃO! — ele rugiu, lançando-se sobre Maya e rolando para trás de uma coluna de concreto no exato momento em que uma bala de alta precisão estilhaçava a madeira onde eles estavam.
O som do tiro não veio do Consulado, mas do topo de um iate de luxo ancorado a trezentos metros dali. Marcus não estava apenas esperando; ele havia montado um perímetro de franco-atiradores.
— Ele está no Aurelius — Zion sibilou, referindo-se ao barco. — Ele conhece todos os meus protocolos. Ele sabia que eu viria pelo esgoto.
— Zion, olhe! — Maya apontou para a água. Uma pequena boia amarela surgiu a poucos metros da passarela, expelindo ar comprimido. Era o sinal do interceptador submersível.
— Maya, escute bem. Eu vou suprimir o fogo deles. Quando eu disser "já", você vai correr para a borda e mergulhar em direção à boia. O escotilhão estará aberto.
— E você?
— Eu vou logo atrás. Não pare por nada.
Zion levantou-se parcialmente, disparando sua arma em intervalos calculados contra o iate, forçando o franco-atirador a se proteger. As balas dele eram como picadas de mosquito contra a blindagem do barco, mas o objetivo era a distração.
— AGORA! VÁ!
Maya correu. O frio era tão intenso que parecia que seus pulmões iam congelar por dentro. Ela saltou da passarela, mergulhando na água que parecia feita de agulhas líquidas. O choque foi devastador. Por um segundo, seu cérebro gritou para ela parar de respirar, mas a visão da escotilha aberta logo abaixo da superfície a impulsionou. Ela entrou no pequeno cockpit de dois lugares, tremendo violentamente.
Segundos depois, Zion mergulhou. Ele entrou no submersível, selando a escotilha enquanto balas atingiam o casco reforçado com um som metálico de "clanc".
— Ative a propulsão! Alavanca vermelha à direita! — ele gritou, tentando expelir a água dos pulmões.
Maya puxou a alavanca. O pequeno motor elétrico zumbiu, e o submersível mergulhou nas profundezas escuras do lago, escapando da mira de Marcus.
Dentro da pequena cápsula, o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo som das respirações pesadas e pelo gotejar da água de suas roupas térmicas. Zion acionou o aquecimento de emergência, e um vapor quente começou a encher o espaço exíguo.
Maya olhava para as mãos de Zion. Ele ainda segurava o gravador de rolo e os microfilmes como se fossem a coisa mais preciosa do universo.
— Por que ele fez isso, Zion? — ela perguntou, a voz trêmula. — Arthur... por que ele não nos levou com ele? Se ele tinha tanto poder, por que nos deixar naquele inferno de St. Jude?
Zion encostou a cabeça no painel de controle, fechando os olhos por um breve momento. A dureza em seu rosto parecia derreter sob a luz fraca do cockpit.
— O diário de sua mãe e esses documentos dizem a mesma coisa, Maya. Arthur descobriu que o conselho dos Lancaster tinha infiltrados em todos os governos. Se ele fugisse conosco, seríamos alvos móveis. No orfanato, sob a identidade de órfãos anônimos, tínhamos uma chance de desaparecer.
— Uma chance que custou a nossa infância — ela retrucou, com uma amargura que vinha de anos de solidão.
— Sim — Zion virou-se para ela. Ele estendeu a mão e tocou a face de Maya, sua pele aquecendo a dela. — Ele foi um covarde por nos deixar lá, mas foi um gênio por criar esse rastro de pão que nos trouxe até aqui. Ele sabia que, um dia, eu teria recursos para vir buscar a verdade. Ele só não previu que eu encontraria você no meio do caminho.
— E agora? O que esses microfilmes provam exatamente?
— Eles provam que a Lancaster Heritage Fund financiou golpes de estado para garantir minas de cobalto e diamante. E provam que Marcus e o pai dele foram pagos para matar Arthur quando ele ameaçou entregar tudo ao Tribunal de Haia. Marcus não quer apenas o dinheiro, Maya. Ele quer o silêncio eterno sobre o pecado original da família dele.
Zion olhou para o sonar. Eles estavam se aproximando da margem francesa do lago.
— Nós vamos para Évian-les-Bains. Lá, o contato de Arthur, um ex-juiz que vive na clandestinidade, nos espera. Se conseguirmos autenticar esses arquivos, teremos a arma que destruirá os Lancaster sem que precisemos disparar mais um tiro.
Maya observou Zion. Havia algo de novo nele. A arrogância do CEO de Nova York dera lugar a uma determinação sombria, quase heróica. Ele não estava mais lutando apenas pela sua empresa ou pela sua segurança; ele estava lutando pela memória de um pai que ele odiara a vida inteira e pela mulher que se tornara seu único ponto de luz.
— Zion... — ela disse, a voz mais suave. — Se sairmos vivos dessa, o que resta para nós? Depois que os Lancaster caírem e o mundo souber a verdade... quem você será?
Zion ficou em silêncio por um longo tempo, o som do sonar biipando ritmicamente. Ele olhou para Maya, e ela viu, pela primeira vez, uma vulnerabilidade genuína em seus olhos.
— Eu passei a vida construindo muros, Maya. Muros de dinheiro, de vidro e de indiferença. Eu achei que, se eu fosse poderoso o suficiente, ninguém poderia me ferir. Mas a verdade é que eu nunca estive tão vivo quanto estive nestes últimos dias, fugindo com você.
Ele se aproximou mais, o espaço reduzido forçando-os a uma i********e inevitável.
— Quando isso acabar, eu não quero mais ser o Rei de Black Industries. Eu quero apenas ser o homem que pode acordar ao seu lado sem ter que verificar se há uma arma debaixo do travesseiro. Eu quero descobrir quem é o Zion que não precisa de um império para se sentir completo.
Maya sorriu, uma lágrima solitária escorrendo pelo seu rosto. Ela segurou a mão dele, entrelaçando seus dedos.
— Esse Zion... eu acho que gostaria de conhecê-lo.
O submersível estremeceu quando tocou a rampa de desembarque oculta na margem francesa. A luz do dia começava a aparecer no horizonte, tingindo o céu de um tom púrpura ameaçador.
— Prepare-se — Zion disse, voltando ao seu tom de comando, mas sem soltar a mão dela. — O juiz nos espera em uma vinícola abandonada. Marcus terá que cruzar a fronteira legalmente ou arriscar um incidente internacional. Ganhamos algumas horas, mas a caçada está apenas começando.