Gabriel
O despertador foi um insulto. Meus olhos ardiam, pesados por uma noite em que o sono foi substituído pelo replay incessante de uma voz rouca e um esbarrão de ombro que ainda parecia queimar minha pele. Eu era um homem de trinta anos, com cicatrizes que contavam histórias de vida e morte, agindo como um adolescente por causa de uma garota de dezoito. Como se não bastasse todas as lembranças de um passado não muito distante, ainda tinha que lidar com a imagem dela surgindo hora ou outra na minha mente.
— Esquece isso, Gabriel — resmunguei para as paredes mofadas da kitnet enquanto abotoava a camisa. — Ela é o inferno. E você já passou tempo demais queimando. E é só uma garota.
Caminhei até a escola com o café amargo ainda no estômago. Não comi nada porque a comida simplesmente não descia. Achei que estar aqui me daria mais tranquilidade para lidar com minha vida. Mas não e bem isso que esta acontecendo. Entrei na sala 4-B e a primeira coisa que meus olhos fizeram foi trair minha vontade: eles buscaram a última carteira, junto à janela.
Vazia.
Senti um alívio que, na verdade, tinha gosto de decepção. Organizei meus livros, escrevi o tópico da aula no quadro — Realismo: a máscara da sociedade — e dei início à chamada. A ausência dela era como um buraco n***o na sala, sugando minha concentração. Eu repetia para mim mesmo que era melhor assim. Sem Maya, sem problemas. Sem a irmã do DG, sem o risco de uma bala na nuca.
consegui trazer a concentração dos alunos para mim. Eles pareciam realmente interessados no que eu estava dizendo.
A aula já passava dos quinze minutos quando a porta rangeu.
O burburinho dos alunos começou e cessou instantaneamente. Maya entrou. Ela não estava com o uniforme completo; usava uma jaqueta de couro por cima da camiseta da escola e seus cabelos estavam soltos, selvagens. Ela não pediu licença. Não olhou para os lados. Apenas caminhou em direção ao seu lugar com a arrogância de quem é dona do prédio.
Parei de escrever no quadro e me virei, apoiando o giz no suporte.
— Atrasada, Maya — falei, minha voz saindo mais fria do que eu pretendia. — A regra de tolerância é de dez minutos. Para todos.
Ela parou no meio do caminho, mas não se virou para mim. Apenas continuou seu trajeto e sentou-se, jogando a mochila sobre a mesa com um estrondo proposital. Ela pegou um fone de ouvido, colocou em um dos ouvidos e começou a folhear o livro como se eu fosse invisível. Como se o homem que a desarmou nas vielas ontem à noite nunca tivesse existido.
O descaso dela era uma faca afiada.
— Vou considerar que o seu silêncio é um pedido de desculpas mudo — continuei, voltando para a explicação. — Abram na página vinte e dois. Vamos falar sobre as convenções sociais e como os personagens de Machado usavam a aparência para esconder a podridão interna.
Durante os quarenta minutos seguintes, eu dei a melhor aula da minha vida. Eu falava sobre máscaras, sobre segredos e sobre como as pessoas mais poderosas são, muitas vezes, as mais escravas das próprias mentiras. Eu sabia que ela estava ouvindo. Eu via o modo como ela parava de folhear o livro quando eu enfatizava certas palavras.
O sinal tocou, libertando a tensão da sala. Os alunos se levantaram, apressados para o intervalo. Maya foi a primeira a se levantar, guardando o material com uma rapidez febril.
— Alisson, Letícia, podem ir — falei, sem olhar para trás enquanto apagava o quadro. — Maya, espere um pouco. Precisamos conversar sobre o seu... desempenho.
Ouvi os passos dela pararem. O silêncio na sala vazia era tão denso que eu podia ouvir o tique-tique do relógio de parede. Esperei que a última pessoa saísse e fechei a porta.
Virei-me para ela. Maya estava encostada na mesa, os braços cruzados, o olhar fixo em um ponto qualquer da parede. A postura de "patroa" estava de volta, mas o brilho defensivo nos olhos denunciava que ela estava esperando o ataque.
— O que foi agora, professor? — Ela cuspiu a palavra como se fosse um insulto. — Vai me dar uma advertência por escrito ou vai tentar ler as minhas entrelinhas de novo? Porque eu já te avisei: quem olha demais para onde não deve, acaba perdendo a visão.
Caminhei lentamente até a primeira fila, parando a uma distância segura, mas ainda assim perto demais para que ela pudesse ignorar a minha presença.
— O seu problema não é o atraso, Maya — comecei, baixando o tom de voz. — É o medo de que, se você ficar sentada naquela cadeira por tempo demais, eu acabe te convencendo de que você é mais do que a irmã de um traficante.
Ela finalmente me olhou. O ódio estava lá, mas havia algo mais. Um desafio que queimava.