O Abismo

603 Palavras
Maya O mundo lá fora estava desmoronando em estilhaços e pólvora, mas aqui dentro, naquele cubículo com cheiro de cloro e poeira, o tempo parecia ter coagulado. Eu conseguia ouvir o eco dos fuzis no corredor, o grito abafado de algum soldado, mas tudo parecia distante. O som que dominava meus ouvidos era a batida pesada do coração de Gabriel contra o meu peito. Senti seus dedos se fecharem na minha cintura. Não foi um toque gentil; foi um aperto firme, possessivo, como se ele estivesse me ancorando no chão para que eu não saísse voando com o pânico. O calor das mãos dele atravessava o tecido da minha jaqueta, e eu senti um arrepio que não tinha nada a ver com o medo do tiroteio. — Gabriel... — sussurrei, as mãos ainda agarradas ao colarinho da camisa dele. — Quem é você de verdade? Ele não respondeu de imediato. Senti o peito dele subir e descer em uma respiração funda. — Isso realmente importa agora, Maya? — A voz dele saiu rouca, vibrando contra o topo da minha cabeça. — Importa — afirmei, afastando o rosto apenas o suficiente para encarar aqueles olhos que, na penumbra, pareciam dois poços de segredos. — Um professor quer da aula de romances não sabe onde se esconder em uma invasão tática. Um professor não imobiliza uma garota com essa frieza. — Pelo visto, um professor pode saber mais do que imagina — responde seco. — Eu tenho formas de descobrir, você sabe. O morro tem ouvidos que chegam até o asfalto. Senti a mudança nele no mesmo instante. A postura de Gabriel ficou rígida. O homem que me abraçava com proteção deu lugar a algo mais sombrio, mais afiado. Ele se inclinou para frente, invadindo o pouco espaço que me restava, me prensando contra a parede fria do depósito. Podia sentir o hálito dele — café e algo metálico — contra o meu rosto. — Você não deveria mexer no que está quieto, Maya — ele disse. O tom não era uma ameaça vazia de bandido, era uma advertência firme, de quem conhece o peso de um segredo. — Tem portas que, depois de abertas, não podem mais ser fechadas. E você é só uma garota. — Não sou criança. E nem uma garota qualquer. — Deveria se manter longe... Eu não recuei. Pelo contrário, espalmei minhas mãos no peito dele, sentindo os músculos tensos sob a camisa. A adrenalina do ataque lá fora estava se transformando em algo perigoso aqui dentro. — Você ainda não percebeu? — Soltei um sorriso desafiador, mesmo com o coração na boca. — Eu sou uma Albuquerque. Eu gosto de um desafio. E você é o maior que já apareceu na minha frente. Gabriel soltou uma risada curta, sem nenhum humor, e se aproximou ainda mais. Seus lábios roçaram a ponta do meu nariz, uma proximidade que me fez esquecer como se respirava. — Eu não acredito muito nisso — ele murmurou, a voz baixando para um tom perigosamente íntimo. — Você gosta da sensação de controle, Maya. Mas o que eu carrego... não é algo que você possa controlar. A tensão entre nós era tão palpável que eu sentia que, se estendesse a mão, poderia cortá-la. O barulho dos tiros ao fundo se tornou um ruído branco, uma trilha sonora esquecida. Naquele momento, no escuro, não existia DG, não existia invasão, não existia escola. Existia apenas o aperto dos dedos dele na minha cintura e a promessa silenciosa de que, se eu continuasse cavando, eu poderia encontrar um monstro — e que, talvez, eu estivesse louca para conhecê-lo.
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