Gabriel.
O silêncio do quartinho foi brutalmente assassinado pelo som da carne encontrando a carne. Quando meus lábios colidiram com os de Maya, não houve hesitação, não houve o "romantismo" que eu pregava nas aulas. Foi uma explosão de necessidade represada, um choque elétrico que percorreu minha espinha e me fez esquecer que o mundo lá fora estava em guerra.
O beijo começou faminto, uma disputa por território. Maya não recuou; ela se impulsionou contra mim, as mãos pequenas enroscando-se na minha nuca, puxando-me para mais perto, como se quisesse fundir nossas respirações. Eu a prensei contra a parede fria, sentindo o calor dela incendiar minha pele.
Eu estava faminto por essa garota e nem tinha me dado conta do quanto. O beijo era firme, sem reservas, sem pudores. Eu nem ao menos me lembrava que ela era apenas uma garota. Por que neste momento, ela era tudo o que eu precisava.
— Você... você está acordando o monstro, Maya — sibilei entre um beijo e outro, minha voz saindo como um rosnado baixo, a sanidade escorrendo pelos meus dedos.
Ela não disse nada. Sua resposta foi morder meu lábio inferior e me puxar para um beijo ainda mais firme, mais profundo, invadindo minha boca com uma urgência que dizia que ela queria cada grama daquele perigo. Minha mão subiu para o pescoço dela, meus dedos apertando a pele macia, sentindo a pulsação frenética sob o meu polegar. A outra mão, possessiva, deslizou por baixo da camiseta, subindo pela curva da sua cintura, mapeando cada centímetro de calor até que eu estivesse a um suspiro de tocar a renda do seu sutiã, de sentir o peso do seu seio na minha palma.
Eu estava perdido. O cheiro dela, o gosto de adrenalina e pecado... eu estava pronto para me afogar ali mesmo.
— Maya?! Maya, cadê você?!
O grito veio de longe, mas cortou o clima como uma lâmina de gelo.
Interrompi o beijo de forma bruta, afastando-me dela com um solavanco que fez o ar frio entre nós parecer uma agressão. Maya ficou estática por alguns segundos, os lábios inchados, os olhos nublados e a respiração tão ruidosa quanto a minha. Ela parecia perdida em um transe, até que a voz ecoou novamente, mais perto dessa vez.
— Maya?
Era o DG.
— Precisamos sair — falei, a voz cortante, recompondo a máscara de gelo enquanto ajeitava a camisa com mãos que ainda tremiam.
Maya apenas concordou, tentando organizar o cabelo desfeito, o olhar ainda fixo no meu. Ficamos ali, naquele cubículo escuro, nos olhando como dois sobreviventes que não queriam abandonar o único refúgio que já tinham conhecido.
— Gabriel... — ela chamou meu nome de uma forma que nunca tinha usado antes. Estava insegura, a "patroa" tinha dado lugar a uma mulher que acabara de descobrir um segredo perigoso.
— Depois. Conversamos depois — garanti, sem olhar para trás.
Respirei fundo, recuperei o olhar de quem não tem nada a perder e chutei levemente a porta para garantir que o campo estava limpo. O som dos tiros havia cessado, dando lugar a um silêncio pesado de pós-batalha. Fui o primeiro a sair, a postura rígida, os sentidos em alerta máximo.
Assim que pisei no corredor, dei de cara com o inferno.
DG estava ali, a poucos metros, cercado por homens armados, o fuzil pendurado no ombro e o rosto suado e sujo de fuligem. O olhar dele, carregado de uma preocupação letal, travou no meu. No segundo seguinte, Maya saiu logo atrás de mim, ajeitando a jaqueta, tentando disfarçar o rubor nas bochechas e o brilho nos olhos que o escuro do armário não conseguiu apagar.
O silêncio no corredor era mortal. DG alternava o olhar entre mim e a irmã, a tensão subindo como fumaça de pólvora. Ele não disse uma palavra, mas o modo como apertou a coronha da arma dizia que o verdadeiro perigo estava apenas começando.