Helena narrando
Eu não dormi, não consegui, não que eu não tenha tentado. Deitei às 22h30, exatamente, depois de separar a roupa, passar o crachá, revisar o manual que a recepcionista me entregou na tarde anterior.
O manual era grosso, umas quarenta páginas, letra miúda e diagramação apertada, como se quisessem economizar papel mesmo numa empresa bilionária. Comecei a ler às 23h, terminei à 1h da manhã, reli os capítulos sobre "Conduta no ambiente corporativo" e "Protocolos de comunicação com a presidência" mais três vezes, até decorar cada vírgula.
Dali em diante, foi só insônia.
Letícia roncava do outro lado do quarto, a gente dividia um kitnet minúsculo na Vila Mariana, e ela tinha o dom sobrenatural de dormir em qualquer posição, em qualquer lugar, em qualquer circunstância. Eu, ao contrário, ouvia a geladeira zumbindo, os carros lá embaixo, meu próprio coração batendo descompassado. Quando o despertador tocou, 5h30, eu já estava acordada há meia hora, olhando para o teto, enumerando mentalmente todos os passos do dia.
Acordar, tomar banho, vestir a roupa.
Terno preto, escolhi por eliminação: o azul-marinho já tinha usado na entrevista, o cinza tinha uma mancha invisível que só eu enxergava, o preto era sóbrio, discreto, profissional. Blusa branca de gola alta, sem decote, sem ousadia. Cabelo preso, coque baixo, nenhum fio solto.
Maquiagem leve, quase nenhuma, base, blush, rímel.
Sapatos de salto médio, os mesmos do dia anterior, os calos já doíam antes mesmo de eu calçar. Eu queria passar despercebida, mas com segurança, queria ser vista apenas o suficiente para ser lembrada, mas não examinada.
No metrô, às 6h45, o vagão já estava cheio, corpos anônimos se espremendo, ninguém olhava nos olhos de ninguém. Eu fiquei em pé, segurando a alça, sentindo o peso da bolsa no ombro, o cheiro de café e suor e esperança acumulada. O painel eletrônico mostrava as estações uma a uma, e cada uma que passava me aproximava de algo que eu não conseguia nomear. Quando o trem entrou na estação mais próxima da Valente, a Avenida Paulista já fervilhava, seis e meia da manhã e o centro financeiro já estava acordado, pulsando, exigindo. O prédio da Valente Holdings era um dos mais altos da região, vidro escuro, linhas retas, uma arquitetura que não pedia licença para entrar no céu, tomava o espaço como quem tem direito.
Na portaria, já havia fila para o crachá.
Funcionários, dezenas deles, todos vestidos em tons de cinza, azul-marinho, preto. Pareciam um exército, todos controlados, todos contidos, nenhum sorriso fora de hora. Eu esperei na fila, mostrei o e-mail de confirmação, recebi o crachá com minha foto já estampada, uma foto que eu tinha enviado semanas atrás e que agora me olhava com uma familiaridade estranha.
— Acesso liberado para os andares 1 a 25. — O segurança disse, depois de escanear. — Exceto o 25, que exige autorização adicional.
Eu sabia disso, o manual deixava claro. O 25º andar, o andar do presidente, não era para qualquer um. Eu teria que pedir autorização para Ricardo toda vez que precisasse subir. Minha mesa, por enquanto, ficava no 12º andar, na ala dos estagiários de alta performance, ou como eles chamavam internamente, "o viveiro".
O elevador estava lotado, eu entrei no fundo, encostei as costas no espelho, observei.
Pessoas conversavam baixo, sobre prazos, sobre reuniões, sobre metas. Ninguém falava da vida pessoal, ninguém perguntava sobre o fim de semana, ninguém ria. Toda aquela gente parecia ter um único objetivo: entregar, performar, não errar. O elevador parou no 8º, no 10º, no 11º. Cada vez mais vazio, cada vez mais silêncio.
Quando abriu no 12º, eu saí, e me vi num andar completamente diferente do que eu imaginava.
Não era o luxo do 25º, não era o vidro e o couro e a escultura que eu não entendia. Era um espaço funcional, quase industrial: mesas enfileiradas, computadores de última geração mas sem frescuras, paredes brancas, nenhuma decoração. E estagiários, muitos estagiários, uns vinte ou trinta, em suas mesas, teclando freneticamente, alguns com fones, outros com olheiras, todos com ar de quem já começava o dia correndo. Uma mulher morena, uns trinta e poucos anos, jaleco branco sobre a roupa social, se aproximou.
— Helena Duarte?
— Sim.
— Fernanda Oliveira, coordenadora de estágio. Vou te apresentar o setor e já te encaminhar para suas primeiras tarefas.
Ela andava rápido, quase correndo, falava rápido também, em frases curtas, como se cada segundo perdido fosse dinheiro desperdiçado.
— O 12º andar é o centro nervoso operacional, aqui a gente processa dados, organiza relatórios, prepara tudo o que vai para cima. O 25º só recebe produto final, não recebe rascunho, não recebe 'quase lá'.
Ela me mostrou a copa, pequena mas equipada, café expresso, água filtrada, frutas.
— Aqui você vai passar muito tempo, principalmente no começo. A gente ama café, mas odeia perda de tempo, então seja rápida, pegue o seu e volte para a mesa.
Mostrou os banheiros, a sala de reuniões pequena, o arquivo morto.
— Agora. — Ela disse, parando em frente a uma mesa vazia, no canto do andar, perto da janela. — Essa é a sua mesa.
A mesa tinha um computador, um bloco de notas, uma caneta, um copo descartável.
— Senha do sistema está no bilhete. Você tem até o almoço para configurar seus acessos e ler os manuais de procedimento que estão na sua pasta compartilhada. Às 13h30, você tem uma reunião com o Sr. Valente."
O coração deu um salto.
— Com ele? Diretamente?
— Diretamente. — Fernanda confirmou, com um tom que não era de alerta nem de incentivo, era de informação pura. — Ele mesmo pediu. Cada estagiário da ala dele tem uma reunião inicial individual. Vinte minutos, nem mais nem menos.
Ela se virou para sair, mas parou.
— Uma dica, Helena. Não tente impressionar ele. Não funciona. Só faça o que foi pedido, exatamente como foi pedido, no prazo pedido. E nunca, em hipótese alguma, minta.
Ela saiu, o salto batendo no piso de cerâmica, som se afastando. Eu sentei na minha mesa, liguei o computador, digitei a senha. O sistema era complexo, cheio de pastas, subpastas, permissões, alertas. Comecei a navegar, ler os manuais, anotar pontos importantes.
Ao meu redor, os outros estagiários trabalhavam como formigas, cada um na sua, alguns cochichavam entre si, outros falavam ao telefone em tons baixos e profissionais. Um rapão, uns vinte e poucos, loiro, olhos claros, sentado na mesa ao lado da minha, me olhou de canto.
— Novata?
Eu virei para ele.
— Estagiária nova, sim.
— Thiago. — Ele disse, estendendo a mão. — Estou aqui há três meses. Se precisar de ajuda, é só chamar.
O sorriso dele era aberto, fácil, diferente de tudo que eu tinha visto até ali.
— Agradeço.
— Sério. — Ele insistiu, baixando a voz. — O 12º andar parece assustador, mas a gente se acostuma. Exceto o 25º. O 25º a gente nunca se acostuma.
— Você já foi lá?
— Uma vez. Entregar uns documentos. O silêncio é ensurdecedor, parece que o ar é mais pesado. E o presidente... bom, você vai conhecer.
— Já conheci. — Eu disse, sem pensar.
Thiago arqueou uma sobrancelha.
— E como foi?
Eu pensei antes de responder, pesei cada palavra.
— Foi... educativo.
Ele riu, baixo, e voltou para o computador.
O resto da manhã foi uma correria organizada. Eu configurei e-mails, aprendi a usar o sistema de agendamento, li relatórios antigos para entender o formato, memorizei a estrutura hierárquica da empresa.
Às 12h30, a copa ficou cheia.
Estagiários comiam em pé, rápido, sanduíches, saladas de pote, iogurtes. Eu peguei uma maçã e um café, sentei num canto vazio, observei. As conversas eram todas sobre trabalho: prazos apertados, chefes exigentes, o sistema que travou, o relatório que precisava ser refeito. Ninguém falava de namoro, de família, de férias. Parecia que morávamos todos ali, que a vida fora do prédio era apenas um intervalo entre expedientes.
Letícia mandou mensagem:
— E aí, como tá o primeiro dia? Já demitiram alguém?
Eu ri baixo, digitei rápido:
— Tudo sob controle. Depois conto.
Não estava tudo sob controle, na verdade, eu só estava sobrevivendo, respirando entre uma tarefa e outra, contando os minutos até a reunião.
Às 13h25, eu subi.
O elevador para o 25º andar exigia o crachá e uma digital. Eu apoiei o polegar, o leitor apitou, a porta abriu. O corredor do 25º era diferente de tudo que eu tinha visto, mais largo, mais silencioso, o piso de madeira escura contrastava com as paredes claras, e as portas eram todas de vidro fosco, com números discretos.
A recepção do andar era uma mesa vazia, ninguém sentado, apenas um interfone.
— Helena Duarte para o Sr. Valente. — Eu falei.
— Pode entrar. — Uma voz respondeu, a voz de Ricardo.
A porta do fundo, a maior de todas, se abriu sozinha.
A sala dele estava igual, a mesma mesa impecável, a mesma parede de vidro, o mesmo homem de costas para a janela, só que dessa vez ele já estava me encarando antes mesmo de eu cruzar a soleira.
— Pontual. — Ele disse. — Gosto disso.
— O manual diz que atrasos são intoleráveis. — Eu respondi, e imediatamente me arrependi, porque soou como uma resposta ensaiada, e ele percebeu.
— Sente-se. — Ele apontou para a cadeira em frente à mesa.
Sentei, coluna reta, mãos no colo, bolsa no chão ao lado da cadeira.
Ele não sentou atrás da mesa, andou ao redor dela, parou perto da janela, braços cruzados.
— Conte-me o que aprendeu até agora.
Não era uma pergunta sobre o manual, eu sabia disso. Era uma pergunta sobre o que eu tinha observado, sobre como eu lia o ambiente. Aprendi que todos têm medo de você, pensei, mas não disse. Que ninguém sorri à toa aqui, pensei, mas também não disse.
— Que o 12º andar trabalha para alimentar o 25º andar, — Eu respondi. — Que aqui são tomadas as decisões, lá são executados os encargos. E que a comunicação entre os dois níveis precisa ser impecável, porque um erro pequeno lá vira um caos aqui.
Ele não reagiu, o rosto permaneceu impenetrável.
— Continue.
— E que o senhor valoriza a verdade acima de qualquer outra coisa, mesmo que a verdade seja desconfortável.
Um segundo de silêncio.
— Você aprendeu isso em meio período?
— Eu aprendi isso ontem, quando o senhor me disse que eu fui a única candidata que não mentiu.
Dessa vez, houve uma reação, mínima, quase imperceptível. O canto dos lábios dele se moveu, não chegou a ser um sorriso, mas foi a coisa mais próxima de um que eu tinha visto.
— Helena. — Ele disse, meu nome na boca dele soando diferente, mais pesado. — Você é rápida. Isso é bom. Mas velocidade sem direção é só agitação.
Ele se aproximou, sentou na borda da mesa, ficando mais perto de mim do que na primeira vez.
— Vou te dar uma tarefa, sua primeira tarefa de verdade. Quero que você analise os últimos três contratos fechados pela empresa e me entregue um relatório destacando os pontos que, na sua opinião, poderiam ter sido negociados de forma mais vantajosa para nós.
Era uma armadilha, eu sabia. Contratos fechados por Arthur Valante, negociados por Arthur Valente, e eu, uma estagiária de primeiro dia, deveria apontar falhas?
— Tem prazo?
— Quarta-feira, 9h da manhã. Use o sistema, puxe os arquivos, consulte se precisar. Mas não consulte ninguém do 12º andar.
— Por que não?
— Porque o 12º andar tem medo de me desagradar, então vão te dizer o que eu quero ouvir, não o que você precisa saber. Quero sua opinião, não a opinião deles sobre a minha.
Ele se levantou, voltou para trás da mesa.
— Pode ir. E Helena.
— Sim?
— O primeiro dia é sempre o mais fácil. A partir de amanhã, começa de verdade.
Saí da sala, desci os 25 andares, voltei para minha mesa. O computador já estava ligado, os contratos me esperavam, eu abri o primeiro e comecei a ler. No andar inteiro, só se ouvia teclas. E, pela primeira vez em muito tempo, eu não estava no controle, não mesmo, eu estava exatamente onde ele queria que eu estivesse, e o pior, o muito pior, era que uma parte de mim gostava.