Ao entrarem pela porta principal, Justine não teve muito tempo para olhar em volta até ser conduzida à sala que mais parecia uma biblioteca. Estantes circundavam as paredes laterais, repletas de livros, com apenas um vão na parede da direita que indicava a presença de uma longa janela. Havia um imenso sofá de cor escura ao centro e, ao fundo, uma grande lareira espalhava um calor reconfortante. No teto, pendia um enorme lustre de cristais com várias lâmpadas. Era a sala de entrada, que Justine conhecia muito bem.
A mulher ainda desconhecida para Justine era magra, apesar do rosto redondo. Tinha olhos pequenos e negros, usava os longos cabelos avermelhados soltos, o que lhe conferia um ar de sensualidade.
Ela falou para a jovem que havia aberto o portão:
— Analice, vá avisar rapidamente a madre superiora sobre a chegada da irmã Justine!
— Irmã Justine, esta é a irmã Beatriz. Ela veio ficar conosco pouco tempo depois de sua partida, há sete anos — disse a mais velha, que se chamava Frederica.
Justine olhou para Beatriz e não soube definir o que sentia em relação à sua energia. Não sentiu repulsa, mas também não sentiu simpatia. Talvez, devido às emoções dos últimos acontecimentos, não tivesse conseguido se conectar a ela de imediato. Ainda assim, sorriu e fez um leve aceno de cabeça.
Ao retirar a pequena do peito, viu que ela continuava dormindo, alheia a tudo que acontecia ao seu redor. Naquele momento, todas as mulheres observavam a recém-nascida.
— Há quantos dias ela nasceu? — perguntou Frederica.
— Tem pouco mais de uma semana. Sei o dia e a hora exatos do nascimento — respondeu, embora já não tivesse muita certeza de quantos dias haviam se passado desde o início de sua jornada até ali.
Justine sabia que o nascimento da pequena, marcado pela morte de sua genitora durante o parto, trazia grande perigo. Logo depois, deu um destino digno ao corpo e fugiu com a criança sem dizer nada a ninguém, pois sabia que aqueles que haviam atacado aquela luna poderiam vir atrás dela e da bebê.
Já havia entendido que o Oráculo teria avisado sobre sua volta ao mosteiro com uma carga preciosa, e Justine tinha ideia do motivo. Mas teria o Oráculo avisado também sobre os inimigos?
Sabia que corria perigos.
Os vampiros que perseguiam a mãe da lobinha poderiam encontrá-las. Os outros vampiros que caçavam e matavam filhotes também. Havia ainda os próprios lobos, que poderiam desconfiar de suas intenções com a bebê, afinal, ela deveria pertencer a alguma matilha.
Mas seria a situação tão perigosa a ponto de justificar um aviso do Oráculo?
O pai da criança ela sabia que estava morto.
Tantas perguntas surgiam agora.
Porém, não teve mais tempo para refletir, pois a madre superiora, líder das irmãs bruxas, entrou no recinto.
Era a mulher mais alta que Justine já tinha visto na vida e também a única bruxa albina que conhecia.
A madre olhou diretamente para Justine e caminhou em sua direção sem desviar os olhos dos dela.
— Justine, diga-me que ninguém mais sabe da existência desse bebê e que ninguém a seguiu — disse a madre em tom baixo, demonstrando certa ansiedade.
— Madre Vitória, ninguém sabe que a criança nasceu. E quem sabe que estou com ela acredita que sou sua mãe. Fui cuidadosa e não precisei dar satisfações a ninguém — respondeu Justine, sentindo certa decepção por não ter sido cumprimentada antes de tudo.
— Graças a Hécate! Que bom que está de volta. A boa irmã retorna à sua casa! — disse irmã Vitória em um tom calmo e solene.
Justine apenas sorriu sem entusiasmo.
Ela sabia que o melhor lugar para levar a criança era o mosteiro, ainda mais devido às circunstâncias de seu nascimento.
Era também um retorno ao lugar que havia sido seu lar desde que se conhecia por gente.
Fora levada para as freiras por sua mãe, que costumava dizer que a menina simplesmente corria até as pessoas e afirmava que elas estavam doentes e que iria curá-las. Muitos achavam graça, acreditando ser apenas coisa de criança. Outros, porém, viam-se curados de suas enfermidades poucos dias depois de Justine tocar-lhes a fronte.
Até que, certo dia, sua avó materna ficou prostrada por causa de uma gripe.
Justine disse que não poderia curá-la, pois estava na hora de ela morrer.
Não demoraram muitos dias para que a avó realmente falecesse.
Sua mãe a culpou, deu-lhe uma surra e a abandonou na fortaleza, alegando que estava endemoniada, possuída pelo d***o.
Justine tinha apenas quatro anos.
Desde então, sua mãe, que era solteira, jamais voltou para buscá-la.
Quando completou trinta e três anos, o Oráculo determinou que deveria partir em busca de seu destino.
Agora, sete anos depois de ter ido embora com imensa tristeza, estava de volta.
Estava em casa.