Primeira noite no monasterio

837 Palavras
Depois de tomar banho, enquanto se vestia, Justine perguntou: — Todas as irmãs já sabem que voltei? Pensei que Maria viesse me ver. Quando saí daqui, ela era uma bruxa tão carinhosa. — Maria não virá — respondeu Amália, evitando o olhar de Justine. — Como assim? Ela também foi mandada embora? — perguntou, assustada. — Acho que, no momento certo, madre Vitória conversará com você. Por enquanto, concentre-se em si mesma — disse Amália, segurando seus ombros. Justine sentiu uma energia de saudade vinda da amiga e achou melhor não insistir. Ao entrar no refeitório, reconheceu todos os rostos que estavam ali. Diversas mulheres estavam sentadas em várias mesas compridas. Todas olharam para ela e a cumprimentaram com sorrisos. Muitas, surpresas com sua aparição, quase se engasgaram com a sopa cujo sabor Justine conhecia tão bem e do qual sentira saudades. Justine sempre teve um temperamento agradável. Era um pouco nervosa, mas prática, o que fazia com que fosse constantemente requisitada para ajudar na cozinha, na horta e em qualquer outro lugar onde fosse necessária. Tinha uma aparência bonita: corpo magro, cabelos curtos e escuros, olhos castanhos claros. Porém, não possuía sensualidade ou charme. Como diziam as outras bruxas, ela era sem graça — e nunca se importou com isso. Diferente de muitas de suas companheiras, jamais sentira um fogo consumidor entre as pernas que a levasse a sair durante a noite para seduzir homens das aldeias próximas e satisfazer desejos eróticos. Ao passar pela primeira mesa, avistou, ao fundo do salão, a pequena bebê nos braços de uma das irmãs. Caminhou imediatamente naquela direção. Viu que todas lhe davam carinho e atenção, mas, ainda assim, quis se certificar de que estava bem. Quando se aproximou, irmã Nala, que segurava a criança no colo, falou: — Irmã Justine! Mas que coisinha mais fofa você trouxe consigo! Qual o nome dessa fofura? — Ela ainda não tem nome. Ainda não me decidi — respondeu, meio sem jeito. — Então ela é sua filha? Porque se trata de uma lobisomem. Pelo visto, você gosta de homens mais selvagens, já que teve um bebê lobo. Não deveria estar em uma matilha, já que não sinto magia nela? — comentou irmã Juliete, com um ar debochado. — Talvez… mas eu não sei ao certo. Não poderia deixá-la sozinha e achei melhor vir aqui pedir ajuda. Ao ouvir aquilo, todas pareceram compreender. Silenciaram, abandonando a curiosidade excessiva, e voltaram a fazer comentários doces para a pequena, que já cochilava novamente. Justine sentou-se em uma mesa próxima junto de Amália, que trouxe dois pratos de sopa para elas. Comeram em silêncio, ouvindo as outras irmãs paparicarem a criança. Ao terminar, Justine virou-se para Amália. — A bebê precisa de um nome. Espero que irmã Vitória possa ajudar com isso — disse, preocupada. — Sua intuição não lhe diz nada? Você sente a energia das pessoas. O que a energia dela lhe diz? — perguntou Amália, erguendo uma das sobrancelhas. — Tenho um palpite. Ela tem uma energia forte, de guerreira, mas também um coração imenso. Acho que posso amá-la mais do que a mim mesma — respondeu Justine, franzindo as sobrancelhas. — E qual seria o nome? — perguntou Amália. Naquele instante, Frederica aproximou-se delas. — Irmã Justine, vejo que já se alimentou e acredito que queira descansar agora. O berço da pequena já está pronto em seu quarto. Irmã Vitória pediu que você se recolhesse cedo, pois deseja vê-la às seis da manhã em sua sala — disse em tom baixo, para que as outras não ouvissem. — Certo — respondeu Justine, já se levantando e recolhendo o prato. — E tem mais. Irmã Analice pediu para dormir no quarto com vocês a fim de ajudá-la com a bebê durante a noite, mas apenas se você concordar — acrescentou Frederica, aguardando uma resposta. — Ela parece gostar de crianças. Há quanto tempo vive aqui? — perguntou Justine, encarando Frederica. — Faz quase um ano que a família dela a abandonou aqui. Ela não possui dons, mas o Oráculo nos pediu que a acolhêssemos — respondeu Frederica, aprofundando o olhar. — Tudo bem. Deixe-a dormir conosco — respondeu, desviando os olhos antes de sair. Justine pegou seu precioso pacote dos braços de Nala, despediu-se de todas e seguiu em direção ao quarto. Amália a acompanhou de perto e perguntou: — Você não conseguiu me dizer qual nome dará a ela. Qual é? — Prefiro não falar até consultarmos o Oráculo — respondeu, sentindo um calor no peito ao olhar para a criança adormecida. Amália sorriu. Ao chegarem à porta do quarto, despediu-se das duas e seguiu para seus aposentos. Justine entrou e encontrou Analice sentada na cama, esperando por elas. A jovem levantou-se sorrindo. Justine colocou a pequena no berço de madeira entre as duas camas e, enquanto Analice ajeitava a bebê, trocou de roupa e deitou-se na cama limpa e aquecida. Seu corpo inteiro doeu ao finalmente se acomodar. Então fez uma breve prece de agradecimento ao Criador antes de adormecer.
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