1 O Olhar Da Predadora

1194 Palavras
O quadragésimo andar do edifício Medeiros, imponente e luxuoso, oferecia uma visão privilegiada de toda a cidade. Mas, para Alexandra, aquilo não era uma paisagem — era um tabuleiro. Ela girou o copo de uísque, o gelo estalando no cristal, enquanto observava as luzes lá embaixo. Ela não era mais a garota que fugia pelos cercados de uma base militar aos dezesseis anos, com os pés sangrando e o coração tomado pelo medo. Hoje, aos trinta e dois, com olhos azul-claro e cabelos pretos sempre bem cortados, media 1,75 m de altura. Seu corpo, definido por anos de treinamento rigoroso, carregava algumas tatuagens — nas costas, uma loba marcava sua pele. Vestia um terno azul-marinho de alta qualidade, sob medida. O medo… agora era uma ferramenta que ela usava contra os outros. A porta do escritório se abriu sem que ninguém batesse. Alexandra não precisou se virar para saber quem era. O perfume de sândalo e a pisada decidida eram inconfundíveis. — Os relatórios da Zona Sul chegaram, Alexa — a voz de Scarlett era baixa, mas carregada daquela energia que sempre fazia a espinha de Alexandra vibrar. — E o Theo não queria dormir sem que você desse o beijo de boa-noite por vídeo. Alexandra fechou os olhos por um segundo. A máscara da “Loba” vacilou por um breve instante, antes de se recompor. — Como ele está? — perguntou, ainda de costas. Sua voz mantinha a frieza profissional, embora seus dedos apertasse o copo com mais força. — Teimoso como a mãe — Scarlett deu um passo à frente, parando ao lado dela diante da imensa parede de vidro. — Ele e a Eloá estão esperando. Vamos terminar logo com isso, para que você possa ser apenas a mãe deles por algumas horas? Alexandra deixou o copo de uísque sobre a mesa de carvalho n***o com um estalo seco — a decisão tomada. — Você tem razão — admitiu, a voz perdendo um pouco da rigidez metálica. — Vamos logo fazer essa ligação. Não quero que eles durmam tarde; o sono desregulado acaba com a rotina deles. E, se a Eloá não dormir direito, amanhã ninguém segura o mau-humor dela. Ela fica impossível. Scarlett soltou um riso curto, um som raro que sempre desarmava as defesas de Alexandra por um milésimo de segundo. — Pelo menos nisso ela saiu exatamente a você, Alexa. A teimosia é de família — provocou a Guardiã, já puxando o tablet criptografado do coldre lateral e iniciando a chamada segura. Alexandra caminhou até a poltrona de couro, ajeitando as abas do terno azul-marinho antes de se sentar. Quando a tela brilhou e o som de correria do outro lado da linha preencheu o silêncio do escritório luxuoso, o olhar azul-claro da Loba se transformou. A frieza deu lugar a um brilho de adoração que ela só permitia que três pessoas no mundo vissem seus filhos… e a mulher que segurava o dispositivo à sua frente. — Mamãe! — o grito em coro de Theo e Eloá ecoou, fazendo Alexandra sorrir de verdade pela primeira vez naquele dia exaustivo. — Oi, meus amores — disse, inclinando-se levemente para a câmera. — Por que ainda estão pulando? A Scarlett me disse que já era hora de fechar os olhos. — Porque estamos animados para ver você, mamãe! — Eloá exclamou, com o rosto colado na câmera e os olhos brilhando de pura energia. — E a gente queria contar tudo o que fez hoje! A gente sentiu muita, muita falta! Ela começou a falar sem parar, atropelando as palavras como sempre fazia quando estava empolgada, descrevendo cada detalhe do dia, enquanto Theo concordava ao fundo com seu jeito mais contido. Alexandra sentiu o aperto no peito relaxar; aquela era a única parte do seu império que realmente importava. — Eu também senti falta de vocês, meus pequenos — interrompeu com um sorriso suave. Mas logo assumiu o tom de quem não aceita desculpas: — Agora, foco aqui na mamãe. Vocês obedeceram à Marta direitinho? Comeram tudo o que ela preparou para o jantar? Os dois assentiram freneticamente. — E o banho? — continuou, arqueando uma sobrancelha para a câmera. — Já escovaram os dentes para irem dormir? E cadê os pijamas? Não quero ninguém de roupa de brincar na cama. Scarlett, que segurava o dispositivo, trocou um olhar cúmplice com a câmera, segurando o riso ao ver a “Loba” conferindo a higiene bucal dos herdeiros via satélite. — Já fizemos tudo, mamãe! — Theo respondeu, finalmente conseguindo espaço na conversa. — A Scar ajudou a gente a escolher os pijamas de super-heróis antes de ela sair para encontrar você. Alexandra lançou um olhar de relance para Scarlett Montserrat. Saber que sua Guardiã cuidava até dos mínimos detalhes domésticos antes de assumir o posto de braço direito era o que mantinha sua sanidade no lugar. — Ótimo. Porque, se a Marta me der um relatório r**m amanhã, não vai ter desenho antes da escola — sentenciou, embora o tom fosse de brincadeira. — Agora, beijo para a mamãe. Amanhã eu estarei aí para o café, prometo. Alexandra encerrou a chamada, e o silêncio do escritório voltou a pesar, quebrado apenas pelo zumbido suave do ar-condicionado. Ela soltou um suspiro contido e passou a mão pelos cabelos pretos — um gesto de cansaço misturado com alívio, que não passou despercebido por Scarlett. A Guardiã guardou o dispositivo, sua postura mudando instantaneamente. O brilho que carregava ao falar dos gêmeos deu lugar à frieza profissional de quem estava pronta para derramar sangue. — Loba, está tudo pronto para a operação — informou Scarlett, a voz firme e desprovida de qualquer distração. — Preparei tudo exatamente como planejamos. Os mercenários já estão em posição, apenas esperando a sua ordem para dar início. Eles vão na frente, abrindo passagem e limpando o perímetro. Eu vou logo atrás, garantindo que nada saia errado… e que o alvo não escape. Alexandra levantou lentamente. A imponência do terno azul-marinho e seus 1,75 m preenchiam o espaço entre elas. Seus olhos azul-claro se fixaram nos de Scarlett com uma intensidade que faria qualquer um recuar — mas Montserrat sustentava sem hesitar. — Confio em você — disse Alexandra, a voz retornando ao tom de comando que o submundo temia. — Sei que fará tudo o que for necessário. Eu não teria colocado você nessa posição, como minha Guardiã, se não soubesse que você é a única capaz de executar essa missão com perfeição. Ela deu um passo à frente, diminuindo a distância entre as duas até que a tensão no ar se tornasse quase palpável. — Faça os mercenários obedecerem a você como se fossem cães adestrados. Eles precisam saber quem manda no campo. Alexandra fez uma breve pausa. Por um segundo — apenas um — algo mais humano atravessou seu olhar. — E, Scarlett… é bom você voltar inteira. Os gêmeos não são os únicos que sentiriam sua falta, se algo acontecesse. Scarlett sustentou o olhar. Um meio sorriso surgiu no canto de seus lábios, selando uma promessa silenciosa: não importava o quão perigosa fosse a noite… ela sempre voltaria para sua Loba.
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