O Refúgio da Loba

1566 Palavras
Lá fora, Saint-Laurent acordava sob um manto branco e impiedoso. A previsão indicava que a nevasca seria uma das mais fortes da temporada, cobrindo cada centímetro da propriedade Medeiros. O rádio local já anunciava o cancelamento das aulas; as escolas estavam fechadas para evitar que as crianças ficassem presas ou soterradas. O inverno canadense não pedia licença, ele simplesmente dominava. Mas dentro da mansão, o clima era outro. O sistema de calefação mantinha uma temperatura agradável, quase primaveril. Na enorme academia localizada na parte de trás da residência, o som seco de impactos ritmados quebrava o silêncio da manhã. Alexandra já estava em sua série de exercícios matinais. Para ela, um dia sem treino era um dia sem controle, e o controle era sua moeda de troca com o mundo. De costas para a porta, vestindo um top esportivo e calças de compressão pretas, ela concentrava toda a sua força no saco de boxe. Cada golpe era preciso, reflexo do treinamento militar que moldou seu corpo e sua mente. O som metálico das correntes do saco de pancadas balançando quase camuflou o barulho da porta se abrindo. Um pequeno ser entrou na academia, movendo-se na ponta dos pés, com a respiração suspensa. A intenção era clara: um ataque surpresa à Loba. Alexandra sentiu a mudança na pressão do ar e ouviu o leve roçar do tecido de um pijama contra o piso emborrachado. Um sorriso discreto e carregado de ternura surgiu em seus lábios, mas ela não parou os golpes. Ela decidiu entrar no jogo da sua pequena lobinha, fingindo estar completamente distraída enquanto preparava o contra-ataque de cócegas mais eficiente de Saint-Laurent. — Dez... nove... — Alexandra murmurou para si mesma, aumentando a intensidade dos socos no saco de boxe apenas para disfarçar a sua audição aguçada — Onde será que está o meu café da manhã? Ela sabia que a pequena estava a poucos passos de distância, pronta para o "bote". Alexandra se ajoelhou lentamente, fingindo uma distração absoluta enquanto ajustava os cadarços do tênis. Ela sentia a vibração da pequena Eloá se preparando para o bote final. No instante em que a menina saltou com os braços abertos, buscando o pescoço da mãe, Alexandra agiu com a memória muscular de quem nunca baixou a guarda. Com um movimento fluido, ela girou o corpo e interceptou o voo da pequena no ar. Antes que Eloá pudesse entender o que aconteceu, já estava sendo erguida pelos braços fortes de Alexandra, que a girou em um arco no ar enquanto a academia era inundada por uma gargalhada infantil deliciosa. — Te peguei, sua invasora! — exclamou Alexandra, apertando a filha contra o peito e depositando um beijo ruidoso em sua bochecha. — Você achou mesmo que ia conseguir surpreender a Loba na toca dela? — Ah, mamãe! Você roubou! — Eloá protestou entre risos, com os cabelos bagunçados e o pijama de desenhos coloridos amassados. — Eu fui um fantasma! Você não devia ter me ouvido! — Fantasmas não fazem o chão tremer como você, mocinha — Alexandra brincou, sentando-se no banco de supino com a filha no colo. — E o que você está fazendo acordada tão cedo? Com essa nevasca lá fora, eu achei que você e o Théo iam dormir até o meio-dia. Eloá se aconchegou no abraço da mãe, o calor do exercício de Alexandra contrastando com o frescor matinal da menina. — O Théo continua roncando igual um porquinho — Eloá segredou, fazendo uma careta engraçada. — Mas eu queria ver a Tia Scarlett. Ela já acordou? O Black Angel disse que ela chegou tarde da festa de trabalho e precisava de beleza... sono de beleza! É isso? O sorriso de Alexandra vacilou por um microssegundo, mas ela o manteve firme para a filha. A "festa de trabalho" era a desculpa perfeita que Jordan Vidal sempre usava para justificar as missões noturnas e os eventuais curativos. — A Tia Scarlett trabalhou muito ontem, meu amor. Ela continua descansando para recuperar as energias — Alexandra respondeu, acariciando os cabelos da filha. — Mas o Jordan está de olho nela. Sabe como ele é, se ela tentar levantar antes da hora, ele amarra ela na cama. — O Black é engraçado — Eloá riu, lembrando-se das piadas do médico. — Ele disse que se eu fosse à cozinha, ele me daria panquecas com chocolate porque hoje não tem escola! No andar de cima, o silêncio do corredor era quebrado apenas pelo leve ranger do piso sob os pés descalços de Théo. O pequeno lobinho, com o pijama levemente desalinhado e os cabelos rebeldes de quem acabou de despertar de um pesadelo, empurrou a porta do quarto de Scarlett. Ele entrou como uma sombra, o coração batendo rápido contra as costelas. Ao se aproximar da cama, seus olhos castanhos se arregalaram. Scarlett dormia serenamente, mas a luz que filtrava pelas cortinas revelava o que o menino mais temia: os curativos. Ele subiu na cama com uma agilidade silenciosa e sentou-se ao lado dela. Com os dedinhos trêmulos, fez um carinho quase imperceptível no rosto da Guardiã. Em seguida, inclinou-se e depositou um beijo casto sobre o curativo do ombro e, depois, um ainda mais delicado sobre o da sobrancelha, como se seu carinho pudesse magicamente fechar as feridas. Scarlett começou a despertar. O toque suave era muito diferente da brutalidade da noite anterior. Ela abriu os olhos devagar, focando na silhueta pequena à sua frente. — Oi, meu pequeno lobinho... — a voz dela saiu rouca, um sussurro carregado de afeto. — Que maneira mais gostosa de ser acordada, por um pequeno anjinho. Mas, ao notar a expressão de Théo e o brilho das lágrimas prestes a cair, o instinto de proteção de Scarlett gritou mais alto que a dor no ombro. Ela se sentou devagar, ignorando a fisgada da sutura. — O que aconteceu, meu bebê? — perguntou, puxando-o para perto. Théo fungou, limpando o nariz na manga do pijama, a voz embargada pelo choro contido. — Eu acordei e não vi a Loa na caminha dela... — soluçou ele, referindo-se à irmã, Eloá. — Será que alguém pegou ela? E você... você tá dodói, Sca. Quem machucou você? Scarlett sentiu um nó na garganta. Ela envolveu o menino em um abraço apertado com o braço bom, trazendo-o para o calor das cobertas. — Ei, olha para mim — ela pediu, erguendo o queixinho dele com carinho. — Ninguém pegou a Loa, eu prometo. Ela deve estar lá embaixo tentando ganhar panquecas do Black Angel ou desafiando a mamãe na academia. Você conhece sua irmã, ela não para quieta. Ela deu um beijo na testa dele, tentando acalmar o tremor nos ombros do pequeno. — E sobre o "dodói"... — Scarlett deu um sorriso cúmplice, tentando descontrair. — A Sca é um pouco atrapalhada, sabia? Eu estava jogando um jogo muito difícil ontem à noite e acabei esbarrando em umas prateleiras. Mas o Black Angel já cuidou de tudo. Ele disse que eu vou ficar com cicatrizes de guerreira, igual às dos filmes que a gente gosta. Théo olhou para o curativo da sobrancelha com uma seriedade profunda. — O jogo era de monstro? — perguntou ele, a voz ainda trêmula. — Era um monstro bem bobo, Théo. E a Sca venceu, como sempre. Scarlett sentiu o coração derreter ao ver o esforço do pequeno Théo para ser corajoso. Ela limpou o restinho de lágrima que teimava em descer pelo rosto dele e forçou um ânimo que fez a dor latejante no ombro parecer secundária. — Sabe o que eu acho, meu pequeno lobinho? — ela começou, fazendo um carinho na ponta do nariz dele. — Acho que podíamos levantar agora, tomar um banho e escovar esses dentinhos para espantar de vez qualquer resto de pesadelo. Depois, colocamos uma roupa bem bonita e quentinha e vamos lá embaixo descobrir que tipo de bagunça sua mãe e sua irmã estão aprontando na academia. O que me diz? Os olhos de Théo brilharam, a preocupação substituída por um plano de ação. Ele adorava missões, especialmente as que envolviam "investigar" a Loba e a Loa. — Posso escolher a sua roupa, Sca? — ele perguntou, com uma empolgação renovada. — E você escolhe a minha, pode ser? Scarlett riu, o som ecoando suave pelo quarto iluminado pela luz pálida da nevasca. — É um trato feito, parceiro! Mas olha lá o que você vai escolher, hein? Nada de fantasias de dinossauro para eu usar no café da manhã, por mais que eu saiba que eu ficaria incrível de Tiranossauro Rex. — Prometo! — Théo exclamou, já pulando da cama com a energia de quem tinha uma missão oficial. Enquanto Théo corria em direção ao enorme closet — aquele santuário de presentes luxuosos de Alexandra — para cumprir sua tarefa de "estilista particular", Scarlett se levantou devagar. A rigidez no ombro era real, e o curativo na sobrancelha repuxar um pouco, mas ver o pequeno lobinho feliz era o melhor remédio que o Black Angel poderia ter receitado. Ela o observou sumir entre as araras de roupas, ouvindo o som de cabides se mexendo e a voz pequena dele murmurando: "Essa não... essa a mamãe já viu... essa é muito séria... pronto, achei!" Scarlett sorriu, sentindo que, apesar da neve que ameaçava soterrar Saint-Laurent lá fora, o calor dentro daquela mansão era inabalável enquanto eles estivessem juntos.
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