Ecos no Salão de Espelhos

1656 Palavras
Capítulo 2 – Ecos no Salão de Espelhos A manhã seguinte amanheceu coberta de névoa, como se o castelo quisesse esconder seus segredos. Isabella despertou com o som suave de uma harpa vindo de algum lugar nos andares inferiores. Ainda envolta no robe de seda azul que encontrara no armário, seguiu o som até um salão espelhado, onde a música parecia dançar entre os reflexos. Ao empurrar as grandes portas de vidro, viu uma figura feminina sentada ao centro, dedilhando suavemente o instrumento. Era Catarina, a governanta do castelo, de idade indefinida, cabelos grisalhos impecavelmente presos em um coque. Seus olhos verdes e profundos pareciam conhecer o passado, o presente e algo mais. — Bom dia, Isabella — disse, sem parar a melodia. — Está pronta para conhecer sua história? Isabella assentiu, sentindo o peso da pergunta. Catarina continuou: — Há séculos, a linhagem das herdeiras de Vidro é marcada por mulheres fortes... e por um amor que desafia o tempo. Você terá que decidir se está pronta para encontrar o seu. Catarina então a levou ao quarto de cristal, onde estavam guardados os diários das herdeiras anteriores. Isabella passou os dedos por capas de couro envelhecido e começou a ler, mergulhando na história de sua bisavó, uma jovem que se apaixonara por um homem proibido. As palavras ardiam em seu peito como se fossem suas. Capítulo 3 – O Guardião da Torre Norte O castelo tinha uma ala interditada: a Torre Norte. Mas à noite, luzes tremeluziam em uma das janelas. Curiosa, Isabella desceu pelas escadas em espiral e encontrou uma passagem secreta entre as estantes da biblioteca. No topo da torre, encontrou um homem alto, de olhos cinzentos e expressão grave. Seu nome era Tristan. Era o arquiteto encarregado de restaurar o castelo, embora ninguém na vila o tivesse visto chegar. Parecia conhecer cada centímetro daquele lugar como se o houvesse desenhado com as próprias mãos. — Você não deveria estar aqui — disse ele, mas sua voz não tinha hostilidade. Tinha um misto de alerta e fascínio. — Então por que a porta estava aberta? — rebateu Isabella. Tristan sorriu pela primeira vez. — Talvez porque estava esperando por você. Capítulo 4 – Um Jantar à Luz das Estrelas Naquela noite, Catarina organizou um jantar no terraço envidraçado do castelo. A mesa, coberta de flores e velas, tinha apenas dois lugares. Isabella e Tristan. — Achei que fosse apenas um arquiteto — disse ela, tocando o cristal da taça. — E eu achei que fosse apenas uma herdeira — respondeu ele. Conversaram por horas, a química entre eles inegável. Tristan conhecia histórias sobre o castelo que não estavam em nenhum livro. Como o vitral encantado da capela, que só se iluminava diante do verdadeiro amor. Ou a lenda da Rosa de Vidro, que florescia uma única vez, para um único casal destinado. Quando Isabella foi se deitar, sentia-se tonta — de vinho ou de sentimentos, não sabia dizer. Capítulo 5 – A Rosa de Vidro Certa manhã, ao caminhar pelo jardim central, Isabella encontrou uma estufa escondida sob a colina. Dentro dela, entre cristais e espelhos pendurados, havia uma única rosa: perfeita, vermelha e translúcida como vidro. Ao tocá-la, sentiu um calor no peito, como se o coração tivesse reconhecido algo que a mente ainda não entendia. Tristan apareceu na entrada, observando em silêncio. — Dizem que a Rosa de Vidro se revela apenas àqueles que amam sem medo. — E como se ama sem medo? — perguntou Isabella. — Não se ama. Apenas se sente — respondeu ele, aproximando-se. O momento entre eles era tênue, como o som de um espelho prestes a se partir. Mas não se quebrou. Não ainda. Capítulo 6 – Ecos do Passado Nas páginas de um novo diário, Isabella descobriu a história de uma mulher chamada Eleonora — sua ancestral — que escolhera o amor ao invés da fortuna. E fora por isso que a maldição da solidão caíra sobre o castelo. Tristan leu ao lado dela, seus ombros se tocando, suas respirações em sintonia. — Talvez o castelo precise que alguém quebre o ciclo — disse ele. Isabella o olhou, e naquele instante, soube que o castelo não era a herança. Era o amor que estava se construindo ali. Capítulo 7 – A Noite do Espelho Partilhado Houve uma tempestade naquela noite, como se o próprio céu estivesse em conflito. Isabella correu pelos corredores de vidro, assustada com um grito distante. Encontrou Tristan caído no chão da capela, ao lado do vitral — agora aceso com uma luz dourada. — O que aconteceu? — gritou, ajoelhando-se. Ele sorriu, fraco. — Eu toquei o vitral... e ele reagiu. Uma rachadura se formava no centro da imagem. O vitral mostrava duas figuras unidas pelas mãos, como espelhos um do outro. — Está se abrindo para você, Isabella. Porque o castelo reconhece seu coração. Ela o segurou com força. — Então fique. Fique comigo. Ele a olhou com ternura. — Sempre. Capítulo 8 – A Prova da Rosa O sol já tocava o topo das montanhas quando Alessa desceu os degraus do castelo, guiada por Lisandro. O jardim onde aconteceria a prova da rosa era um espaço mágico, com caminhos de seixos brancos, fontes antigas e arcos floridos que perfumavam o ar com jasmim e lavanda. Diante dela estavam dispostas sete rosas, cada uma em um pedestal. Cada pretendente deveria escolher uma, mas só uma rosa representava o coração verdadeiro do príncipe. A lenda dizia que apenas quem visse com os olhos da alma conseguiria identificá-la. As outras candidatas hesitavam, olhavam de um lado para o outro, buscavam conselhos nos olhares alheios. Alessa, no entanto, apenas fechou os olhos. Lembrou-se da noite em que escutou Lorenzo falar com um jardineiro sobre como sua mãe cultivava uma rosa rara, cujo perfume só se revelava quando tocada por alguém com intenções puras. Ela seguiu seus instintos e parou diante da quarta rosa. Não era a mais vistosa. Suas pétalas tinham um tom rubro suave, quase tímido. Ela a tocou, e um suave aroma se espalhou, tão delicado quanto uma lembrança de infância. Lorenzo, observando ao longe, sorriu. — Temos uma vencedora — declarou o Grão-Mestre das Provas, a voz grave ecoando no jardim. As outras damas ficaram estáticas. Algumas indignadas, outras espantadas. Mas ninguém ousou contestar. Capítulo 9 – O Baile do Luar Para celebrar a vitória, um baile foi preparado nos salões de mármore branco do castelo. Candelabros de cristal lançavam reflexos como estrelas e músicos afinavam violinos em notas suaves. Alessa fora vestida com um vestido prateado, bordado com fios de luar. Seu cabelo preso com delicadeza, adornado por pequenas pérolas. Lorenzo a recebeu com um beijo no dorso da mão, e seus olhos azuis, intensos como o céu antes da tempestade, diziam mais do que as palavras que lhe faltavam. — Nunca desejei tanto dançar com alguém — sussurrou ele. A valsa começou, e os dois pareciam flutuar. O salão se esvaziava ao redor deles, como se o tempo tivesse parado. O toque dele era firme, mas respeitoso; seus passos seguros guiavam os dela, que se entregava sem receios. Quando a música cessou, Lorenzo inclinou-se e, bem junto ao ouvido dela, murmurou: — Meu coração já fez sua escolha, muito antes da rosa. Alessa sentiu o rosto corar, mas antes que pudesse responder, um mensageiro interrompeu o momento, trazendo notícias urgentes que fariam o conto de fadas dar lugar ao inesperado. Capítulo 10 – As Sombras do Reino O mensageiro trazia um pergaminho selado com a marca do Reino de Viremont, um dos mais antigos rivais de Monte Sogni. A carta acusava o príncipe Lorenzo de romper um acordo de noivado selado ainda na infância com a princesa Isolde de Viremont, ameaçando consequências políticas. A notícia se espalhou pelo castelo como fogo em palha seca. Conselheiros se reuniam às pressas, nobres cochichavam pelos corredores, e Alessa se viu no meio de uma tempestade que não compreendia. Lorenzo estava furioso, mas contido. Ele nunca aceitara tal acordo, firmado sem sua anuência. No entanto, como príncipe, suas decisões tinham peso político. — Não posso permitir que nosso povo sofra por causa de um capricho diplomático — confessou ele a Alessa, naquela noite. — E eu não permitirei que você sacrifique sua felicidade por um acordo frio — respondeu ela. Foi naquele instante que o amor deles deixou de ser apenas encanto e se transformou em aliança. Capítulo 11 – O Conselho e a Escolha Um grande conselho foi convocado. Alessa foi autorizada a falar, algo raro para alguém fora da nobreza. Com coragem e serenidade, ela argumentou sobre o direito à liberdade de escolha, citando leis ancestrais do reino e a nova era de respeito que Lorenzo vinha promovendo. Alguns duques torceram o nariz, outros se surpreenderam com a eloquência da jovem. Ao final, coube a Lorenzo a palavra final. — Minha vida, meu coração, não são moedas de troca. Nosso reino não será guiado por promessas forçadas, mas por convicções verdadeiras. E minha convicção mais firme é que Alessa é minha escolha. A tensão se transformou em aplausos. Até mesmo o embaixador de Viremont reconheceu a firmeza da posição e prometeu renegociar os termos pacificamente. Capítulo 12 – A Coroação do Amor Dias depois, os sinos do castelo tocaram alto. Alessa e Lorenzo subiam os degraus da Catedral de Mármore, onde seriam unidos não só pelos votos de amor, mas pelo reconhecimento do reino. Alessa usava um vestido marfim, simples, mas de uma elegância que roubava o fôlego. Lorenzo, em trajes reais, segurava sua mão como se segurasse o próprio destino. Diante do altar, juraram fidelidade e amor eterno. E quando os sinos tocaram novamente, o povo aclamou a nova princesa. Do alto da sacada, Alessa viu os rostos sorridentes, os lenços brancos no ar, e uma lágrima escorreu. Não de tristeza, mas da mais pura felicidade. O conto de fadas não terminava ali. Ali, era onde ele começava.
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