Capítulo 1 – A Primeira Pedra
A inauguração do novo hotel Venturini estava a três meses de acontecer, e a construção avançava em ritmo acelerado. Miguel Alonzo observava a planta estendida sobre a grande mesa de reuniões com o cenho franzido e a concentração de um maestro afinando a última nota.
— Você precisa relaxar — disse Rafael Venturini, rindo enquanto apoiava uma xícara de café no braço do sofá.
— Relaxar quando há pedras erradas sendo colocadas nas bases? Prefiro não.
— Por isso mesmo decidi trazer alguém para suavizar o seu mundo. Angelina Baronni. A Ángel.
Miguel ergueu os olhos, nada impressionado.
— Uma designer de joias? O que ela tem a ver com arquitetura?
— Tudo, Miguel. Ela vai criar uma linha exclusiva de peças para o hotel. E vocês dois vão precisar conversar. Muito.
— Ótimo — respondeu ele seco. — Exatamente o que eu não precisava.
Mal sabia ele que aquela mulher brilharia muito além do ouro.
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Capítulo 2 – Luz em Movimento
Ángel chegou à Villa como um furacão de cor. Usava calça jeans rasgada, uma blusa de linho solta e colares sobrepostos que tilintavam como sinos ao vento. Seus cabelos castanhos ondulavam soltos, e o sorriso... aquele sorriso paralisou Miguel por um instante.
— Miguel Alonzo — ela estendeu a mão. — Você é ainda mais sério pessoalmente.
Ele não respondeu de imediato. Observava cada detalhe dela com olhos treinados para simetria.
— E você é exatamente como imaginei. Barulhenta.
Ela gargalhou.
— Isso é um elogio no meu mundo.
Nos dias que seguiram, Miguel tentou manter distância. Mas ela estava em todos os lugares: nas reuniões com os engenheiros, nas escolhas das pedras para a fachada, no jardim interno que ela queria preencher com esculturas.
E, pior, ela questionava tudo.
— Por que tudo precisa ser tão... reto, Miguel? A vida não é feita só de linhas perfeitas. Às vezes, uma curva é o que dá alma a um lugar.
E ele, contra toda lógica, começava a escutar.
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Capítulo 3 – Um Espaço Só Deles
Era tarde, o hotel vazio, os trabalhadores já haviam ido. Miguel revia os planos no salão principal quando ouviu passos descalços. Ela surgiu com uma garrafa de vinho e duas taças.
— Você precisa aprender a celebrar o processo, não só o resultado.
— Nunca celebrei antes de entregar uma obra.
— Então hoje é seu primeiro brinde.
Sentaram-se no chão de mármore. Ela falava sobre as pedras brasileiras que usaria nas joias, sobre como a ametista traz calma e o topázio inspira criatividade. Miguel a ouvia, fascinado.
— Você não desenha joias. Você desenha sentimentos.
Ela corou.
— E você desenha silêncios, Miguel.
O olhar deles se prendeu, e por segundos, o tempo desacelerou.
Mas ele desviou.
— Isso é perigoso, Ángel.
— Amar sempre é.
E saiu, deixando só a taça dele meio cheia.
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Capítulo 4 – Rachaduras na Estrutura
As semanas seguintes foram um emaranhado de encontros, desencontros e tensão silenciosa. Ángel deixava bilhetes engraçados nas plantas dele. Ele corrigia discretamente os esboços dela. E quando estavam juntos, o ar parecia carregado demais para ser ignorado.
Até que uma manhã, ele a viu no jardim com Rafael e Vanessa. Estavam rindo, e Ángel tocou o braço de Rafael de forma amistosa. Mas Miguel não viu amizade ali. Viu ameaça. Viu confusão.
Horas depois, ela o encontrou no hall e ele m*l a olhou.
— Aconteceu algo?
— Não.
— Você está estranho, Miguel.
— E você... próxima demais.
— Está com ciúmes?
Ele não respondeu. Mas o silêncio foi mais alto que qualquer palavra.
— Sabe, Miguel, às vezes você quer tanto manter tudo sob controle... que acaba perdendo o que mais importa.
E dessa vez, ela foi embora mesmo.
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Capítulo 5 – A Joia Oculta
Miguel passou dois dias evitando todos, inclusive Rafael. Trancado no escritório do hotel, redesenhou uma ala inteira do projeto. Quando saiu, foi direto ao ateliê improvisado de Ángel.
Ela estava ali, sozinha, organizando moldes.
— Você está bem? — ele perguntou, quebrando o silêncio entre eles.
— Estou tentando ficar.
— Eu vi você com Rafael e... fui injusto. Não é fácil para mim.
— Ninguém disse que seria. Mas ou você se permite, Miguel, ou vai passar a vida admirando as coisas por trás do vidro.
Ele se aproximou, devagar.
— E se eu não souber como amar?
Ela sorriu, com olhos úmidos.
— Então eu te ensino.
E ele a beijou. Sem pressa, sem defesas. Apenas com a verdade.
A partir dali, a arquitetura da vida de Miguel Alonzo ganharia seu elemento mais precioso: o amor.
Capítulo 6 – Planos Inesperados
Os dias seguintes foram diferentes. Miguel e Ángel dividiam não apenas decisões de projeto, mas também silêncios confortáveis e olhares que falavam mais que palavras. Ángel fazia café do jeito que ele gostava. Miguel ajustava a iluminação do ateliê para que ela não precisasse franzir os olhos ao esculpir.
— Está tudo indo depressa demais? — ela perguntou certa noite.
— Não o bastante — ele respondeu.
Pela primeira vez, Miguel desejava mais que controle. Queria rotina. Queria ela.
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Capítulo 7 – A Arquitetura do Sentimento
Durante uma visita à cidade vizinha, Miguel levou Ángel para ver um edifício antigo que o inspirara anos antes. Caminharam por corredores vazios, riram entre colunas gastas, e ao fim do passeio, ele parou diante de um antigo espelho rachado.
— Você é como isso aqui — ele disse, olhando para ela pelo reflexo. — Uma beleza moldada pelas cicatrizes.
Ela se emocionou, tocando a mão dele.
— E você é como esse prédio. Forte por fora, mas com salas vazias esperando por vida.
E ele a deixou entrar.
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Capítulo 8 – A Pedra Angular
Faltava uma semana para a inauguração do hotel. A equipe toda vibrava. Ángel finalizava a vitrine de joias no saguão principal. Miguel cuidava pessoalmente do último polimento dos painéis.
Numa noite silenciosa, ele a levou até a suíte principal.
— Este é o lugar mais bonito do hotel. E quero que seja seu.
— Como assim?
— Quero que você fique. Que transforme isso aqui em lar.
Ela ficou em silêncio por longos segundos.
— Eu tenho medo.
— Eu também. Mas nunca construí algo tão sólido com ninguém. Você é minha base.
E ela disse sim. Com o corpo, com o coração, com cada gesto que veio depois.
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Capítulo 9 – Inauguração
O grande dia chegou. Rafael e Vanessa estavam impecáveis, assim como Luciano e sua esposa, Thiago e sua chef, e claro, Vitório com sua pequena Ágata.
Ángel cruzou o salão em um vestido feito sob medida, com uma das suas criações brilhando no pescoço. Miguel a esperava na frente do hotel com uma rosa branca na mão.
— Para minha joia mais rara.
Ela sorriu.
— Para o homem que desenhou o futuro que eu não sabia querer.
O beijo deles arrancou aplausos discretos.
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Capítulo 10 – O Projeto de uma Vida
Semanas depois, Miguel a levou para um terreno à beira do lago.
— Quero construir nossa casa aqui. Mas só se você aceitar ser minha sócia de vida.
Ele tirou uma caixinha de madeira do bolso. Dentro, um anel com uma ametista azul.
— Essa pedra representa equilíbrio. Algo que só encontrei com você.
Ángel caiu de joelhos, rindo e chorando.
— Sim, Miguel. Eu aceito ser teu lar, tua artista, tua eterna confusão organizada.
Ele a abraçou.
— E eu serei teu arquiteto, tua base e tua eternidade.
Epílogo – La Festa della Vita
O sol se punha sobre os vinhedos da Villa Venturini, tingindo os campos de dourado e púrpura. Era o fim de semana da Festa da Família — uma tradição que Donatella Venturini, com seu coração generoso, fazia questão de manter viva. E este ano era ainda mais especial.
Rafael e Vanessa chegaram primeiro, com dois pequenos a tiracolo: Matteo e Giulia. Logo atrás, Luciano e sua esposa com sua filhinha, Serena. Thiago veio com Vanessa Romani e os gêmeos que levavam nomes de sabores: Luca e Melina.
E então vieram Miguel e Ángel. Ela trazia nos braços uma bebê de olhos âmbar, que já segurava com firmeza o medalhão que a mãe havia feito especialmente para ela. Miguel trazia nas mãos um pequeno projeto: uma maquete em miniatura da casa nova onde cresceriam como família.
A mesa estava farta, a música italiana tocava suavemente, e as crianças já corriam descalças entre as videiras, rindo e tropeçando umas nas outras. Ágata, filha de Vitório, tomou a liderança dos jogos, como se já soubesse que seria a irmã mais velha daquele bando de herdeiros.
Donatella observava tudo com os olhos brilhando.
— Eles não são só nossos filhos — ela disse a Ángel —, eles são a promessa de que o amor constrói mais do que paredes.
Ángel sorriu, encostando-se ao ombro de Miguel.
— E que mesmo os corações mais arquitetados merecem amar.
— E bagunça — acrescentou Miguel, observando sua filha engatinhar direto para dentro da cesta de pães.
Risos ecoaram pela Villa, promessas foram renovadas em olhares cúmplices, e a nova geração começava, naquele jardim, a primeira fundação da amizade que duraria por toda a vida.
Era o começo de uma nova história. Mas com o mesmo coração.