Capitulo 35— O Primeiro da Noite

1185 Palavras
Noctávia nunca esteve tão silenciosa. Após a queda do Conselho, rumores se espalharam entre os clãs sobreviventes. Alguns fugiram. Outros se esconderam. E alguns, mais antigos e orgulhosos, começaram a se mover nas sombras. Mas o que verdadeiramente mudara não era político. Era espiritual. O mundo sobrenatural sentira um despertar. E esse despertar tinha nome. Gabriel Monteiro. O Chamado Nos dias que se seguiram à libertação de Helena, Gabriel começou a sentir algo diferente. Não era apenas força. Não era apenas poder bruto. Era memória. Memórias que não eram dele. Sonhos que não pertenciam à sua vida. Ele via ruínas antigas, desertos vermelhos, cidades de pedra muito anteriores aos impérios humanos. Via criaturas que não eram vampiros, mas algo mais puro, mais selvagem. Seres que caminhavam na noite antes mesmo da palavra “imortal” existir. Em um desses sonhos, uma voz falou: — O sangue retorna ao seu início. Gabriel acordou suando, os olhos brilhando no escuro. Helena estava ao seu lado. Mesmo adormecida, ela sentia quando algo nele mudava. — Outra vez? — perguntou, a voz baixa. Ele assentiu. — Eu não estou apenas mudando… estou lembrando. A Verdade Enterrada Adrian foi quem trouxe a pista que mudaria tudo. Ele invadiu arquivos antigos do clã — documentos que o Conselho mantinha escondidos por séculos. Pergaminhos protegidos por magia ancestral. E lá estava. Um nome que jamais fora pronunciado em voz alta. “O Primogênito da Noite.” Uma entidade anterior aos vampiros. Segundo os registros, antes do primeiro vampiro existir, havia uma linhagem híbrida — não criada por mordida, não nascida da maldição comum. Era sangue direto da Noite. A lenda dizia que essa linhagem possuía domínio sobre a própria essência vampírica. Podia controlar, suprimir… ou destruir. O Conselho acreditava que essa linhagem havia sido exterminada. Mas um detalhe mudou tudo. Ela não podia ser criada. Só podia renascer. E apenas quando o mundo vampírico estivesse corrompido o suficiente para exigir um equilíbrio brutal. Gabriel não era um acidente. Ele era um retorno. A Revelação Helena foi quem encontrou a confirmação final. No subsolo da galeria que ela mantinha — disfarce perfeito para guardar artefatos antigos — havia um mural esquecido, adquirido séculos atrás. Ela nunca compreendera totalmente o simbolismo. Até agora. A pintura retratava uma figura masculina envolta em luz dourada e sombra ao mesmo tempo. Vampiros ajoelhados diante dele. Não como súditos. Mas como criaturas dominadas. No canto inferior, uma inscrição em latim antigo: “Ex tenebris natus, dominus sanguinis.” “Nascido das trevas, senhor do sangue.” Helena sentiu o coração apertar. Gabriel não era apenas poderoso. Ele era a origem do medo do Conselho. E talvez a origem da queda deles. O Confronto Interior Quando Helena mostrou a pintura a Gabriel, ele ficou em silêncio por muito tempo. Não havia orgulho. Não havia triunfo. Havia peso. — Então é isso? — ele murmurou. — Eu não fui escolhido. Eu fui ativado. Ele começou a compreender as mudanças. A cura instantânea. O controle sobre vampiros. A capacidade de quebrar encantamentos antigos. O Conselho não temia sua força. Temia sua autoridade natural sobre o sangue deles. Helena segurou o rosto dele com ternura. — Você ainda é você. Ele fechou os olhos. — E se eu não for? E se essa coisa… essa essência… me consumir? Ela aproximou a testa da dele. — Então eu vou estar aqui para te lembrar quem você é. O Ataque dos Antigos Mas o mundo não esperaria a aceitação. Na terceira noite após a revelação, o céu sobre Noctávia escureceu de forma antinatural. Não era nuvem. Era presença. Um clã estrangeiro havia chegado. Muito mais antigo. Muito mais c***l. Eles não queriam negociar. Queriam eliminar. Cinco figuras surgiram na praça central — vestes negras, olhos vermelhos como brasa antiga. Vampiros de linhagem primordial, anteriores até mesmo ao Conselho local. O líder deles falou sem mover os lábios, mas todos ouviram. — O Primogênito renasceu. E deve morrer antes que reclame o trono do sangue. Gabriel sentiu o chamado. E respondeu. A Primeira Manifestação Completa O confronto não começou com palavras. Começou com impacto. O primeiro vampiro avançou numa velocidade que nenhum humano poderia acompanhar. Gabriel não se moveu. Apenas ergueu a mão. E o vampiro parou no ar. Não por força física. Mas porque o próprio sangue dentro dele congelou sob comando. Os olhos dourados de Gabriel brilharam intensamente. — Eu não reivindico trono algum. Ele fechou o punho. O vampiro caiu ao chão, inconsciente. Os outros quatro atacaram juntos. Diferente da batalha anterior, Gabriel não apenas reagiu. Ele dominou. As sombras ao redor se ergueram como extensões da própria vontade dele. Não eram magia vampírica. Eram algo mais profundo — como se a noite respondesse ao seu chamado. Um dos antigos tentou usar feitiço de imobilização. Falhou. Outro tentou invadir a mente dele. Encontrou apenas um vazio vasto e inquebrável. Gabriel não estava apenas lutando. Ele estava despertando. O Poder que Assusta Helena observava à distância, sentindo orgulho e medo ao mesmo tempo. Porque quanto mais Gabriel liberava poder, menos humano ele parecia. Não havia presas. Não havia transformação monstruosa. Havia presença. Autoridade absoluta. O líder do clã antigo percebeu tarde demais. — Você… você não é híbrido — ele sussurrou. — Você é anterior à maldição. Gabriel aproximou-se lentamente. — Eu não sou maldição. E então revelou a verdade que nem ele sabia que carregava até aquele instante: — Eu sou a correção. O líder tentou fugir. Não conseguiu. O chão sob seus pés rachou, e uma força invisível o lançou contra o chão com violência suficiente para quebrar pedra e ossos. Mas Gabriel não o matou. Ele apenas se inclinou e tocou sua testa. O vampiro gritou. Não de dor física. Mas porque seu poder estava sendo drenado. Selado. Reduzido. Gabriel descobrira algo novo. Ele não precisava m***r. Ele podia retirar. A Decisão Quando a batalha terminou, Noctávia permanecia intacta — mas o mundo sobrenatural jamais seria o mesmo. Helena se aproximou. — O que você fez com eles? Gabriel respirou fundo. — Eu retirei a capacidade deles de criar novos vampiros. Eles ainda viverão. Mas não espalharão mais a corrupção. Ela o observou com cuidado. — Isso não é destruição. Ele assentiu. — É equilíbrio. Ali, naquele momento, a origem de seu poder se consolidou. Gabriel não era um rei. Não era um tirano. Era uma força de ajuste. Um mecanismo antigo do próprio tecido sobrenatural. Criado — ou renascido — quando o excesso ameaçava o mundo. O Último Presságio Mas antes que pudessem descansar, Adrian apareceu com expressão grave. — Não são apenas clãs locais. A notícia já cruzou oceanos. Ele olhou para Gabriel com uma mistura de respeito e temor. — Você não despertou apenas poder… despertou atenção. Helena entrelaçou os dedos nos dele. — Então enfrentaremos o que vier. Gabriel olhou para o céu. Sentiu algo distante. Muito antigo. Observando. Se ele era o Primogênito da Noite… Então talvez existisse algo ainda acima dele. Algo que o colocou no mundo com propósito. E se esse algo decidisse que ele havia falhado… Nem mesmo seu poder seria suficiente.
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