CAPÍTULO 16

1205 Palavras
Ana A manhã chegou silenciosa, quase respeitosa, filtrando-se pelas cortinas pesadas da cobertura. A cidade despertava lá embaixo, alheia ao turbilhão que se formava dentro de Ana. O corpo ainda guardava vestígios da noite anterior não como lembranças explícitas, mas como sensações, marcas invisíveis que pulsavam sob a pele. Ela abriu os olhos devagar. O primeiro impulso foi se mover, e o segundo, fugir. Mas antes que pudesse reunir coragem, percebeu: Victor já estava acordado. Ele a observava da poltrona próxima à janela, vestido com calma e domínio, um copo de café esquecido na mão. Não havia constrangimento em seu olhar. Nem arrependimento. Apenas aquela atenção silenciosa e inquietante como se a estivesse avaliando depois de uma escolha irrevogável. — Você pensa demais — disse ele, quebrando o silêncio. Ana se sentou na cama, puxando o lençol até o peito. — E você controla demais. Victor sorriu, mas não havia humor ali. Aproximou-se lentamente, cada passo calculado, até parar diante dela. Não a tocou. Ainda não. — Você passou a noite comigo — disse ele, com voz firme. — Isso não foi um acidente. Ela sustentou o olhar. — Foi uma decisão. — Exatamente. — Ele se inclinou, apoiando as mãos na cama, prendendo-a sem encostar. — E decisões têm consequências. O coração de Ana acelerou. — Você acha que isso me prende a você? Victor ergueu a cabeça, os olhos escuros fixos nos dela. — Não. — Uma pausa densa. — Mas nos liga. Ele finalmente tocou seu queixo, erguendo-o com dois dedos. O gesto não era bruto, mas carregava uma intenção clara: posse. — A partir de agora — continuou —, você não entra e sai da minha vida quando quer. Ana sentiu o peso daquelas palavras se instalar dentro dela. — Eu não sou sua propriedade. Victor se endireitou, o olhar endurecendo. — Ainda não. — A frase caiu como um aviso velado. — Mas você também não é livre como pensa. Ele se afastou, dando-lhe espaço apenas o suficiente para que a falta dele fosse sentida. — O que tivemos não foi só prazer, Ana. Foi um ponto de virada. Para mim, e para você. Ela se levantou da cama, mantendo distância. — Você está dizendo que não vai me deixar ir? Victor a observou em silêncio por alguns segundos. Quando falou, a voz estava baixa, perigosa. — Estou dizendo que o mundo lá fora é mais c***l com quem carrega meus segredos. — Aproximou-se outra vez. — E agora, você carrega mais do que imagina. Ana sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela tinha cruzado a linha por desejo mas o preço começava a se revelar alto demais. Victor passou por ela, indo em direção à porta. Antes de sair, lançou um último olhar por sobre o ombro. — Vista-se. Vou mandar alguém levá-la. — Uma pausa calculada. — Mas não confunda isso com liberdade. A porta se fechou. Sozinha, Ana respirou fundo. O prazer da noite anterior agora vinha acompanhado de uma verdade difícil de ignorar, Victor Moretti não era um homem que permitia despedidas simples. E o que mais a aterrorizava era perceber que uma parte dela não tinha certeza se queria ir embora. ***** Ana percebeu que algo estava errado antes mesmo de conseguir provar o café da manhã. O telefone vibrau três vezes em menos de dez minutos. Cancelamentos. Mudanças de planos. Silêncios estranhos. A fonte que prometeu revelar informações cruciais sobre Victor simplesmente desapareceu. O editor que sempre atendia suas ligações agora mandava respostas vagas. Até mesmo o colega de redação que costumava almoçar com ela desviou o olhar quando tentou puxar conversa. Era como se o mundo tivesse sido reorganizado durante a noite. — Não é possível — murmurou, sentindo o estômago se fechar. Foi então que o nome de Victor surgiu na tela do celular. Ela atendeu sem pensar. — O que você fez? — disparou, sem qualquer saudação. Do outro lado da linha, o silêncio foi seguido por uma respiração tranquila. Controlada. — Bom dia para você também, Ana. — Pessoas estão se afastando de mim. Compromissos foram cancelados. Minha investigação — ela parou, a raiva fervendo. — Você mexeu na minha vida. Victor riu baixo. Não era um riso alegre. Era satisfeito. — Eu organizei — corrigiu. — Há uma diferença. Ana apertou o telefone com força. — Você não tem esse direito! — Tenho — ele respondeu com calma — porque você está envolvida comigo agora. E tudo que toca você acaba me tocando também. Ela sentiu um arrepio. — Eu não pedi proteção. — Não — ele concordou. — Mas precisa dela. Horas depois, ao sair do prédio, Ana confirmou aquilo que já temia. Um carro que ela reconhecia estava estacionado do outro lado da rua. Não a seguia descaradamente. Apenas estava ali. Observando. Mais tarde, ao encontrar um antigo amigo para conversar, o homem se mostrou inquieto, olhando o relógio a cada minuto. — Acho melhor irmos — disse ele, levantando-se antes mesmo que Ana pudesse reagir. . — Não quero problemas. — Problemas com quem? — ela perguntou, o coração disparando. Ele não respondeu. Naquela noite, Victor apareceu sem avisar. Estava encostado no batente da porta do apartamento dela quando Ana chegou, como se aquele espaço também lhe pertencesse. Elegante, calmo, perfeitamente confortável. — Você enlouqueceu — ela disse, jogando a bolsa no sofá. — Está controlando tudo ao meu redor! Victor entrou e fechou a porta atrás de si, com a mesma tranquilidade de sempre. — Estou filtrando influências. — Pessoas não são objetos! — ela rebateu. Ele se aproximou, parando a poucos passos. O olhar dele era escuro, intenso e perigosamente sereno. — Algumas pessoas não sabem manter distância — disse. — E você não sabe impor limites. Ana riu, sem humor. — Então você faz isso por mim? Victor inclinou a cabeça, analisando-a como quem observa um jogo bem planejado. — Eu faço porque posso. Ela avançou um passo, o olhar em chamas. — Isso é controle, Victor. Não é cuidado. Ele sorriu. Um sorriso lento. Calculado. — Controle é uma forma honesta de proteção — respondeu. — Pelo menos eu não finjo que não estou fazendo. Ana sentiu o peso daquela verdade se instalar. Ele não negava. Não se desculpava. Victor não escondia quem era. — E se eu quiser sair dessa? — desafiou. Victor aproximou-se mais um pouco, o suficiente para que ela sentisse sua presença dominar o espaço. — Então terá que aprender a viver sem nada do que eu ofereço. — Uma pausa. — Inclusive segurança. Ele tocou de leve o queixo dela, um gesto íntimo demais para ser casual. — Enquanto estiver comigo, ninguém se aproxima sem que eu permita. — O olhar dele escureceu. — Isso não é uma ameaça, Ana. É uma regra. Ela se afastou, o coração acelerado. — Você acha que pode me prender assim? Victor sorriu outra vez, satisfeito com a revolta dela. — Não. — A voz saiu baixa, firme. — Eu sei. Quando ele saiu, Ana ficou sozinha no apartamento, respirando fundo, tentando recuperar o controle da própria vida. Mas uma coisa estava clara demais para ser ignorada: O jogo tinha mudado. E Victor Moretti estava sempre vários passos à frente.
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