Ana
A manhã chegou silenciosa, quase respeitosa, filtrando-se pelas cortinas pesadas da cobertura.
A cidade despertava lá embaixo, alheia ao turbilhão que se formava dentro de Ana.
O corpo ainda guardava vestígios da noite anterior , não como lembranças explícitas, mas como sensações, marcas invisíveis que pulsavam sob a pele, esse era o Preço do Prazer.
Ela abriu os olhos devagar.
O primeiro impulso foi se mover. O segundo, fugir.
Mas antes que pudesse reunir coragem, percebeu, Victor já estava acordado.
Ele a observava da poltrona próxima à janela, vestido com calma e domínio, um copo de café esquecido na mão.
Não havia constrangimento em seu olhar. Nem arrependimento.
Apenas aquela atenção silenciosa e inquietante, como se a estivesse avaliando depois de uma escolha irrevogável.
— Você pensa demais — disse ele, quebrando o silêncio.
Ana se sentou na cama, puxando o lençol até o peito.
— E você controla demais.
Victor sorriu, mas não havia humor ali.
Aproximou-se lentamente, cada passo calculado, até parar diante dela, Não a tocou, Ainda não.
— Você passou a noite comigo — disse ele, com voz firme.
— Isso não foi um acidente.
Ela sustentou o olhar.
— Foi uma decisão.
— Exatamente. — Ele se inclinou, apoiando as mãos na cama, prendendo-a sem encostar.
— E decisões têm consequências.
O coração de Ana acelerou.
— Você acha que isso me prende a você?
Victor ergueu a cabeça, os olhos escuros fixos nos dela.
— Não. — Uma pausa densa. — Mas nos liga.
Ele finalmente tocou seu queixo, erguendo-o com dois dedos. O gesto não era bruto, mas carregava uma intenção clara, posse.
— A partir de agora — continuou —, você não entra e sai da minha vida quando quer.
Ana sentiu o peso daquelas palavras se instalar dentro dela.
— Eu não sou sua propriedade.
Victor se endireitou, o olhar endurecendo.
— Ainda não. — A frase caiu como um aviso velado.
— Mas você também não é livre como pensa.
Ele se afastou, dando-lhe espaço apenas o suficiente para que a falta dele fosse sentida.
— O que tivemos não foi só prazer, Ana. Foi um ponto de virada. Para mim, e para você.
Ela se levantou da cama, mantendo distância.
— Você está dizendo que não vai me deixar ir?
Victor a observou em silêncio por alguns segundos. Quando falou, a voz estava baixa, perigosa.
— Estou dizendo que o mundo lá fora é mais c***l com quem carrega meus segredos.
— Aproximou-se outra vez. — E agora, você carrega mais do que imagina.
Ana sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela tinha cruzado a linha por desejo, mas o preço começava a se revelar alto demais.
Victor passou por ela, indo em direção à porta. Antes de sair, lançou um último olhar por sobre o ombro.
— Vista-se. Vou mandar alguém levá-la. — Uma pausa calculada.
— Mas não confunda isso com liberdade.
A porta se fechou.
Sozinha, Ana respirou fundo. O prazer da noite anterior agora vinha acompanhado de uma verdade difícil de ignorar.
Victor Moretti não era um homem que permitia despedidas simples.
E o que mais a aterrorizava, era perceber que uma parte dela não tinha certeza se queria ir embora.