Às vezes, o destino parece brincar com a gente. Joga duas pessoas uma na vida da outra no momento exato em que tudo tá desabando, só pra depois arrancar o chão de novo. Foi assim com Dante e Selena. Eles não pediram nada daquilo — nem o encontro, nem a faísca, nem o sentimento que cresceu rápido demais para conseguirem controlar.
Os últimos acontecimentos deixaram marcas profundas. A fuga desesperada de Selena, o olhar de Dante que parecia enxergar nela um porto seguro, o acordo que começou como uma mentira conveniente e virou a verdade que os dois morriam de medo de admitir. E quando a coisa ficou real demais, Selena correu. Não porque não sentia — mas porque sentia demais. E isso assustava.
Dante, por outro lado, ficou preso no labirinto da própria vida: pai pressionando, regras idiotas da família, um noivado arranjado com Giulia — que sempre o amou, mas nunca recebeu o mesmo de volta. Era como se o destino tivesse colocado Dante e Selena no mesmo caminho… só pra depois jogar um muro gigante entre eles.
E mesmo assim, por mais que tentassem seguir em frente, o sentimento não desgrudava. Era aquela dorzinha incômoda no peito, aquele pensamento que aparece na hora errada, aquela lembrança que te pega de surpresa quando você jurou que tava bem. Selena se aproximou de Enrico, tentando respirar, tentando reorganizar a própria vida. Dante se afundou no compromisso que não escolheu, carregando no peito um amor que não podia viver.
Mas no fundo, bem lá no fundo, todo mundo sentia a mesma coisa: aquilo não tinha acabado. O destino não tinha dado seu veredito final. E, por mais que tudo parecesse uma bagunça impossível de resolver, havia uma força invisível empurrando os dois de volta um pro outro. Como se o universo estivesse só esperando o próximo movimento… só esperando a hora certa pra virar o jogo outra vez
Mansão de Dante
Giulia e Dante dormiam enquanto o sol atravessava a janela do quarto e um pássaro azul entrou e ficou voando no quarto, fazendo Dante acordar. O pássaro voou e voou, dando voltas, enquanto Dante apenas o admirou. De repente, o pássaro voou até a varanda, fazendo Dante levantar. Ele deu alguns passos até lá, vestindo uma calça de dormir azul-escura e sem camisa, colocou as mãos no parapeito e o pássaro voou. Dante sentiu uma energia boa naquele pássaro, um desejo de ser como ele, livre.
Parecia um aviso, um recado mandado pelo universo: “Você precisa se libertar.” Dante se via preso às exigências da família para se tornar CEO; aquilo que ele sempre desejou agora estava lhe fazendo infeliz. Dante sentia uma vontade imensa de desistir. Desde que deitou a cabeça no travesseiro à noite, não parava de pensar nisso, mas lhe faltava uma coisa: coragem. Coragem para enfrentar a decepção do seu pai, coragem para lidar com seu irmão Salvatore, coragem para lidar com a tristeza que Giulia iria sentir caso ele terminasse. Coragem para lidar com Arthuro, que ama a sua filha e é capaz de fazer qualquer coisa para defender a honra da família.
Giulia levantou-se e notou que Dante não estava na cama. Colocou seu roupão e foi até a varanda, pois a porta estava aberta. Chegando lá, deu um abraço em Dante por trás e perguntou o que ele estava fazendo ali. Dante, um pouco desconfortável, se soltou de seus braços e disse que estava apenas admirando a vista. Giulia então perguntou se ele podia acompanhá-la na visita ao ateliê, onde iria dar uma olhada em uns vestidos e ver algumas ideias de Ferdinand Brando, o dono do ateliê. Dante disse que queria descansar, pois era final de semana e ele precisava muito. Giulia não ficou feliz com a resposta, então saiu imediatamente. Ele notou sua chateação, foi até o quarto e perguntou se havia falado algo que a chateou. Giulia arrumava suas coisas que estavam jogadas em cima da poltrona na instante.
— Eu não quero ser a noiva que vai atrás de tudo sozinha. Não quero sentir que estou me esforçando sozinha.
— Mas isso não é verdade, você não vai fazer tudo sozinha. Eu só preciso descansar.
— Sinto que você está fugindo — disse ela segurando seu vestido de frente para Dante.
— Não estou, Giulia. Eu te prometi — disse Dante com a voz doce, tentando controlar a situação.
Giulia estava com medo; a insegurança estava impedindo de aproveitar o que, para ela, era tão bom. Estar com Dante era seu sonho, mas parecia que esse sonho não era bem como ela pensava. Era mais um pesadelo. Ela sempre teve uma ideia fantasiosa de que Dante se apaixonaria por ela, que pediria sua mão, planejariam a festa juntos, escolheriam o vestido, os convites, a lua de mel. A rotina seria leve, com tempo para se divertirem, teriam filhos lindos e educados.
Mas nada disso estava acontecendo. Era tudo ao contrário. Ela queria muito, estava se esforçando… e ele lá, descansando, esperando uma oportunidade para fugir e ir direto para os braços de Selena. Giulia olhava para ele e só via Selena; tocava nele e via ela. Esse era o motivo para querer ir para uma casa nova, não queria morar em uma casa onde a ex frequentou. Era como se Selena fosse um espírito que atormentava Dante e Giulia.
Então, após pensar bastante, ela apenas colocou suas roupas dentro da bolsa e abriu a porta para sair. Dante a segurou pelo braço.
— Aonde vai?
— Vou para casa, descansar — falou, tentando soltar seu braço das mãos fortes de Dante.
— Nos vemos à noite? — disse Dante, inseguro.
— Não, Dante. Me procure quando estiver pronto para planejar nosso casamento — falou e saiu às pressas.
Dante ficou ali parado, pensativo. Seu dia já não seria de paz. Paz… uma palavra distante, que parecia nunca mais voltar a fazer sentido para ele. Dante fechou a porta e voltou a se deitar, jogando o travesseiro longe. De repente, seu telefone tocou. Ele levantou rapidamente e atendeu. Seu amigo Antoni falou todo animado ao telefone e o convidou para ir a uma festa na praia que ia fazer, uma das festinhas animadas que sempre davam quando eram mais novos. Dante recusou, disse que precisava descansar. Antoni não aceitou e insistiu que ele fosse. Dante então afirmou que iria só dar uma passada rápida. Antoni ficou feliz com a resposta e logo desligou.
Selena na Loja
Selena estava em seu ateliê, colocando suas ideias para fora. Antes de começar a desenhar, colocou velas aromáticas no ambiente, aumentou a luz e colocou uma música clássica. Sentia-se inspirada; cada rabiscada dava vida a uma nova coleção de relógios. Sua ideia era fazer coleções femininas e masculinas: relógios masculinos inspirados nos anos 60, de couro, pequenos; os femininos pequenos, delicados, arredondados, com detalhes minuciosos. Já havia desenhado alguns, e o seu preferido foi o Dama — pequeno, com alças finas e mini pedras de diamante. Na parte de dentro do ponteiro havia uma pequena pedra que sinalizava a hora. Uma ideia fantástica, que deixou sua amiga Vittoria de boca aberta.
Selena havia passado a noite no depósito, estava exausta e precisava descansar. Então, finalizado o trabalho, colocou suas ideias na pasta; em seguida apagou as velas e desligou as luzes. Sua amiga Vittoria, que estava ali há um tempo, lhe desejou bom dia e permaneceu na loja.
Chegando em casa, foi direto para o banho se refrescar. Enquanto estava no banheiro, recebeu uma mensagem de uma amiga que fez na festa para a qual foi com Enrico — Marina. Aproveitando o banho, ela não viu a mensagem de imediato; somente quando terminou, vestiu seu roupão e foi em direção ao quarto. Passando hidratante na pele, pegou o celular que estava em cima da estante. A mensagem dizia:
“Oi Selena, me esqueci que você tinha me passado seu telefone. Pedi para o Enrico, mas já estava salvo (risos). Você gostaria de ir a uma festa que vai ter na praia hoje? Ideia do Antoni. Acho que você já percebeu que ele é festeiro.’’
Selena leu a mensagem e ficou animada com a ideia, mas estava se sentindo cansada. Sem ter certeza de que iria, apenas respondeu:
“Boa noite, Marina. Estou bem ocupada hoje, mas se der, irei sim.’’
Desligou o telefone e se deitou na cama, pronta para dar um belo cochilo.