Capítulo 1: O Brinde Amargo

569 Palavras
POV: Lorena ​O cheiro de terra fresca ainda parecia impregnado na minha pele. Enterrar o Guel no primeiro dia do ano foi como enterrar qualquer esperança de que esse ano seria diferente. Ele morreu na trairagem, por causa de ponto, por causa de gente que comia na mesa dele. ​Vinte dias depois, a dor ainda era uma faca cega me serrando por dentro. ​Acordei querendo anestesiar a alma. Abri a geladeira, vi as cervejas, mas a mão da minha mãe, Abigail, fechou a porta antes que eu pudesse tocar em uma lata. "É do Gustavo", ela disse. Sempre o Gustavo. ​O dia passou como um arrastão. À noite, comprei minhas próprias bebidas e chamei a tia Bia. Eu precisava falar do Guel, precisava chorar. Mas o Gustavo chegou do serviço com aquele sorrisinho de canto. Ele escondeu as latinhas dele e, como um abutre, começou a beber as minhas. ​Ele zombava. Falava do Guel com indiretas, ria da minha cara de luto quando a minha mãe não estava olhando. Ele é mestre nisso: ser um demônio quando está sozinho comigo e um santo quando ela aparece. ​— Você não cansa de ser esse encosto, Lorena? — ele sussurrou perto do meu ouvido enquanto eu servia um copo. — Devia ter ido junto com seu primo. ​Meu sangue ferveu. O pavio curto que eu herdei dessa vida miserável estourou. Eu gritei. Gritei todos os nomes, todas as verdades sobre o verme que ele era. ​No mesmo segundo, a porta do quarto voou. Abigail saiu como uma furia, mas o dedo não foi apontado para o marido que me provocava. Foi apontado para mim. ​— Deixa ele em paz! O homem trabalha o dia inteiro e você infernizando! — minha mãe gritou. ​— Ele tá bebendo o que é MEU e rindo do meu luto, mãe! Abre o olho! ​Eu não baixei a cabeça. Nunca baixei. E foi aí que o mundo desabou. Abigail avançou em mim e suas mãos fecharam no meu pescoço. O ar começou a faltar, Lucca chutou desesperado na minha barriga. ​— Você é uma péssima mãe! — eu consegui expelir entre os dentes, o rosto ficando roxo. — Sempre escolheu macho! O Benjamin tá lá jogado por sua causa! Você nunca teve quando a gente precisou porque tava ocupada demais namorando um e outro! Você machuca a gente por causa de homem! ​O olhar dela mudou. Não era mais arrependimento, era ódio puro. Ela soltou meu pescoço e pegou a faca de carne em cima da mesa. Ela ia me esfaquear. Grávida. Com a Sofia chorando no canto. ​O Gustavo, vendo que a coisa ia fugir do controle dele, segurou o braço dela. Eu, cega de raiva e defesa, peguei outra faca. Se era para sangrar, a gente ia sangrar junto. ​— Eu vou queimar essa casa com você dentro, Gustavo! Eu vou acabar com vocês! — eu gritava, fora de mim. ​Ameaças vazias de uma mulher desesperada, mas o suficiente para ele sorrir. Ele sabia que tinha ganhado. Ele pegou o telefone com a calma de um psicopata. ​— Polícia? Minha enteada está armada, ameaçando incendiar a casa e matar a mãe. Preciso de uma medida protetiva urgente. ​Minha mãe não disse nada. Ela só me olhou com desprezo enquanto o marido dela armava a minha ruína.
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