Eu ainda estava ali na companhia de Kaio, sentada em uma mesa. Éramos só nós dois naquele pequeno escritório. Um garçom nos serviu com uma bebida e saiu em seguida, nos deixando a sós.
— Fico feliz em te ver aqui, chega a ser até estranho. — Kaio começou, tomando um gole do copo.
— Estranho mesmo. — entrei no jogo dele. Kaio me analisava, enquanto um sorriso bobo se formava em seus lábios.
— Então? O que te trouxe aqui novamente? Digo, para este lugar que sempre foi o seu refúgio? — Perguntou, esperando minha resposta.
— Bem, retornei porque percebi que Londres não era o meu lugar. Após as pessoas que mais amo partirem, vi que Londres só me traria dor. — disse, tomando o meu uísque.
— Sinto muito por você ter passado por isso. É uma dor que não desejo nem para o meu pior inimigo. — falou.
— Sim! Mas tudo bem, é o ciclo da vida: nascer, crescer, reproduzir...
— Envelhecer e morrer... — completou.
— Sim. — confirmei, enquanto nós dois ríamos baixo.
Havia entre nós uma química que eu não sabia explicar. Sempre fomos bons amigos, sempre fomos sinceros um com o outro desde crianças. Tínhamos uma amizade bonita.
— Então, vamos parar de falar de histórias tristes e aproveitar o momento! Porque amanhã pode ser tarde demais. — concordei com a cabeça, enquanto via Kaio se levantar e ligar um som, colocando uma música animada. — Senhorita, me daria a honra de uma dança? Prometo não pisar no seu pé!? — disse animado.
— Claro. — coloquei minhas mãos nas de Kaio e começamos a dançar no ritmo da música. Aquele perfume dele me envolveu, penetrando todos os meus sentidos.
— Está tudo bem!? — perguntou, enquanto eu engolia em seco.
— Tranquilo. — avisei.
— Lembra quando éramos crianças e passamos próximo à casa da vizinha Simone e sem querer acertamos uma pedra na janela de vidro dela? — puxou assunto, me fazendo rir.
— Lembro. Você foi um cafajeste, saiu correndo e me deixou para trás. — relembrei, e Kaio soltou uma gargalhada gostosa de se ouvir.
— Sei que é muito tarde, mas peço perdão. Estava com medo. — disse, olhando profundamente nos meus olhos, e seu sorriso ainda estava lá.
— Você era corajoso para tudo, menos para assumir seus erros. — disse.
— Não existe pessoa que me conheça melhor que você, Senhorita Huston. — comentou. Senti sua boca próxima à minha, nosso corpo ainda em movimento com a música. — Eu amo você, amo seu jeito descolado de ver as coisas e você sabe disso. — seus lábios roçaram nos meus.
— Talvez. — disse automaticamente, enquanto olhava em seus olhos.
— Se eu te beijasse agora, você corresponderia? Não com um tapa, claro! — disse sorrindo.
— Nem com um xingamento? Por exemplo, "Ordinário"? — brinquei, mas senti logo os beijos calorosos de Kaio. Seus beijos tinham uma mistura de menta com uísque, era um gosto diferente e bom. Suas mãos foram parar atrás da minha cabeça, na nuca.
— Pode me chamar do que quiser, até ordinário, mas prefiro que fique assim comigo a noite toda. — disse entre beijos. Meu corpo estava encostado na parede. Parei o beijo imediatamente quando vi Vinícius no lugar de Kaio.
— Para, Kaio. — o empurrei para longe, enquanto ele franzia o cenho e me olhava confuso.
— O que houve, Sara? Te machuquei? — perguntou, mas não tive coragem de responder, apenas chorei e sai dali correndo até meu carro, enquanto Kaio me chamava.
Entrei no meu carro e bati várias vezes no volante. Eu iria embora, mas me lembrei de que não seria uma boa amiga vir com Kate e deixá-la sozinha.
— Sara... — escutei a voz de Kaio e suas mãos batendo levemente no vidro do carro.
— Sai daqui, Kaio, por favor. Não quero falar com ninguém. — disse chorando.
— Se abre comigo, por favor. Eu não sou de implorar a ninguém, mas estou aqui pedindo a você que me fale o que está acontecendo!?
Soltei um suspiro pesado antes de abrir a porta do carro. Saí do carro e parei em sua frente. Senti seus dedos mornos enxugarem minhas lágrimas.
— Conta comigo, Sara. Para o que você quiser. Não gosto de te ver sofrer. — disse com tristeza.
— Eu não consigo esquecê-lo, eu não consigo. — disse, abraçando Kaio, que passava suas mãos em meus cabelos.
— Se der tempo para esquecer, a sua dor também é a minha. Me dê a oportunidade de te ajudar nisso. — ofereceu.
— É? E como poderá fazer isso, Kaio? Se nem eu mesma consigo. — disse, olhando para ele.
— Fica comigo, deixa eu te ajudar a esquecê-lo de vez, tenta me amar, porque sei que você sente algo, nem que seja um pouquinho. — Kaio se aproximou de mim.
— Não posso! Eu não quero te magoar e nem me magoar. Peço que você me dê tempo para que eu faça uma análise do que eu sinto realmente por você.
— Tudo bem. — Kaio soltou a respiração pesada e se afastou de mim.
— Entenda que o que sentimos na infância já passou há muito tempo. Esse sentimento nem existe mais, só boas lembranças. — disse.
— Não fala assim. Passei anos guardando para mim essas boas lembranças, como você disse. Tudo que passamos e vivemos juntos ficaram guardados dentro de mim. Sei que tudo mudou, que tudo passou, a vida seguiu o curso dela, mas e nós dois? Eu te amo, Sara, sempre te amarei, sempre vou conservar esse sentimento intacto dentro de mim. — disse, colocando meu cabelo atrás da orelha.
— Eu não quis te magoar, Kaio, só quero que veja a realidade das coisas. Não somos mais garotos, somos adultos que seguiram caminhos totalmente diferentes. Mas tudo muda, o tempo passa. — olhei para aquele homem em minha frente, que tinha um semblante triste.
— Tudo mudou, Sara, mas não o meu amor por você. Isso eu nutri aqui dentro de mim, eu não deixei morrer e muito menos se apagar. Mantive ele aceso o tempo todo. E já você, você me tirou da sua vida, não foi capaz de lutar pelo que sentimos um pelo outro. — disse, me dando um beijo no topo da testa, e saiu dali me deixando sozinha com meus devaneios.