Capítulo 11 – A Passagem dos Ecos

444 Palavras
Entre luz e sombra, apenas o uivo é verdadeiro. A névoa diante deles parecia viva. Brilhava suavemente, quase como se respirasse em ondas lentas. Era a fronteira entre o mundo dos vivos e o reino dos ecos — onde as memórias, as sombras e os segredos antigos se entrelaçavam num espaço intangível. Kael segurou o Coração de Tharn, sentindo o frio dos fragmentos contra sua pele. Apenas duas partes ainda estavam unidas, e o poder era instável, quase trêmulo em suas mãos. Com um passo hesitante, ele tocou a névoa. Um puxão profundo atravessou sua mente, como se memórias esquecidas tentassem arrastá-lo para um abismo infinito. O mundo ao redor desfez-se, e ele se viu preso entre luz e sombra. Liora agarrou seu braço, mantendo-o firme.
— Segure-se a mim — sussurrou, a voz firme, apesar do medo que brilhava em seus olhos. Irian tremia, olhando para as formas que surgiam e desapareciam na névoa — ecos de lobos passados, sombras que contavam histórias de glórias e traições. De repente, uma voz cortou o silêncio como um punhal.
— Quem ousa invadir o silêncio dos esquecidos? Do nada, uma entidade espectral surgiu, envolta em véus de névoa e luz pálida. Seus olhos vazios eram poços sem fundo, e sua presença gelava o ar. — Sou o Guardião do Limiar — declarou a voz, ecoando por toda a névoa. — Aquele que protege o equilíbrio entre o passado e o presente. Kael apertou os fragmentos do Coração.
— Sou Kael, portador do Coração de Tharn. Viemos buscar o Lobo Sem Nome, para lembrar o que foi esquecido e restaurar o equilíbrio. O Guardião sorriu, um gesto sombrio e silencioso.
— Então prove que merece atravessar. Enfrente o seu próprio eco. Num instante, o chão sumiu sob os pés de Kael. Ele caiu numa escuridão absoluta. Quando a visão voltou, viu diante de si uma figura — um reflexo distorcido de si mesmo, seus medos e dúvidas personificados. O reflexo sorriu cruelmente.
— Por que você deveria ser digno? O que você conhece do que teme? Kael sentiu seu coração apertar. Cada insegurança, cada medo escondido que jamais havia admitido, veio à tona, como uma onda que ameaça afogar. Mas, ao invés de recuar, Kael respirou fundo.
— Porque não posso fugir do passado. Nem da sombra. Só enfrentando o eco de quem sou, posso encontrar a força para seguir. O reflexo rugiu, transformando-se em um turbilhão de sombras e lembranças. Kael fechou os olhos, ouvindo o uivo distante do Lobo Sem Nome — não mais uma ameaça, mas um chamado à coragem. A batalha não era só pelo mundo exterior. Era pela verdade dentro dele.
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