— Salamaleikum!
— Aleikum assalam!
— Ficou sabendo da nova?
— Não. O que me conta?
— Estão organizando uma festa da faculdade entre calouros e veteranos. — Derya falou quase sussurrando ao ouvido de Sarah.
— Uau! E quando será?
— Estão querendo realizar a festa no próximo fim de semana. Hoje vão conversar com a gente.
Aquela notícia parecia animadora para Sarah. Afinal, estava há pouco tempo em Istambul e precisava fazer novas amizades.
Derya acrescentou:
— Quem sabe você não conhece um bom rapaz na festa?
As duas se entreolharam e riram. Sarah só queria se divertir. Não estava interessada em ninguém, exceto o desconhecido empresário do ramo imobiliário.
— Não mesmo. Quero apenas me divertir.
Os alunos, que ainda encontravam-se no corredor, entraram na sala. Logo, começaria mais uma aula.
Emir chegou à empresa mais animado que o habitual. Em seu carro ouvia uma música eletrônica. "Se palavras me procuram, tento aqui te encontrar, procurando em cada canto o brilho que existe em seu olhar". Desligou a música e entrou para a loja.
— Günaydın! Bom dia!
Seria mais um dia cheio de trabalho. Não é fácil ser empresário. Há quem pense que ser empresário é viver ostentando, gastando como bem entender o dinheiro da corporação. Isso é completamente errado. Ser empresário é estar todos os dias alinhando metas, ajustando o trabalho com toda a equipe. Emre era um empresário focado. A disciplina que recebeu do seu pai Samir era posta em prática todos os dias.
— Tenho novidades pra vocês. — Emre disse num tom de voz animado, olhando para o rosto de cada um dos seus colaboradores que se reuniam num grande círculo. — Nossa empresa chega a Esmirna. Isso é muito bom, mas, também, bastante desafiador. Preciso em menos de um mês formar um líder aqui para trabalhar com o nosso franqueado lá. Tenho a certeza de que a escolha será sobre o mais competente e apto para o cargo. Não pensem os demais que não são bons no que fazem, apenas não têm o perfil para liderar nesse momento.
Emre virou-se para Elisa que o olhava apreensiva. Pediu-lhe um copo d'água. Ela, de prontidão, pegou e lhe entregou. Emre tomou toda a água e continuou.
— Quero dizer-lhes que estão todos de parabéns! — sorrisos e vibrações tomaram conta do enorme pátio da empresa. — Portanto, irei realizar uma confraternização com todos vocês no próximo sábado. O endereço será compartilhado mais tarde por nossa secretária.
O dia de aula foi bastante produtivo pra Sarah e suas amigas. A festa rolaria na noite de sábado, no salão de eventos da universidade. Todos os calouros estavam bastante animados.
Voltou pra casa e despediu-se de suas amigas. A amizade entre elas estava indo muito bem.
Entrou em casa e encontrou sua tia deitada relaxadamente sobre o sofá, queixando-se de dores no corpo e febre.
— Allah, Allah! Não foi ao médico?
— Estou muito fraca. Não consigo nem me mover direito. Acho que vou morrer.
— Não diga isso, tia! — Sarah correu até a porta e bateu duas vezes no marco de cedro. É comum na cultura turca baterem na madeira quando não querem que algo r**m aconteça.
Hoje a cozinha estava sob o encargo de Sarah. Tomou um banho e foi preparar alguma coisa. Fez kebab — um delicioso pão, estilo naan, recheado com pedaços de carne de boi e vegetais. Muito semelhante ao shawarma. — com creme de iogurte. Um suco de laranja para acompanhar.
— Venha, tia. Vamos comer. —Ao tocar em Tania, Sarah sentiu o calor de sua febre. — Allah Allah! Minha tia, a senhora está ardendo em febre. Precisa tomar um remédio.
Sarah procurou até encontrar um comprimido para baixar a febre de Tania. Entregou-lhe, dizendo:
— Toma. A senhora vai ficar bem.
Tania tomou e as duas sentaram-se para comer.
Agradeceram o alimento erguendo as mãos aos céus. "Subhanallah"!
Notícias de Dinek chegaram até Sarah por mensagens. Ela pegou o celular e viu o que suas primas relataram.
Uma garota que cresceu junto com Sarah e suas primas foi raptada por um clã rival. Está refém do clã inimigo até segunda ordem. Estão negociando o acesso a um pequeno poço de água, muito útil para a agricultura e o abastecimento de algumas residências ali.
Sarah, ao ler essas notícias, ficou horrorizada. Tem muito que agradecer a Deus por ter conseguido sair dali. Poderia ser ela hoje nas mãos de homens m*l intencionados.
A luta de clãs não está perto de desaparecer na Turquia. Ainda há muita disputa nos vilarejos mais afastados das grandes cidades. Sob o regime de uma espécie de sharia — lei islâmica mais radical — os grupos lutam entre si, impondo regras exploradoras e hora lutando numa espécie de jihad (luta ou guerra religiosa do Islã) totalmente deturpada.
A família Şahingöz ainda tem sorte de não estar numa região sob influência do PKK — o partido comunista turco.
O PKK é o responsável por cometer inúmeros atos terroristas, principalmente nas grandes cidades.
Em Ankara (capital turca), um atentado em frente ao estádio do Galatasaray matou o pai de um jogador do clube.
Há um povo que é minoria na Turquia. Não estão somente no território turco, como também na Síria e países vizinhos. São os curdos. Esse povo é muito reprimido no Irã. Sem o direito de ter um território reconhecido pela ONU, formam uma das maiores nações despatriadas do mundo.
Sob a influência de agentes terroristas como o PKK, esse povo busca o reconhecimento e liberdade.
Há rumores de que estava acontecendo um financiamento de armamentos e bombas por parte do PKK. Também ouviu-se sobre o presidente Erdoğan estar indiretamente fortalecendo grupos de controle nas fronteiras.
O fato é que a Turquia, graças a esses problemas internos, ser m*l vista na Europa. É um país que vem buscando se aproximar da União Europeia, mas o bloco a rejeita constantemente.
A política do atual presidente é também bastante questionada. Ele tem agido de forma autoritária e tentado "islamizar" a Turquia.
O país é laico, de maioria muçulmana. Há preconceito por parte de muitos muçulmanos contra pessoas de outras religiões. Apesar de pouco comentado, a Turquia é um dos cinquenta países que mais persegue cristãos.
Erdoğan tem transformado a Turquia. A masjid (mesquita) Santa Sofia funcionou nesses últimos anos como um museu. Desde a queda de Constantinopla e derrocada do Império Bizantino, Santa Sofia é o ponto de contato entre culturas e religiões cristãs e islâmicas.
O atual presidente quer transformar a mesquita em unicamente um ponto de encontro da fé islâmica, o que desagrada muita gente.
Sarah tenta se tranquilizar com a ideia de que vai ficar tudo bem. "Inshallah", se Deus quiser.
Enfim, o sábado chegou. Todos os colaboradores da imobiliária estavam presentes na festa.
Elisa estava deslumbrante em seu lindo vestido preto com um brilho prateado. Sandálias de salto prateado.
— Uau! Como você está linda. — Emre elogiou Elisa. Ele também, como de praxe, estava todo elegante em seu lindo suéter slim fit bege, camisa azul ciano às mostras. Em seu rosto, um lindo sorriso e um olhar cativante.
— Iyi akşamlar! Boa noite!
— Boa noite, chefe! — Disse Nabir, todo radiante.
A festa estava bombando. Alguns rindo, conversando, outros comendo e bebendo, outros dançando.
A pista de dança estava sendo dominada pelas meninas que estavam bastante agitadas.
— Aí, Emre. É a sua chance. Vai lá, cara. — Disse Erick, empurrando-o para a pista.
— Ainda não. Preciso beber mais um pouco.
Elisa destacava-se no meio das demais meninas na pista. Deslumbrante, deixou suas sandálias de lado e estava descalço vibrando bastante. Emre, do outro lado, podia sentir suas vibrações. Seu coração acelerou num ritmo que o fez sair do seu lugar e ir até ela.
— Então... Aceita dançar comigo?
Os olhos de Elisa brilharam numa alegria sem igual. Os amigos de Emre cochichavam do outro lado, rindo bastante e contentes com a cena que viam.
— É uma honra — Disse Elisa, oferecendo-lhe a mão.
As músicas eram das mais variadas. No estilo turco e também música eletrônica. Era possível sentir uma atmosfera diferente no meio dos dois.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, estava Sarah na festa procurando por suas amigas.
A maioria ali estava vestindo-se bem ao estilo ocidental. Sarah e suas amigas eram das poucas meninas que cobriam a cabeça com o hijab.
— Olá! Que bom que vieram. — Sarah estava sorridente, cumprimentando as amigas.
— Vamos curtir, meninas.
Muitas conversas surgiram no decorrer da festa. Até que Derya fez comentários sobre alguns rapazes ali. Ela estava interessada num moreno alto, de cabelos e olhos castanhos escuros. Havia passado ao lado dele há uns poucos minutos e sentido o seu perfume.
— Meninas, ele é tão cheiroso. — Comentou cobrindo sua boca com as duas mãos.
Sarah automaticamente pensou em Emre. Ele sequer sabia de sua existência. Mas ela desejava um dia poder falar com ele. Parou por instantes pensativa.
— Que foi amiga? — Derya deu um cotocão em seu ombro. — Parece estar pensando no final da festa. Vamos curtir.
Sarah e suas amigas foram dançar um pouco. As músicas eram bastante animadas e, em pouco tempo, já estavam suadas.
Elisa tentou aproximar-se o máximo possível de Emre. Seu olhar penetrante, nada discreto, revelava o que ela mais queria: cair em seus braços.
— Você dança muito bem.
— Muito obrigada! Estou amando dançar com você.
Emre passou a mão pela cintura de Elisa e ela sentiu o seu corpo todo estremecer. Colou o seu corpo no dele e sentiu um leve calor subir por suas pernas até a barriga.
Seus olhares conectados, explosivos em reações químicas em cadeia, revelam o que mais querem. Não demora nem um minuto para que suas bocas se unam no primeiro beijo.
Os olhos se abrem e Emre percebe que agiu por instinto. Não havia passado por sua cabeça aquela cena. Agora, era real. Elisa conseguiu o que queria.
Todos pararam para ver a cena. Era um momento ímpar. A secretária e o chefe se beijando.
Sempre tem curiosos. Eles, de prontidão, sacaram seus smartphones e tiraram fotos. No dia seguinte, muitos comentários viriam pelas redes sociais.
Sarah e suas amigas estavam muito bem até que uma pessoa desagradável apareceu perto delas.
— Com licença, mas vocês estão no lugar errado.
São veteranas do curso de psicologia. Quem está no lugar errado é essa garota de cabelo castanho com mechas loiras e olhos verdes, juntamente com suas amigas.
— Como assim, lugar errado? — Sarah parou em frente a elas, cruzando os braços e encarando-as firmemente — Ficou louca, é?
— Eu louca? — Deu risadas — Aqui é uma festa. Por que você e suas amigas se vestem como estivessem numa mesquita?
Ela e todas as garotas do seu grupo começaram a rir bem alto.
O sangue veio à cabeça de Sarah. Ela e suas amigas ficaram bastante descontentes.
Um garçom passava com uma bandeja servindo drinques.
Sarah não hesitou e pegou um deles. Num movimento brusco, surpreendeu a todas, inclusive suas amigas, talvez, até a ela mesma.
— Toma! É pra você se hidratar! Cara de maracujá azedo.
Sarah jogou a bebida do copo no rosto da garota que abriu a boca, fechando os olhos e suspirando.
— Serseri! — Que traduzido é v*******a.
Sarah deu de ombros e retirou-se dali com suas amigas.
— Menina, você é louca. O que foi que você fez?
Sarah riu maldosamente. Jamais esperava reagir daquela maneira. Mas, por fim, gostou.
— Acho que ela estava mesmo precisando se hidratar.
Todas deram gargalhadas. A festa estava ficando muito boa e as três se divertiam bastante.
Elisa passou o restante da festa todo ao lado de Emre, que já havia bebido bastante. Pelo visto, Ivan seria o seu motorista.
Antes de irem embora. Ofereceu carona para Elisa.
— Posso te levar pra casa? — Aquela pergunta soou de forma ambígua. Pra qual casa? A dele ou a dela. Ela entendeu como a segunda opção e riu.
— Meu bem, como quer me levar pra casa se você ingeriu álcool?
— Meu amigo está ao volante.
Apontou para Ivan que já estava com a chave da Ferrari nas mãos.
Todos os três entraram no carro. "Uau! Que carro espetacular!", pensou Elisa ao sentar-se no confortável banco da Ferrari. Jamais andou num carro assim. Se tudo correr como pretende, será rotina andar nesse veículo.
Enfim, dobraram a última esquina e alcançaram a casa de Elisa. Uma humilde residência, num bairro simples de Istambul.
— Pronto. — Disse ela, desejando nunca sair daquele carro. Seu olhar penetrante envolvia Emre numa química voraz. Mordia seus lábios, mostrando o seu poder sedutor. Sua boca estava muda, mas seu coração gritava "me beija"!