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1201 Palavras
O dia começou como qualquer outro. E talvez fosse exatamente isso que Larissa mais precisava. Normalidade. Rotina. Controle. --- O despertador tocou às seis e trinta, como sempre, mas ela já estava acordada alguns minutos antes, de olhos abertos, fixos no teto, como se tivesse passado a noite inteira a pensar… mesmo sem lembrar exatamente em quê. Havia um cansaço diferente. Não físico. Mais profundo. Mais silencioso. --- Ela levantou-se com um movimento lento, quase automático, caminhando até a janela do quarto e afastando levemente a cortina. A luz da manhã entrou suave, espalhando-se pelo espaço com delicadeza, mas sem conseguir dissipar completamente a sensação pesada que parecia ter-se instalado dentro dela. Respirou fundo. Uma vez. Duas. --- — Hoje é só mais um dia. Disse em voz baixa. --- E, pela primeira vez em dias… Aquilo pareceu possível. --- O banho foi rápido, objetivo, quase mecânico. A água fria ajudou a despertar, a limpar qualquer resquício de distração, qualquer pensamento que não fosse útil. Hoje, ela precisava de foco. E tinha muito trabalho. --- O guarda-roupa voltou ao seu estado natural. Organizado. Rígido. Previsível. --- Diferente da noite anterior. --- Larissa ignorou completamente o vestido preto, que ainda estava levemente desalinhado entre as peças formais. Não olhou duas vezes. Não precisava. --- Escolheu um conjunto clássico: uma camisa branca de corte impecável, uma saia lápis escura que moldava o corpo com elegância sem chamar atenção excessiva, e um blazer estruturado que devolvia à sua postura aquilo que a noite anterior tinha, por algumas horas, retirado. O cabelo voltou a ser preso. Controlado. Sem espaço para rebeldia. --- A maquiagem foi discreta. Funcional. --- E o perfume… Mais leve. Mais neutro. --- Nada nela denunciava a mulher da noite anterior. --- E talvez… Nem ela quisesse lembrar. --- O escritório já estava em movimento quando chegou. Telefonemas. Passos apressados. Conversas baixas, mas constantes. O ambiente típico de um lugar onde decisões importantes eram tomadas todos os dias. --- Larissa caminhou pelos corredores com a mesma segurança de sempre, cumprimentando alguns colegas com acenos breves, sem se deter em conversas desnecessárias. Hoje, ela não queria falar. Queria trabalhar. --- Assim que entrou na sua sala, fechou a porta e apoiou as mãos na mesa por um instante. Respirou fundo. --- Ali… Era território seguro. --- Sentou-se. Abriu a agenda. E mergulhou no trabalho. --- Horas passaram. Processos foram analisados. Documentos redigidos. Chamadas atendidas. Decisões tomadas. --- E, por algum tempo… Funcionou. --- Zayn não apareceu na sua mente. Lindsey também não. --- Era apenas ela. E o trabalho. --- Como sempre deveria ser. --- Mas algumas coisas… Não desaparecem assim. --- No início da tarde, Larissa saiu do escritório para uma reunião externa. Nada relacionado ao caso de Zayn. Um processo menor, quase rotineiro, mas que exigia a sua presença. E, talvez, fosse melhor assim. --- A rua estava movimentada, o sol já mais alto, refletindo nos vidros dos edifícios e criando um brilho quase ofuscante em alguns pontos. Pessoas caminhavam apressadas, algumas distraídas, outras mergulhadas em conversas telefónicas. O mundo seguia. Sempre segue. --- Larissa caminhava com passos firmes, a pasta segura junto ao corpo, o olhar direcionado à frente. Até que parou. --- Não por vontade. Mas por reconhecimento. --- Do outro lado da rua. --- Lindsey. --- Impecável. Como sempre. --- Vestia um conjunto claro, sofisticado, que parecia ter sido feito sob medida. Os cabelos estavam perfeitamente alinhados, caindo com naturalidade calculada sobre os ombros. Óculos escuros protegiam o olhar… mas não completamente. --- Porque mesmo à distância… Larissa sentiu. --- Foi instantâneo. --- Lindsey também a viu. --- Não houve surpresa. Não houve hesitação. --- Apenas um olhar. --- E nele… Havia tudo. --- Desprezo. Frieza. Superioridade. --- Nenhuma palavra foi dita. Nenhum gesto foi feito. --- Mas não era necessário. --- Porque aquele olhar dizia mais do que qualquer discussão poderia. --- Larissa manteve-se firme. Não desviou imediatamente. Sustentou. Por alguns segundos. --- Mas, ao contrário de Lindsey… Ela não carregava ódio. --- Carregava… incómodo. --- E isso irritou-a. --- Porque não devia sentir nada. --- Quebrou o contacto visual primeiro. E continuou a andar. --- Mas o impacto ficou. --- Durante o resto da tarde, algo estava fora do lugar. --- Ela continuava a trabalhar. Respondia. Argumentava. Decidia. --- Mas a mente… Já não estava completamente presente. --- Aquela troca silenciosa tinha deixado marcas. --- Não era medo. Não era culpa. --- Era algo mais subtil. --- A sensação de estar a ser observada. Julgada. Inserida num jogo que ainda não tinha começado oficialmente… mas já estava a acontecer. --- Quando finalmente voltou para casa, o cansaço era evidente. Mas não era apenas físico. --- Larissa entrou no apartamento com menos energia do que o habitual. Tirou os sapatos logo na entrada, deixou a bolsa sobre o sofá e caminhou lentamente até a cozinha, servindo-se de um copo de água que bebeu quase de uma vez só. --- Encostou-se ao balcão. Fechou os olhos. --- — Se não é ele… Murmurou. --- Abriu os olhos. --- — É ela. --- Soltou um pequeno suspiro. Mais pesado do que pretendia. --- Caminhou até a sala e deixou-se cair no sofá, inclinando a cabeça para trás, encarando o teto como se procurasse ali alguma resposta. --- — Já estou farta deste caso. Disse, agora com mais clareza. --- E era verdade. --- Não pelo trabalho. Não pela complexidade jurídica. --- Mas por tudo o que vinha junto. --- Pessoas. Olhares. Tensões. --- E ele. --- O telemóvel vibrou. --- Ela nem precisou olhar para saber. --- Mas olhou. --- Zayn. --- Larissa fechou os olhos por um segundo. Como se reunisse paciência. Ou forças. --- Atendeu. --- — Dra. Larissa. A voz dele surgiu firme. Mas havia algo ali. Mais contido. --- — Senhor Castellari. O tom dela voltou automaticamente ao profissional. --- — Preciso de falar consigo. Direto. Sem rodeios. --- Larissa passou a mão pela testa. — Sobre o processo? --- — Sim. Surgiram algumas dúvidas. --- Silêncio. --- Ela já esperava. --- — Podemos tratar por telefone. Tentou. --- — Prefiro pessoalmente. --- A resposta veio rápida. Segura. --- Larissa fechou os olhos novamente. --- — Amanhã. Disse ele. --- Não como uma pergunta. Mas como uma decisão. --- Ela abriu os olhos. Olhou para o teto. --- — Está bem. A resposta saiu mais cansada do que gostaria. --- — Que horas? --- — De manhã. — No escritório? — Sim. --- Uma pausa. --- — Obrigado, doutora. --- Ela quase respondeu “de nada”. Mas não respondeu. --- — Até amanhã. --- Desligou. --- O silêncio voltou. --- Mais pesado. --- Mais presente. --- Larissa deixou o telemóvel cair ao lado. E levou as mãos ao rosto. --- — Se não é ele… Respirou fundo. --- — É a esposa. --- Uma pequena pausa. --- — E eu no meio disso tudo. --- Deixou-se escorregar mais no sofá. O corpo finalmente cedendo ao cansaço. --- — Já estou farta deste caso. Repetiu. --- Mas no fundo… Sabia. --- Não era apenas o caso. --- Era o que ele estava a despertar. --- E isso… Não podia ser resolvido com uma petição.
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