O dia começou como qualquer outro.
E talvez fosse exatamente isso que Larissa mais precisava.
Normalidade.
Rotina.
Controle.
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O despertador tocou às seis e trinta, como sempre, mas ela já estava acordada alguns minutos antes, de olhos abertos, fixos no teto, como se tivesse passado a noite inteira a pensar… mesmo sem lembrar exatamente em quê.
Havia um cansaço diferente.
Não físico.
Mais profundo.
Mais silencioso.
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Ela levantou-se com um movimento lento, quase automático, caminhando até a janela do quarto e afastando levemente a cortina. A luz da manhã entrou suave, espalhando-se pelo espaço com delicadeza, mas sem conseguir dissipar completamente a sensação pesada que parecia ter-se instalado dentro dela.
Respirou fundo.
Uma vez.
Duas.
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— Hoje é só mais um dia.
Disse em voz baixa.
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E, pela primeira vez em dias…
Aquilo pareceu possível.
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O banho foi rápido, objetivo, quase mecânico. A água fria ajudou a despertar, a limpar qualquer resquício de distração, qualquer pensamento que não fosse útil.
Hoje, ela precisava de foco.
E tinha muito trabalho.
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O guarda-roupa voltou ao seu estado natural.
Organizado.
Rígido.
Previsível.
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Diferente da noite anterior.
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Larissa ignorou completamente o vestido preto, que ainda estava levemente desalinhado entre as peças formais. Não olhou duas vezes.
Não precisava.
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Escolheu um conjunto clássico: uma camisa branca de corte impecável, uma saia lápis escura que moldava o corpo com elegância sem chamar atenção excessiva, e um blazer estruturado que devolvia à sua postura aquilo que a noite anterior tinha, por algumas horas, retirado.
O cabelo voltou a ser preso.
Controlado.
Sem espaço para rebeldia.
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A maquiagem foi discreta.
Funcional.
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E o perfume…
Mais leve.
Mais neutro.
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Nada nela denunciava a mulher da noite anterior.
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E talvez…
Nem ela quisesse lembrar.
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O escritório já estava em movimento quando chegou.
Telefonemas.
Passos apressados.
Conversas baixas, mas constantes.
O ambiente típico de um lugar onde decisões importantes eram tomadas todos os dias.
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Larissa caminhou pelos corredores com a mesma segurança de sempre, cumprimentando alguns colegas com acenos breves, sem se deter em conversas desnecessárias.
Hoje, ela não queria falar.
Queria trabalhar.
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Assim que entrou na sua sala, fechou a porta e apoiou as mãos na mesa por um instante.
Respirou fundo.
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Ali…
Era território seguro.
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Sentou-se.
Abriu a agenda.
E mergulhou no trabalho.
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Horas passaram.
Processos foram analisados.
Documentos redigidos.
Chamadas atendidas.
Decisões tomadas.
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E, por algum tempo…
Funcionou.
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Zayn não apareceu na sua mente.
Lindsey também não.
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Era apenas ela.
E o trabalho.
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Como sempre deveria ser.
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Mas algumas coisas…
Não desaparecem assim.
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No início da tarde, Larissa saiu do escritório para uma reunião externa. Nada relacionado ao caso de Zayn. Um processo menor, quase rotineiro, mas que exigia a sua presença.
E, talvez, fosse melhor assim.
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A rua estava movimentada, o sol já mais alto, refletindo nos vidros dos edifícios e criando um brilho quase ofuscante em alguns pontos. Pessoas caminhavam apressadas, algumas distraídas, outras mergulhadas em conversas telefónicas.
O mundo seguia.
Sempre segue.
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Larissa caminhava com passos firmes, a pasta segura junto ao corpo, o olhar direcionado à frente.
Até que parou.
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Não por vontade.
Mas por reconhecimento.
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Do outro lado da rua.
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Lindsey.
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Impecável.
Como sempre.
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Vestia um conjunto claro, sofisticado, que parecia ter sido feito sob medida. Os cabelos estavam perfeitamente alinhados, caindo com naturalidade calculada sobre os ombros. Óculos escuros protegiam o olhar… mas não completamente.
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Porque mesmo à distância…
Larissa sentiu.
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Foi instantâneo.
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Lindsey também a viu.
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Não houve surpresa.
Não houve hesitação.
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Apenas um olhar.
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E nele…
Havia tudo.
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Desprezo.
Frieza.
Superioridade.
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Nenhuma palavra foi dita.
Nenhum gesto foi feito.
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Mas não era necessário.
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Porque aquele olhar dizia mais do que qualquer discussão poderia.
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Larissa manteve-se firme.
Não desviou imediatamente.
Sustentou.
Por alguns segundos.
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Mas, ao contrário de Lindsey…
Ela não carregava ódio.
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Carregava… incómodo.
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E isso irritou-a.
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Porque não devia sentir nada.
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Quebrou o contacto visual primeiro.
E continuou a andar.
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Mas o impacto ficou.
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Durante o resto da tarde, algo estava fora do lugar.
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Ela continuava a trabalhar.
Respondia.
Argumentava.
Decidia.
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Mas a mente…
Já não estava completamente presente.
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Aquela troca silenciosa tinha deixado marcas.
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Não era medo.
Não era culpa.
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Era algo mais subtil.
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A sensação de estar a ser observada.
Julgada.
Inserida num jogo que ainda não tinha começado oficialmente… mas já estava a acontecer.
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Quando finalmente voltou para casa, o cansaço era evidente.
Mas não era apenas físico.
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Larissa entrou no apartamento com menos energia do que o habitual. Tirou os sapatos logo na entrada, deixou a bolsa sobre o sofá e caminhou lentamente até a cozinha, servindo-se de um copo de água que bebeu quase de uma vez só.
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Encostou-se ao balcão.
Fechou os olhos.
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— Se não é ele…
Murmurou.
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Abriu os olhos.
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— É ela.
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Soltou um pequeno suspiro.
Mais pesado do que pretendia.
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Caminhou até a sala e deixou-se cair no sofá, inclinando a cabeça para trás, encarando o teto como se procurasse ali alguma resposta.
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— Já estou farta deste caso.
Disse, agora com mais clareza.
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E era verdade.
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Não pelo trabalho.
Não pela complexidade jurídica.
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Mas por tudo o que vinha junto.
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Pessoas.
Olhares.
Tensões.
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E ele.
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O telemóvel vibrou.
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Ela nem precisou olhar para saber.
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Mas olhou.
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Zayn.
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Larissa fechou os olhos por um segundo.
Como se reunisse paciência.
Ou forças.
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Atendeu.
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— Dra. Larissa.
A voz dele surgiu firme.
Mas havia algo ali.
Mais contido.
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— Senhor Castellari.
O tom dela voltou automaticamente ao profissional.
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— Preciso de falar consigo.
Direto.
Sem rodeios.
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Larissa passou a mão pela testa.
— Sobre o processo?
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— Sim. Surgiram algumas dúvidas.
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Silêncio.
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Ela já esperava.
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— Podemos tratar por telefone.
Tentou.
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— Prefiro pessoalmente.
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A resposta veio rápida.
Segura.
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Larissa fechou os olhos novamente.
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— Amanhã.
Disse ele.
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Não como uma pergunta.
Mas como uma decisão.
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Ela abriu os olhos.
Olhou para o teto.
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— Está bem.
A resposta saiu mais cansada do que gostaria.
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— Que horas?
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— De manhã.
— No escritório?
— Sim.
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Uma pausa.
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— Obrigado, doutora.
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Ela quase respondeu “de nada”.
Mas não respondeu.
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— Até amanhã.
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Desligou.
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O silêncio voltou.
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Mais pesado.
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Mais presente.
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Larissa deixou o telemóvel cair ao lado.
E levou as mãos ao rosto.
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— Se não é ele…
Respirou fundo.
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— É a esposa.
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Uma pequena pausa.
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— E eu no meio disso tudo.
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Deixou-se escorregar mais no sofá.
O corpo finalmente cedendo ao cansaço.
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— Já estou farta deste caso.
Repetiu.
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Mas no fundo…
Sabia.
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Não era apenas o caso.
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Era o que ele estava a despertar.
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E isso…
Não podia ser resolvido com uma petição.