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1203 Palavras
O despertador tocou às seis em ponto. Larissa não precisou de mais do que um segundo toque para abrir os olhos. Disciplina. Era assim que ela sobrevivia. Era assim que ela avançava. O teto branco do pequeno apartamento parecia encará-la de volta, silencioso, como se aguardasse o próximo movimento. Durante alguns segundos, ela permaneceu imóvel, sentindo o próprio corpo despertar — não com preguiça, mas com propósito. Mais um dia. Mais uma oportunidade. Mais uma batalha. Ela virou o rosto lentamente, observando a luz tímida da manhã que atravessava a cortina fina. Maputo ainda acordava devagar, mas a mente de Larissa já estava à frente de todos. Sempre esteve. Com um movimento fluido, afastou o lençol e colocou os pés no chão frio. Um arrepio percorreu-lhe a pele — não de desconforto, mas de alerta. Ela estava viva. E tinha objetivos. Caminhou até o espelho do quarto, ainda envolta na camisola leve de seda. Parou diante do próprio reflexo, analisando-se com a mesma exigência com que analisava um processo jurídico. Corpo alinhado. Postura firme. Expressão controlada. Magra, sim. Mas não frágil. Havia definição em cada curva, uma harmonia quase perigosa entre delicadeza e força. Larissa sabia. Sabia o efeito que causava. Não era vaidade… era consciência. E no mundo em que estava a entrar — o mundo dos tribunais, dos escritórios luxuosos, dos homens que pensavam controlar tudo — consciência era uma arma. Ela não precisava se exibir. Bastava existir. Virou-se e seguiu para o banheiro. O som da água no chuveiro encheu o espaço enquanto o vapor começava a subir. Larissa entrou sem hesitar, deixando a água quente percorrer-lhe o corpo, relaxando músculos que, na verdade, nunca estavam completamente tensos… nem completamente soltos. Fechou os olhos. Por alguns segundos, permitiu-se não pensar em contratos, prazos ou expectativas. Mas durou pouco. — Hoje não pode ser um dia comum — murmurou para si mesma. E não seria. --- Minutos depois, já envolta numa toalha branca, voltou ao quarto com passos decididos. Abriu o guarda-roupa. Ali não havia espaço para indecisão. Blazers alinhados. Saias de corte impecável. Camisas em tons neutros. Ela percorreu os cabides com os dedos até parar. Preto. Clássico. Seguro. Poderoso. Escolheu uma saia lápis de cintura alta, que moldava o corpo com precisão, e uma camisa branca estruturada que, mesmo discreta, não escondia completamente a silhueta. Equilíbrio. Era sempre sobre isso. Formal… mas não invisível. Elegante… mas não apagada. Vestiu-se com calma, ajustando cada detalhe como se estivesse a preparar-se para entrar num tribunal — o que, de certa forma, era verdade. Diante do espelho novamente, soltou o cabelo, deixando-o cair em ondas suaves pelos ombros. Depois, prendeu parcialmente, criando um visual que dizia tudo sem precisar dizer nada. Profissional. Mas impossível de ignorar. A maquiagem veio em seguida — leve, estratégica. Realçava os olhos, destacava os lábios, mas sem exageros. Larissa não precisava exagerar. Ela sabia exatamente onde parar. Calçou os saltos altos — pretos, elegantes, letais. Endireitou a postura. E naquele instante… já não era apenas Larissa. Era alguém que estava pronta para conquistar espaço num mundo que não facilitava para ninguém. --- O escritório ficava num dos edifícios mais imponentes da cidade. Vidros espelhados, segurança rigorosa, um fluxo constante de pessoas que respiravam pressa, ambição e poder. Assim que entrou, os olhares vieram. Sempre vinham. Alguns discretos. Outros descarados. Ela ignorava todos. Ou melhor… fingia ignorar. Porque perceber era diferente de reagir. — Bom dia, Larissa — disse uma recepcionista, com um sorriso leve. — Bom dia. A resposta veio educada, mas sem se prolongar. Ela não estava ali para socializar. Caminhou pelos corredores com segurança, o som dos saltos ecoando de forma ritmada, quase como um aviso silencioso de presença. Determinada. Focada. Inabalável. Ou pelo menos… era o que deixava transparecer. --- A sala onde trabalhava era compartilhada com outros estagiários. Mesas organizadas, computadores ligados, papéis empilhados. Rotina. Mas Larissa não via aquilo como rotina. Via como campo de treino. Sentou-se, ligou o computador e começou. Emails. Documentos. Revisões. Ela lia rápido. Pensava mais rápido ainda. Enquanto os outros ainda organizavam ideias, Larissa já antecipava soluções. Era isso que a diferenciava. Não era apenas esforço. Era instinto. — Já estás aqui há quanto tempo? — perguntou um colega ao lado. — O suficiente — respondeu ela, sem desviar o olhar da tela. Ele soltou um pequeno riso. — Sempre assim… direta. Ela não respondeu. Não era arrogância. Era foco. --- As horas passaram quase sem que ela percebesse. Reuniões menores. Correções de contratos. Análise de cláusulas. Larissa mergulhava em cada tarefa como se fosse a mais importante do mundo. Porque para ela… era. Cada detalhe contava. Cada erro evitado era um passo à frente. Cada acerto… uma porta que se abria. --- Por volta do meio-dia, ela fez uma pausa breve. Pegou o café. Encostou-se levemente à mesa, olhando pela janela. A cidade agora estava viva. Movimento. Ruído. Caos. Ela respirou fundo. — Ainda não cheguei lá — pensou. Mas estava no caminho. E isso… já era mais do que muitos conseguiam. --- A tarde trouxe mais pressão. Mais exigência. Mais testes. Um advogado sénior pediu que ela revisasse um documento urgente. Outro pediu análise de risco num contrato sensível. Ela fez ambos. Sem reclamar. Sem hesitar. E melhor… sem errar. --- Já passava das cinco quando o inesperado aconteceu. — Larissa. A voz veio firme. Ela levantou o olhar. Era a secretária do diretor. — O doutor quer falar consigo. Um pequeno silêncio instalou-se dentro dela. Não externo. Interno. O tipo de silêncio que antecede algo importante. — Agora? — Agora. Larissa levantou-se. Alisou a saia. Endireitou os ombros. E caminhou. Cada passo parecia mais pesado… não de medo, mas de consciência. Algo estava prestes a mudar. --- A porta do escritório do chefe estava entreaberta. Ela bateu levemente. — Entre. A voz do outro lado era grave, autoritária. Larissa entrou. O ambiente era diferente de tudo lá fora. Mais silencioso. Mais sério. Mais… decisivo. O homem atrás da mesa levantou os olhos para ela. Observou-a por um segundo a mais do que o habitual. Não de forma inadequada… mas avaliando. — Sente-se, Larissa. Ela obedeceu. Postura perfeita. Olhar firme. Mas por dentro… atenta a cada detalhe. — Tenho acompanhado o seu trabalho. Ela não disse nada. Apenas ouviu. — E devo dizer… que está acima da média. Um elogio. Mas vindo dele… significava muito mais. — Obrigada, doutor. — Não me agradeça ainda. Ele abriu uma pasta. Deslizou-a sobre a mesa. — Tenho um caso. Larissa sentiu. Antes mesmo de ouvir. Sentiu que aquilo não era comum. — Um caso delicado… complexo… e extremamente importante. Ela manteve a expressão neutra. Mas o coração… Esse já batia diferente. — E eu preciso de alguém que não cometa erros. Ele fez uma pausa. Olhou diretamente para ela. — Acha que consegue? Larissa sustentou o olhar. Sem hesitar. Sem vacilar. — Sim. Um silêncio pairou no ar. E então… ele assentiu lentamente. — Ótimo. Empurrou a pasta mais um pouco. — Porque este caso… pode definir a sua carreira. E naquele instante… Sem saber exatamente porquê… Larissa sentiu que a sua vida estava prestes a sair do controlo, mas mesmo assim aceitou o caso de bom grado.
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