As condições do contrato

1237 Palavras
Felipe não disse mais nada. Ficou em silêncio, me encarando de uma maneira que parecia atravessar minha pele, analisar cada fibra do meu ser. Era irritante. Extremamente irritante. Cruzei os braços e desviei o olhar, desconfortável. Na parede, um relógio enorme de madeira marcava as horas com um tique-taque audível e irritante. Já passavam das 20 horas. Meu estômago se revirava de ansiedade. Não restava muito tempo. O certo seria sentar, ler cada linha daquele contrato e discutir cada cláusula com calma. Talvez até pedir um advogado, se eu quisesse agir como alguém minimamente sensato. Mas sensatez não pagava as contas. Não bancava sessões de quimioterapia para uma criança de oito anos. A verdade? Eu precisava do dinheiro. Estava em desvantagem. Sem margem para negociação de verdade. Claro, ele também precisava de mim — ou melhor, precisava de uma noiva. Tão desesperadamente que estava disposto a pagar. Aposto que essa postura arrogante era só um teatro, uma tentativa de me fazer sentir pressionada para assinar logo. Suspirei fundo, lutando contra a vontade de simplesmente socá-lo. Em vez disso, obriguei minha voz a soar firme: — Vamos negociar os termos. Primeiro, irei ler tudo. Depois, verei se vale a pena assinar. — anunciei, tentando manter uma calma que não existia. Sem esperar resposta, baixei os olhos para o calhamaço de papéis diante de mim. Não podia cometer o erro de assinar algo que envolvesse minha avó ou, principalmente, Cecília. Elas não tinham culpa das escolhas que eu estava prestes a fazer. — Vejo que continua organizada e responsável como sempre. — Felipe murmurou, a voz impregnada de diversão — Não mudou nada. Nem por dentro, nem por fora. Revirei os olhos e o ignorei completamente. Se eu deixasse ele tirar minha concentração, estaria perdida. Li com atenção, riscando, anotando, marcando tudo que soava absurdo, tudo que poderia me colocar em risco. Quando terminei, entreguei os papéis de volta para ele, mantendo a expressão neutra. — Marquei todos os pontos que devem ser modificados. O restante, aceito como está. Se concordar em alterar, podemos assinar. Felipe folheou o contrato, lendo minhas anotações. O sorriso zombeteiro que surgiu no rosto dele me irritou ainda mais. — Impossível. — disse, rindo. — Como posso ter uma noiva que aparece uma vez por semana? Durante uma manhã, ainda por cima? Como diz aqui, "preferencialmente em lugares públicos", sem dormir na minha casa? Acha que estamos em que século? 1800? Sem convivência real ninguém vai acreditar que estamos noivos. Sem contar que eu preciso de companhia nos eventos, nas reuniões, nos jantares. Do jeito que você quer, seria inútil. Ele me olhou como se eu fosse completamente maluca. A arrogância pingava de cada palavra. — Não tenho toda essa disponibilidade. — rebati, mantendo o tom controlado. — O máximo que posso oferecer é um dia no final de semana. Se eu estiver disponível, acompanho em eventos. Lembrei das lições da minha avó: sempre ofereça pouco para depois ceder e alcançar o que realmente deseja. Era a base de toda boa negociação. Felipe sorriu, como quem sabia exatamente o jogo que eu estava tentando jogar. — Minha última oferta: todos os finais de semana. — disse ele. — A partir de sexta, quando eu sair do trabalho, passo para te pegar. Você volta só no domingo. Reuniões e festas são obrigatórios. Se não aceitar, há outras interessadas — e algumas nem cobrariam por isso. A prepotência dele era quase cômica, se não fosse irritante. Segurei a vontade de atirar o contrato nele e assenti, resignada. — Tudo bem. Aceito. Mas ainda não estava acabado. — Outro ponto. — continuei. — Eu não devo satisfação da minha vida pessoal. Assim como você também não. Evidente que não farei nada que prejudique sua imagem. Há uma cláusula de fidelidade, certo? Minha preocupação era clara: proteger Cecília. Felipe não podia saber dela. Nem agora, nem nunca. Meu coração se apertou só de pensar nisso. — Desde que eu nunca veja você com outro homem, sua vida não me interessa. — respondeu ele com desdém, depois franziu a testa. — Mas me explica isso aqui... Ele apontou uma cláusula nova que eu havia inserido. — Porque eu demitiria minha secretária? Ela trabalha comigo há anos. É de confiança. Dei um sorriso sarcástico. — Fácil. Sou vingativa. — respondi sem remorso. — Ela me tratou como lixo quando cheguei aqui. Não esqueço essas coisas. Não revido na hora. Prefiro guardar e escolher o momento certo. Se quiser, me empreste seu celular agora, mando um áudio avisando para ela procurar outro prédio para rodar a bolsinha. Ele riu, balançando a cabeça, como se estivesse genuinamente divertido. — Por mim, tudo bem. Só será trabalhoso encontrar outra pessoa. Faça como quiser. — disse ele. — Agora, quanto a isso aqui... Apontou outro trecho do contrato, onde eu teria que agir como uma verdadeira vilã. Era quase cômico. — Você realmente quer que eu infernize sua família? — perguntei, arqueando a sobrancelha. — Exato. — ele sorriu como quem saboreava a ideia. — Quero que minha mãe e minha irmã te odeiem. Profundamente. Se der certo, nunca mais vão tentar me casar. A explicação dele foi ainda mais absurda. — Eu não quero me casar. Também não posso ter filhos. Fiz vasectomia assim que uma maluca tentou me dar um golpe. Minha mãe acha que estou velho demais para viver solteiro. Vive armando encontros, mandando áudios intermináveis me chamando de imaturo. Estou cansado disso. A sinceridade inesperada me pegou de surpresa. Por alguns segundos, fiquei apenas olhando para ele. A vida era mesmo uma piada c***l. Ele, rico, poderoso, atormentado pelas futilidades da vida adulta. Eu, pobre, desesperada, lutando para salvar a vida da minha filha. Tive vontade de rir. E ri. Dei uma risada abafada, que me escapou antes que eu pudesse impedir. Felipe me olhou, intrigado. — Algum problema? Balancei a cabeça. — Nenhum. Só achei curioso o que cada um chama de "problema". Respirei fundo, endireitei os ombros. — Sou capaz de fazer tudo isso. Em menos de dez meses, sua mãe vai desejar nunca ter me conhecido. Vai comemorar a sua vida bandida. Estendi a mão. — Então, tudo certo com as alterações? Podemos assinar? Ele não respondeu de imediato. Afastou-se, foi até o computador, os olhos fixos na tela enquanto digitava. — Ainda não. — disse finalmente, virando-se para mim. — Quero uma alteração final. Suspirei, já sentindo que não ia gostar. — Não quero uma noiva falsa apenas. Quero uma noiva de aluguel completa. Você vai dormir no meu quarto. Na minha cama. Isso é inegociável. As palavras caíram como um soco. — Está querendo o quê? — minha voz saiu fria, calculada. — Um relacionamento provisório com direito a tudo que um oficial teria? Você bate bem da cabeça? Está tentando me contratar como... como uma prostituta? Ele apenas sorriu, como se minha indignação fosse previsível. — Estou propondo exatamente o que você ouviu. Um contrato. Termos claros. Sem confusão. Fiquei parada, o coração batendo forte. Minha mente girava. Eu poderia dar um soco nele. Poderia rasgar o contrato, cuspir no chão e ir embora. Ou... Poderia assinar. Aceitar a humilhação. Salvar Cecília. A pergunta verdadeira era: existiria alguma forma de virar isso a meu favor? Ainda olhando para ele, percebi que essa resposta viria com o tempo. E que, gostando ou não, o jogo já tinha começado. E eu, como sempre, teria que vencer.
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