Subi na ambulância com a ajuda do médico. Por mais que eu soubesse exatamente o que fazer — afinal, passei os últimos meses mergulhada em pesquisas, diagnósticos, relatórios e relatórios —, naquele momento, meu corpo parecia agir por conta própria. Uma parte de mim, mais racional, tentava se manter firme, enquanto outra, mais frágil, tremia por dentro. A sensação era de estar presa num pesadelo do qual não se pode acordar. O coração disparava, a respiração oscilava entre o raso e o inexistente. Ainda assim, segui.
Tudo mudou no instante em que vi minha filha, tão pequena, cercada por máquinas e fios, com olhos fechados e o peito subindo lentamente. Ela parecia frágil demais para aguentar aquilo tudo — mas ainda assim, lutava. Só de olhar para ela, soube que era forte. Forte o suficiente para sobreviver. Forte o suficiente para me fazer resistir também.
Aproximei-me com cuidado, segurando sua mão minúscula entre as minhas.
— Vai ficar tudo bem, meu amor. — sussurrei, aproximando meus lábios de seu ouvido. — Aguenta firme. Hoje é o começo da mudança. Sua vida vai se transformar. Eu prometo. É uma promessa, tá? A partir de hoje, você vai ter tudo aquilo que merece. Só precisa passar por essa pequena batalha antes...
Acariciei seus cabelos, me esforçando para manter a voz firme, mesmo que as lágrimas já estivessem ameaçando cair.
— E eu vou estar aqui. Todo o tempo. Você não está sozinha. A mamãe vai te proteger de tudo, minha princesa.
Cecília estava sedada. Não havia qualquer sinal de que podia me ouvir, mas mesmo assim, continuei falando com ela. Uma parte de mim precisava acreditar que, em algum lugar, dentro dela, minha voz alcançaria seu coração e lhe daria forças.
O trajeto até o novo hospital pareceu uma eternidade. Mesmo sendo relativamente perto, o tempo parecia se arrastar como um castigo. Cada ruído da ambulância, cada curva, cada segundo em que eu não podia fazer nada além de observar, parecia um martírio. Quando finalmente chegamos, uma equipe médica já nos aguardava na entrada. Tudo foi muito rápido. Enquanto uma enfermeira anotava as últimas informações, Cecília foi levada direto para o centro cirúrgico.
— Senhora, você terá que esperar aqui. Assim que o médico tiver alguma atualização, virá informá-la. Com licença. — A voz da enfermeira era calma, porém distante, como se eu estivesse ouvindo debaixo d’água.
Observei a porta do centro cirúrgico se fechar lentamente, como uma cena de filme. Aquilo me rasgou por dentro. Vê-la sendo levada para longe de mim, sem poder segurá-la ou acompanhá-la, foi a dor mais insuportável que já senti. Meu corpo congelou.
Fiquei ali, parada, encarando a porta, como se pudesse fazê-la abrir de novo apenas com o olhar. Minha mente não conseguia acompanhar os acontecimentos. Estava exausta, emocionalmente drenada. Não sabia o que fazer. Apenas... esperar? Era isso? Esperar?
Me senti inútil.
— Ariela, minha querida... vamos sentar um pouco. — a voz da minha avó me trouxe de volta. — Tome esse chá. E coma alguns biscoitos, por favor. Sei que você não comeu nada hoje.
Vó Dulci me conduziu com delicadeza até as cadeiras do corredor. Eu me sentia como uma boneca de pano, movida por mãos alheias.
— Já preenchi toda a ficha de entrada da Cecília. O médico que a acompanhou do outro hospital informou que ela já está na cirurgia. Agora é hora de você respirar.
Assenti devagar, sem encontrar forças para protestar.
— Se você não comer, vai acabar desmaiando. E Cecília precisa de uma mãe forte, não é? — Ela empurrou a xícara em minha direção com aquele jeitinho autoritário e doce que só as avós têm. — Engula tudo, mesmo sem fome. Você sabe melhor que ninguém tudo que uma mãe precisa engolir por amor à filha. O chá será a parte fácil.
Meus dedos se fecharam em torno da xícara. O calor dela contrastava com o frio que tomava conta do meu corpo. Notei, com espanto, o quanto minha mão tremia.
— Eu estou com medo... — confessei em voz baixa, quase infantil.
— Eu sei, meu bem. É normal. Mas acredita na sua filha. Ela é uma guerreira. Lutou contra essa doença com uma coragem que poucos adultos teriam. Todos os médicos ficaram admirados com a força dela. Amanhã, com fé em Deus, vamos estar ouvindo sua risada de novo.
Vó Dulci era meu porto seguro. Sempre foi.
— Vem cá. — disse, abrindo os braços. — Chore. Derrame tudo. Você finge ser invencível na frente da sua filha, mas diante de mim, pode ser quem realmente é. Eu sou sua fortaleza. Pode desabar.
E eu desabei.
Deixei a xícara de lado e me joguei em seus braços. Chorei. Chorei como há muito tempo não fazia. Toda a tensão, o medo, a dor acumulada durante semanas, meses — talvez anos — veio à tona. Solucei, tremi, perdi o fôlego e me permiti ser frágil.
— Obrigada por sempre ficar do meu lado... — murmurei entre soluços.
Ela apenas me abraçou mais forte.
— Chora tudo, minha menina. Depois eu quero saber de qual banco você roubou pra conseguir esse dinheiro em tão pouco tempo.
Ela dizia isso com um sorriso no rosto e batidinhas leves nas minhas costas. Seu jeito de me fazer rir mesmo nos momentos mais difíceis.
— Bem... acho que arrumei um emprego. — murmurei, com um meio sorriso.
— Isso é ótimo. Mas ainda quero saber de onde veio tanto dinheiro de uma hora pra outra, Ariela. — seu olhar se tornou mais sério, ainda que carinhoso. — Não quero que você tome decisões equivocadas. Conheço bem o desespero. Já vi o que ele pode fazer com uma pessoa. Não quero que você siga os passos do seu pai...
Essas palavras sempre me faziam gelar por dentro. Nunca entendi completamente o que ela quis dizer com isso. Ela nunca falava abertamente sobre o passado dele, mas havia algo sombrio ali. Uma história não contada.
— Não se preocupe, vovó. O dinheiro veio de um amigo... — menti parcialmente. — Como eu não tinha como pagar de imediato, ele me ofereceu um trabalho como secretária em sua empresa. Meu salário vai abater a dívida aos poucos. Começo amanhã. A empresa é grande, com um prédio enorme. Um dia levo a senhora para conhecer.
— Hmmm... — ela me olhou com desconfiança, mas não insistiu. Apenas alisou meus cabelos.
O tempo voltou a se arrastar, como se os ponteiros do relógio estivessem pregados ao passado.
Então, uma médica se aproximou. Meu corpo imediatamente entrou em alerta.
— Boa noite. Você é a responsável por Cecília? —
Levantei num pulo. O coração batia com tanta força que parecia querer fugir do peito.
— Sim... sou eu. Como ela está? Alguma notícia?
A médica segurava uma prancheta contra o peito, o semblante era neutro, quase impassível. Aquilo me apavorava. Era impossível adivinhar se vinha boa ou má notícia. Minha respiração travou.
— A cirurgia está em andamento. Mas houve uma pequena complicação no início. Precisamos que você assine um documento autorizando o uso de um protocolo alternativo.
— Complicação? Como assim? O que aconteceu? — a voz falhou.
— A Cecília teve uma reação inesperada à anestesia. Conseguimos estabilizá-la a tempo, mas foi necessário tomar uma medida adicional. Agora ela está estável e seguimos com o procedimento. Viemos apenas garantir a autorização.
Agarrei a prancheta com mãos trêmulas. Assinei onde foi indicado.
— Por favor, faça o que for preciso. Salve minha filha.
A médica assentiu com um leve sorriso.
— Ela está em boas mãos. Voltaremos com mais notícias assim que possível.
E então, ela se afastou pelo mesmo corredor que tinha engolido minha filha horas antes.
Olhei para minha avó.
— Ela vai ficar bem, né?
— Vai sim, minha flor. Vai sim.
E naquele momento, tudo o que me restava... era acreditar.