“Às vezes não compreendo as minhas ações, acho que algumas delas lideram pela dor de não me sentir completa.”
Viviane Salvatore.
Eu termino de retocar meu batom vermelho e sorrio na frente do espelho para verificar se não há manchas nos meus dentes. Meu vestido é vermelho, o mesmo tom que meus lábios; meus saltos de dez centímetros são pretos, e acompanho a roupa com uma carteira da mesma cor que os sapatos. Eu pareço perfeita, como uma mulher de sucesso capaz de devorar o mundo.
Eu gostaria que fosse verdade.
Minha vida está longe de ser perfeita. Eu coloquei minhas mãos na minha barriga, desejando que houvesse vida crescendo nela, mas não é possível. Acho que nunca perdoarei a mãe por dar permissão ao médico para remover o meu útero. Eu preferiria falecer. Agora não posso dar um filho ao homem que amo, e não podemos ter herdeiros para nossas famílias. Casar com o Leonardo era a coisa certa a fazer, o que se esperava de nós. Crescemos juntos e somos bons amigos. Nós amamos reciprocamente? Sim, embora não romanticamente. Então, eu nunca me importei de que ele tivesse amantes.
Até ela chegar. Assim que Joyce me descreveu, eu sabia que seria um problema para o meu casamento. Leonardo geralmente olha para mulheres experientes, mas Helena veiga cheirava a inocência. Eu esperava que fosse uma coisa passageira, mas não foi, e quando eu a conheci, eu entendi por que ele se sentia assim. A mulher emite um ar de vulnerabilidade que tenta qualquer um. É uma pena que este estado a tenha trazido para as garras do meu marido.
Ficar grávida dele era a sua convicção e, ao mesmo tempo, a solução para os meus problemas. É como se minhas orações tivessem sido ouvidas, porque agora a oportunidade de ter um bebê é real. Não podemos nos dar ao luxo de adotar ou pagar uma barriga para alugar, já que seríamos a conversa das outras famílias em nosso círculo social. Então me ocorreu que, se eu terminar uma gravidez e pegar esse bebê, tudo será resolvido.
A primeira parte do plano já está em andamento. Eu entro de perfil e olho para minha falsa barriga no espelho; parece tão real que assusta e, ao mesmo tempo, alimenta minha ilusão. Agora que estou pronta, coloco um casaco comprido e, satisfeita com a minha aparência, saio do meu quarto. Eu vou direto para a saída, onde meu motorista espera com o carro pronto.
— Para onde o vou levar, Sr.ᵃ Viviane? — Pergunta ao condutor.
— Para o hospital central, por favor.
Todo o caminho, eu ensaio a cena que eu vou configurar para a amante do meu marido. Quando eu a humilhei, eu fiz isso com a intenção de torná-la mais manejável e acessível para mim. No entanto, Leonardo teve que arruiná-lo, atropelando-a, e agora eu devo corrigir seu erro.
— Chegamos — anuncia o homem mais velho.
— Obrigado. — Eu saio do veículo sem dizer mais nada; ele já sabe que deve esperar por mim.
Não demoro muito a descobrir em que quarto ele está. Ao chegar, eu me aproximo de sua porta, mas vejo um homem de pé na frente dela. Sua postura indica que ele está treinado. Como ela está morrendo de fome, pode pagar um guarda-costas? Sinto que ele não me deixa passar. Minha mente corre em overdrive à procura de uma distração, quando vejo uma jovem enfermeira vindo em minha direção. Espero que ela venha ao meu lado antes de embarcar nela.
— Gostaria de ganhar algo extra? — Pergunto, diretamente ao ponto.
— O que tenho de fazer? — Ela é tímida, mas a ambição brilha nos seus olhos.
— O que for preciso para você fazer com que aquele homem se mova de lá — eu aponto para o guarda-costas.
— O que vai fazer?
— Só quero falar com minha amiga, mas aquele homem não me deixa. Ela está com a saúde debilitada e quero dizer o quanto a amo… — Fingi um soluço.
— Ok.
Dou algumas notas que estão na minha carteira e observo-a quando ela regressa, de onde veio embarcar no guarda-costas da amante. Não sei o que diz, mas funciona. Assim que eles vão ao redor do final do corredor, eu entro para a sala. Helena está deitada na cama, olhando para a janela. Ela parece frágil, danificada e, no fundo, uma parte de mim sente arrependimento por ela.
— Você sobreviveu — quero dizer, quebrando o silêncio. Helena está assustada com o som da minha voz — E eu vejo que o seu bebê também.
— Senhora, Viviane Salvatore!
— Não quero ouvir as tuas desculpas, pelo contrário, vim pedir desculpa pelas minhas ações. Eu apontei como a única culpada, quando o meu marido foi o primeiro a desrespeitar-me. Lamento imenso — Pus um olhar de arrependimento que tenho a certeza de que acredita.
Sua ingenuidade trabalha a meu favor.
— Eu não sabia, senhora. Ele nunca falou de você.
— E é precisamente por isso que estou aqui. O Leonardo não devia ter brincado assim contigo. Ele não devia ter brincado com nenhum de nós — Eu movo o meu casaco para a minha barriga ficar visível.
— Também estou grávida.
— E o seu bebê está bem, o que é Helena? — Eu descubro, como alguém que não quer a coisa.
— Uma menina, e a senhora?
— O mesmo — digo com entusiasmo.
O que ela não sabe é que o bebê dela será meu.
— Oh, que coincidência.
— É. Eu sei que começamos com o pé errado e lamento imenso, fiquei entusiasmada com a frustração de não ser mulher o suficiente para o meu marido, o homem que amo — podia vomitar o quão dramático estou sendo. — Vou deixar o meu número de telefone, pode falar comigo caso precise de algo. Como você, eu sou uma nova mãe e isso me ajudaria a ter alguém para confiar em meus medos ou apenas para conversar sobre o que está acontecendo conosco.
— Mas… O marido dela foi infiel comigo, como digo isso a...
Sim, garota tola, eu sei. Eu evito virar os olhos em branco e, em vez disso, dar-lhe o sorriso mais gentil e compreensivo que eu posso colocar em meus lábios.
— E agora que a minha mente está clara, não te culpo, culpo-o. Infelizmente, eu não posso desistir; no entanto, isso não tem que afetar nossa amizade, se você me aceitar.
— Leonardo, ele… — Ela permanece em silêncio.
— Ele o quê?
— Nada, não importa. — Helena me alcança, e eu evito a exibição de desgosto que quer escapar de mim — Sem arrependimentos?
— Sem arrependimentos. —Eu respondo.
Espero que pensem o mesmo quando tirarem a criatura que cresce dentro dela. Com uma despedida e a promessa de estar em contato, saio da sala sem ser visto pelo guarda-costas. Entro no veículo e peço ao meu motorista para me levar de volta para a mansão.
Na chegada, meu marido está esperando por mim na entrada. Eu passo por ele com a intenção de evitá-lo, mas ele pega meu braço antes de eu subir as escadas.
— Vai continuar com esse plano maluco?
— Sim, e não é loucura, é brilhante. Embora não seja de admirar que sua pequena mente não possa vê-la assim.
Ele não aceita bem a minha zombaria, já que ele agarra meu braço e me puxa contra o peito. O aperto dele é forte, tenho a certeza que me deixa roxo.
— Não faça isso, não lhe cabe.
— Aqui entre nós, marido, eu sou o chefe desta relação. O que conseguimos foi graças a mim. Não te esqueça de que a tua família perdeu o dinheiro há muito tempo e o nosso casamento foi a solução.
Sua mandíbula se aperta furiosamente e ele me deixa ir como se isso o enojasse. Isso é apenas uma explosão, então a raiva passará e será como se nada tivesse acontecido.
— Está brincando com o fogo, Viviane.
— Não se envolva e não vai queimar. Deixa tudo nas minhas mãos, Leonardo.
Ele não gosta que eu tenha a última palavra, mas aprendeu a ser melhor assim. Eu viro as costas para ele e volto para o meu quarto. Eu me despir até que eu estou em minha roupa íntima, remover a barriga falsa e a sensação de vazio retorna para mim. Se eu pudesse ser mãe, se eu pudesse ser mãe sozinha, as coisas seriam diferentes. Eu ficaria feliz.
Se apenas..