"Queria que a paz invadisse o meu corpo para aliviar a dor inimaginável que sinto, a dor de saber que não havia nada que pudesse fazer para o salvar."
Bruno.
Na minha vida, eu me sentia tão desolado e desamparado como agora. Mas acho que o pior sentimento é o medo, tão amargo e invasivo que sinto que posso me afogar nele. Eu não estou familiarizado com esse sentimento, então levo alguns minutos para processá-lo antes de começar a atuar.
— Preciso de uma ambulância, uma mulher grávida foi atropelada, tenho medo de movê-la. — Dou ao operador o endereço e desligo quando confirmam que estão a caminho. Helena, não feche os olhos.
Ela fala algo que eu não entendo, eu falo com ela para mantê-la acordada, mas seus olhos começam a se fechar. Eu verifico seu pulso e percebo que bate, embora seja lento.
— Não se atreva a morrer, não pode fazer isto. — Exijo na esperança de que as minhas palavras funcionem, mas não vejo mudança.
A ambulância chega em poucos minutos, mas eles sentem que as horas se passaram.
— Como se chama? — Pergunta a um dos paramédicos.
— Helena Veiga, vinte anos, o tipo sanguíneo é O negativo e não tem alergias ou doenças. Ela está grávida de quatro meses e é uma menina. — Recito os dados que memorizei, posso continuar, mas acho que a informação é suficiente.
— Devemos levá-la imediatamente, ela está a perder muito sangue.
Eu tenho o desejo de ir com eles para ter certeza de que eles cuidam dela corretamente; no entanto, eu entro no meu caminhão porque posso precisar dele mais tarde. A jornada parece eterna para mim, o que me dá tempo para lembrar claramente o que aconteceu. Eu tenho uma ligeira suspeita de quem poderia tê-la atropelado e assim que eu me certificar de que ela está bem, eu darei sua perseguição.
Demorei todo o meu autocontrole para deixá-la há quatro meses, mas tive que fazer isso para encontrar a pessoa que me ajudaria a mantê-la segura. Eu tive que ir para Chicago, negociar com o proprietário do complexo e supervisionar o treinamento dos soldados até encontrar um que satisfizesse minhas exigências. Enquanto eu vou cuidar dela, haverá momentos em que terei que viajar e deixá-la desprotegida não é uma possibilidade. Da mesma forma, eu preciso de alguém que possa sujar as mãos. Eu mesmo faria isso, mas isso significaria me colocar na mira da justiça, eles me prenderiam e eu não poderia estar com ela. É um luxo que não posso pagar.
Após escolher seu guarda-costas, eu voei de volta e cheguei felizmente a tempo. Meu coração quase caiu do meu peito quando eu vi o que eu estava prestes a fazer, seu desespero era tão palpável que senti como meu. Sua desolação foi pior quando ela descobriu que está esperando um bebê do homem que a machucou, mesmo que ela não se lembre disso.
E quando eu pensei que não podia me sentir pior, ela saiu quando eu saí para pegar o protetor no aeroporto. Chegar e não a ver na cama quase me faz perder o controle, mas eu fiquei sã até que ela me chamou para procurá-la. Ela não disse, mas sei que ela se magoou outra vez.
E agora estou aqui, a entrar no hospital e a temer perdê-la. Ela não pode morrer, eu não vou permitir.
— Helena Veiga? — Pergunto à enfermeira sentada atrás do computador.
— Acabou de ser admitido, senhor. O médico está avaliando —responde, claramente intimidado pelo meu tom.
— Quero atualizações sobre o seu estado assim que tiver —Exijo.
— Senhor, a conhece? Receio que só possa dar a informação se a conhecer.
— Eu sou o marido dela! — Eu minto.
— Não está registrado na nossa base de dados.
— É recente, quer ver a certidão de casamento?
— Eu teria problemas se não ver, senhor.
— Vou buscar só um segundo.
Eu corro de volta para o meu carro, tiro o computador e hackeio o sistema hospitalar; eu também faço uma certidão de casamento falsa, mas incrível. Eu volto com o certificado no meu telefone e praticamente a jogo na mesa.
— E agora?
— Vamos informá-lo.
Sento em uma das cadeiras da sala de espera, coloco meus cotovelos nas pernas e seguro minha cabeça nas mãos, na esperança de que isso ajude a limpar minha mente e afastar pensamentos negativos. Eu não sei como fazer, eu nem sabia que eu podia sentir tanto, eu me sinto perdido e confuso. Eu só quero que ela abra os olhos verdes e sorria para mim.
— Onde está a minha filha?! — Ouço alguém gritar — Onde está?
— Onde está a minha irmã? — Exige conhecer outra.
Ao focar meu olhar neles, eu os identifico como parentes de Helena, os mesmos que a tratam m*l há algum tempo. Eu me levanto até a minha altura e avanço em direção a eles, seu pai recua um pouco quando ele me vê, eu assumo que meu rosto não expressa bondade; seu irmão, por outro lado, permanece em sua posição e até levanta o queixo para parecer intimidante. Ambos são uma piada, homens que não merecem o quão boa é a Helena.
— O que estão fazendo aqui? — Pergunto — Eles não têm o direito de ver a Helena.
— E quem é você para nos proibir de vê-la? Ela faz parte da nossa família, tu é um estranho.
— Eu sou o seu marido. Eu tenho o poder de não os deixar entrar. Vocês não eram para estarem aqui.
— Olha, eu não sei quem é, mas não tem direito de fazer isso — sinalizo a um dos guardas que apareceu quando viu o confronto e ele entendeu o meu pedido. Ele agarra o irmão bastardo pelo braço para tirá-lo — O que você faz? Deixa-me ir, ela é minha irmã, podemos vê-la.
— Eles terão que sair, eles não podem alterar a paz do hospital — diz o guarda.
Os dois homens continuam a refutar quando são removidos da ala de emergência, mas ninguém presta atenção. Eu passo na direção dos assentos, mas vejo um dos médicos sair e embarcar, esperando por notícias.
— Eu sou o marido de Helena Veiga, alguma notícia? — A palavra "marido" desliza muito facilmente para a minha língua, parece natural, verdade.
— Sou o Dr. Bernardo, estou a tratar do caso da sua mulher. Tenho notícias para te dar, quer se sentar?
— Não, está tudo bem.
— Tudo bem. — O médico afasta-se e exorta-me a segui-lo — A paciente chegou com múltiplas fraturas, lacerações e contusões. Apesar de sua condição, conseguimos estabilizá-la o suficiente para levá-la à cirurgia, vamos reparar a fratura de sua perna e braço direito. Conforme o relatório, ela foi atropelada por um carro, mas nenhuma costela foi fraturada, o que manteve seu tronco quase intacto. O bebê está bem por enquanto, mas deve superar o estresse da cirurgia.
Enquanto suas palavras escapam de sua boca, acho que deveria ter me sentado porque meus joelhos ameaçam ceder. Como você está respirando?
— Gostaríamos de dizer que temos um bom prognóstico; no entanto, estamos preocupados com a lesão cerebral traumática, uma vez que não saberemos como ela se recuperará. Vamos induzir o coma até que o inchaço diminua e seja seguro acordá-la.
Eu abro a boca para falar, mesmo assim, nenhuma palavra sai. O que devo dizer? O que é feito nesses casos? Eu não sou um homem religioso, devo orar?
— Quero atualizações regulares —procura.
— Você vai tê-los, Sr. Bruno, tente se acalmar e peça a Deus um milagre.
O médico sai e, em poucos minutos, eles levam Helena para fora em uma maca. Ela parece tão delicada, frágil, que eu tenho medo de tocá-la. Eles me permitem alguns segundos com ela e aproveito a oportunidade para agarrar suavemente a mão dela, coloco minha boca perto de sua orelha e sussurro:
— Tem muito para viver, uma vida para desfrutar, rir e ser feliz. Tem aqui alguém, Helena, seja forte e corajosa pela tua filha, por mim.
Com um beijo na bochecha, eu vou embora para que eles possam levá-la à cirurgia. Em vez de ficar ali parado na porta esperando ela voltar, eu vou para a sala de espera na área de operações e caio em uma das cadeiras vazias. Eu fecho meus olhos e me concentro nas palavras que quero alcançar quem dirige o destino.
I... Não sei como fazer isto, por isso vou falar da sinceridade do meu coração. Não posso perdê-la, recuso-me a deixá-la ir agora que ela entrou na minha vida. Minha mente está confusa sobre sentimentos, mas acho que o amor se sente assim. Acabei de a conhecer? Sim, mas isso não os torna menos verdadeiros. Parece minha, e mesmo que eu não tenha conseguido protegê-la, é um erro que não vou repetir. Por isso, por favor, peço-te que não me tire isso, nem a deixe perder a tua filha, mesmo que seja daquele homem mau. Ela sofreu muito e sei que posso fazê-la feliz, dar-nos a oportunidade, senhor.
Eu não sei se minha oração é ouvida pela primeira vez, então eu repito uma e outra vez, eu oro para que ela não seja tirada de mim, eu oro para que ela saia da cirurgia sã e salva e possa se recuperar completamente. Porque assim que tiver a certeza de que ela está fora de perigo, vou caçar o bastardo e fazê-lo sofrer tanto que ele deseja estar morto. Tenho muitos conhecimentos e conhecidos importantes que irão me ajudar a acabar com a vida desse homem que tentou acabar com a dela.
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Pessoas especiais também podem amar de verdade. E é lindo o jeito que Bruno mesmo sendo Austista conhece o amor e irá fazer de tudo para fazer Helena feliz.