18: Regresso a Casa: O Fogo Encontra o Gelo

1132 Palavras
(Avião de carga Corleone, voando de Odessa para a Sicília. Madrugada.) Eu não conseguia relaxar, mesmo estando no ar. O avião de carga era frio e barulhento, mas o barulho lá fora era menos ensurdecedor que o da minha cabeça. Tínhamos conseguido fugir de Odessa, e a Serafiny ativou o Protocolo Ares: sinais falsos, rastros apagados, o circo armado para enganar os mercenários com o pendrive isca. Agora, estávamos no meio do nada, a caminho da Sicília, e o cartão de ópera do Sebastian queimava na minha mão. "Onde o Fogo Encontra o Gelo." Essa era a mansão de verão da família, um lugar velho, cheio de história e, claro, segredos. Era onde meu pai se refugiava quando queria pensar, o único lugar onde o Capo Corleone baixava a guarda. Sebastian me mandou pra lá. Por quê? Serafiny estava sentada na minha frente, na cabine improvisada, revisando o relatório tático do ataque em Odessa. Ela parecia uma estátua, impecável. "Os mercenários levaram o segundo pendrive?" perguntei, quebrando o silêncio que pesava. "Levaram. E, nesse momento, a equipe de hackers deles deve estar se batendo com o vírus de rastreio que você colocou. Isso nos compra, no mínimo, doze horas antes que eles percebam a pegadinha." Ela não usou a palavra "isca", usou "pegadinha," o que soou estranhamente informal pra ela. "Doze horas não é muito. A Pessoa Que Sabe Mais não é burra," eu retruquei. "O EMP e a equipe de elite? Não é um erro tático. Foi de propósito. Ela queria que a gente soubesse que tinha alguém muito grande por trás disso, pra nos apavorar, pra nos fazer sentir pequenos." "É uma estratégia de intimidação. Normal em jogos de alto nível," Serafiny concordou, sem tirar os olhos do tablet. "Mas o que não é normal é o Sebastian. Ele não queria que a gente ficasse em Odessa, queria que a gente voltasse pra casa." Eu segurei o cartão de ópera. "Acha que é uma armadilha pra eu voltar e assumir o Trono? Pra me expor?" "Ele não pode querer que você volte. Ele te incriminou como traidora. O que ele está fazendo é um jogo psicológico. Ele quer que você pense que ele está te guiando para a salvação da Alice, mas pode estar te guiando para a sua execução," ela disse, as palavras saindo sem emoção, como se estivesse lendo um manual. Eu me inclinei pra frente. "Você acha que ele me traiu de verdade, Serafiny? Depois de tudo?" Ela finalmente me olhou. O azul dos olhos dela era de um frio que eu nunca entendi. "Não se trata do que eu acho. Trata-se do que a lógica diz. Ele é o único com acesso total, o único que poderia roubar as chaves do Capo, o único que fugiu no momento exato. Se ele te ama, ele é e******o. Se ele não te ama, ele é o traidor. Nos dois casos, o resultado é o mesmo: você está em risco." A maneira como ela colocava a emoção de lado me irritava, mas também me dava uma base firme. "Você não confia nele, nunca confiou," eu constatei. "Confiança é uma ilusão, Íris. Eu confio em fatos. E o fato é que o Sebastian é o Isco Vivo. Ele tá na mira do nosso inimigo, e no topo da nossa lista de alvos," ela declarou. "O Fogo Encontra o Gelo é um lugar cheio de alçapões, túneis de fuga e tradições antigas. Se ele estiver lá, é porque quer ser encontrado. Ou quer morrer." Eu me recostei, sentindo o avião vibrar. A Mansão Fogo Encontra o Gelo. Eu tinha passado verões lá. Eu conhecia o lugar de cor. E era verdade: era um labirinto, um bunker de luxo. "E você, Serafiny? Você não tem medo de voltar pra lá?" perguntei, levantando a minha suspeita. "Se A Pessoa Que Sabe Mais é esse cérebro superpoderoso, ele sabe que a Mansão é o nosso ponto cego. Ele sabe que a gente conhece o lugar. Não é burrice nos mandar pra lá?" Ela não desviou o olhar. Era a hora de tirá-la do sério. "Não é burrice, é armadilha. E você faz parte da armadilha," ela disse, a voz no mesmo tom neutro. "Você tá perguntando se eu sou a Sombra que serve A Pessoa Que Sabe Mais, não é?" O meu estômago gelou. Ela me pegou. "Eu tô perguntando por que você é a única pessoa que eu conheço que não demonstra nem um pingo de lealdade emocional a ninguém, nem ao Capo, nem à família, nem a mim. Você só segue a regra. E só uma pessoa que se desligou totalmente da emoção conseguiria orquestrar o que tá acontecendo," eu disparei. Serafiny sorriu, mas não foi um sorriso de alegria, foi um sorriso de cobra. "Eu sou a Executora, Íris. Eu fui treinada pra isso. O Capo me ensinou: emoção é um luxo que a gente não pode ter. E, se você quer sobreviver e governar, você tem que ser igual a mim," ela disse, e o sorriso desapareceu. "Se eu fosse a Sombra, o cérebro por trás de tudo, eu não te mandaria pra Sicília. Eu te mataria aqui, nesse avião, e ficaria com o Arsénico, o Código, e o Trono." Ela fez uma pausa, os olhos fixos nos meus. "O fato de a gente estar juntas aqui, voltando pra armadilha, é a única prova de que eu não sou A Pessoa Que Sabe Mais. Eu sou o escudo. Agora, se liga: a Mansão é um bunker, mas a segurança em volta é uma piada. Precisamos de um plano de infiltração que não pareça invasão. Você tem que entrar como a herdeira, não como a fugitiva." Eu respirei fundo. Ela tinha razão. De novo. O argumento dela era lógico e, por mais que eu odiasse, fazia sentido. Se ela fosse a inimiga, eu já estaria morta. "Eu conheço os túneis de serviço. E o caminho pro bunker de emergência," eu disse, voltando ao modo tático. "Se o Sebastian deixou uma pista, ele deixou onde a Alice pode estar, ou onde o Capo escondeu algo ainda mais importante que o Arsénico." "O que poderia ser mais importante que a chave do Leste Europeu?" "A chave do nosso verdadeiro cofre, o cofre que só ele e eu conhecíamos. Aquele que guarda os segredos que nem a Máfia Corleone pode usar," eu revelei. "Se for esse, a Pessoa Que Sabe Mais quer tudo. E é lá que a gente vai achar o Sebastian." "Ótimo. O Fogo Encontra o Gelo é onde a Executora vai caçar o Isco Vivo, e onde você vai encarar A Pessoa Que Sabe Mais. Esteja pronta," Serafiny finalizou, voltando a olhar para o seu tablet, o nosso diálogo encerrado. A próxima conversa seria na Mansão.
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