– Wei Ying, Wei Ying!
Wei Wuxian acordou sendo sacudido. Demorou um pouco pros seus olhos e se acostumarem com a pouca luz, mas quando o incômodo passou, ele percebeu que estava em volta de um par de braços fortes em vestes brancas, olhou pra cima enxergando dois olhos dourados e brilhantes além de uma faixa intocada.
– Wei Ying! – Aquela voz grave e aveludada fez um arrepio passar por todo o seu corpo o que o fez se agarrar ainda mais forte no alfa.
– Senti sua falta. – Mas é aquela história, o que é bom dura pouco, em um estalo na sua cabeça em um pulo ele se levantou do colo do mais velho com os olhos arregalados. – O que você está fazendo aqui?! Você precisa ir embora agora!
Rapidamente ele ajudou o alfa a se levantar e começou a empurrá-lo em direção à saída.
– Se seu irmão ou seu tio aparecem aqui vai causar muitos problemas, vai embora, por favor! – Em movimento rápido o ômega teve sua cintura enlaçada pelo alfa que o trouxe para perto do seu corpo.
– Vamos embora juntos, pra longe daqui, só nós dois, vamos casar, cultivar, ter filhos, vamos viver juntos. – Algumas poucas lágrimas escorreram pelo rosto bonito do mais novo que só pôde encostar a cabeça no ombro do alfa enquanto tinha seus cabelos afagados.
– Vai embora… Você vai ter problemas. – Seu corpo foi bruscamente afastado do corpo do outro homem que lhe olhava magoado.
– Você não escutou nada que eu lhe disse?!
– Isso não é vida Lan Zhan! – Carinhosamente Wei Wuxian pegou o rosto de Wangji o fazendo olhar em seus olhos. – Se formos embora agora nós vamos passar o resto das nossas vidas fugindo, nunca teremos paz! E se formos pegos? Você também seria morto, e eu jamais me perdoaria se você morresse por minha causa. Nosso filho seria escorraçado por que jamais aceitariam um descendente de dois "traidores", poderosos e duvidosos demais para continuarem vivos! Eu quero ter uma família com você, pelos deuses como eu quero, é meu maior sonho! Mas se o preço disso for sua vida eu prefiro ser eternamente castigado.
– Wei Ying...
– Er-gege você é tão inteligente, a pessoa mais inteligente que eu já conheci, sabe que eu tenho razão. – Seus braços desceram pra cintura do alfa em um abraço apertado que logo foi retribuído, seu rosto se enfiou no pescoço do alfa aspirando seu cheiro que era algo como... mel? No segundo seguinte o ômega empurrou o homem pra longe de si, seu corpo tremia dos pés à cabeça e seus olhos, agora arregalados, voltaram a marejar. – Quem é você?!
– Sou eu, Lan Zhan.
– Meu alfa cheira a sândalo! – Um sorriso aberto se fez presente no rosto de alfa assim como um olhar amoroso. – Xichen?! Mas...
– Precisava saber se podia confiar em você. Sua maior fraqueza é meu irmão, precisava saber se iria cumprir sua parte do acordo, se você iria fugir no momento que ele lhe propusesse a isso. Mas agiu bem, você foi sensato, eu aprecio isso.
– Eu amo Wangji, eu daria minha vida por ele se fosse necessário.
– Eu realmente espero que vocês fiquem juntos. – Aquilo surpreendeu Wuxian, eles eram completos opostos, Wangji era o anjo caído na terra, personificação da beleza, um mortal que facilmente poderia ser confundido com um deus, já ele era o demônio m*l-amado sem família, odiado por todos que causa desgraça por onde anda. Mais algumas lágrimas escorreram, sem palavras o Patriarca se ajoelhou aos pés do líder com a testa encostada no chão.
– Faça o justo... acabe com o sofrimento dele.
Aquilo foi o suficiente para o Xichen sair daquela caverna sem trocar mais nenhuma palavra com Wei Wuxian, eram almas que nem depois da morte pararam de procurar uma à outra, ele podia sentir, mesmo a distância, a intensidade do amor dos dois, se nem treze anos separados pelo luto sem qualquer tipo de resposta pôde aplacar aquele sentimento, o que poderia? Não importa, ele não queria saber, era sua missão de vida conceder a felicidade dos dois, ele se responsabilizaria pelos estragos futuros se fosse necessário, suportaria os castigos, eram muitos anos de cultivo, mas seu irmão encontraria a felicidade, mesmo que fosse aos braços de um patriarca sem face.
A notícia do retorno de Wei Wuxian havia corrido que nem as águas na cachoeira, em menos de duas semanas todas as seitas já estavam cientes e uma semana todos os líderes estavam em GusuLan para o julgamento. O salão principal estava com mais de dez líderes sentados em volta de Wei Ying discutindo as acusações.
– Foram mais de três mil homens mortos, como vocês querem compensar essas perdas? Se o deixarmos solto, que garantia temos de que ele não nos dará problemas novamente? Tudo por causa de uma escória!
– Eram inocentes! Vocês mataram todos, sem um pingo de piedade, vocês não pouparam ninguém! – Um sorriso presunçoso apareceu no rosto de Jiang Cheng.
– Por acaso esse "ninguém" tem nome? Talvez alguma alfa da seita Wen tivesse virado a sua cabeça? – Indagou vendo o rosto de Wei Wuxian se contorcer numa careta.
As memórias do cerco vieram com tudo em sua mente, as lágrimas escorregaram pelo rosto e suas mãos tremiam do ódio que sentia, ele queria sua flauta nesse exato momento para acabar com todos ali, mas não podia, tinha que sair ileso dali, por isso apenas respirou fundo e repetiu a mesma frase que vinha repetindo todo esse tempo.
– Eles eram inocentes. – Havia uma dor no seu coração, uma dor irreparável que desde que voltou a vida não lhe deixava em paz, algo que talvez não superasse nunca.
– Eles eram criminosos! Todos culpados! Eles mereciam morrer! Todos eles! Sem exceção! – Os olhos de Wei Wuxian ficaram vermelhos de repente, aquilo era um péssimo sinal, seu ômega havia tomado conta do corpo, seu lobo havia se feito presente, e seu lobo era extremamente protetor.
– Até mesmo o meu filho?! – Um silêncio se fez presente, ninguém ousava falar nada, até por que ninguém sabia que o Patriarca Yiling havia tido um filho, uma corrente de energia havia passado pela coluna de cada um ali, calmamente ele se levantou e caminhou até a mesa do seu ex-irmão que tinha o rosto branco feito papel. – Olhe nos meus olhos e diga que meu filho é um criminoso se você tem coragem.
– Isso é mentira! Você nunca teve filhos! – Nessa hora ele já chorava de raiva, mas seu ômega ainda estava presente e de certa forma intimidando todos ali.
– Wei Yuan, alfa, três anos na época, pele branca e cabelos escuros, se agarrava na perna da primeira pessoa que via na frente e amava borboletas, impossível confundir! – Foi a vez do rosto de Lan QiRen ficar branco, na hora ele olhou pros sobrinhos com um olhar feroz, gesto esse que não passou despercebido por ninguém.
– GusuLan parece saber alguma coisa, por que não compartilham o que sabe? – Xichen olhou para o irmão com um olhar de quem diz: "Faça o que é certo", isso foi o suficiente pra Lan Zhan levantar e cochichar algo pra um dos juniores que, mesmo contra as regras, saiu correndo do salão e minutos depois voltou, mas dessa vez acompanhado.
O jovem alfa que entrou usava as mesmas roupas que os outros de discípulos com uma diferença, em vez de usar uma fita na testa normal, a dele tinha desenhos de nuvem, fita usada apenas pelo clã Lan.
– Líderes. – O adolescente se curvou em direção aos mais velhos e logo depois se curvou em direção às Jades. – Tio, pai.
Mais silêncio, todos sabiam que o Hanguang-Jun tinha um filho, mas ninguém sabia com quem e muito menos tinham visto o rosto com exceção do líder Jin e do líder Nie, e que coincidência, ele batia exatamente com as características do filho do Wei, era uma situação extremamente constrangedora.
– Conte o que sabe a seu respeito. – O jovem ostentou uma feição confusa, mas sob o olhar duro do pai obedeceu.
– Meu nome é Lan Yuan, tenho 16 anos, e sou filho adotivo do Hanguang-Jun, fui adotado aos três anos de idade e não tenho memórias da minha infância, não sei quem são meus pais, não sei de onde eu venho, não sei de absolutamente nada. – Os olhares se dirigiram ao Segundo Mestre em busca de uma explicação mais consistente.
– Eu o encontrei depois do cerco, escondido em um tronco de árvore com febre e com fome, a febre foi alta o suficiente para apagar as memórias da infância, eu o trouxe comigo e o renomeei de Lan Yuan. Há uns meses antes do cerco eu me encontrei com Wei Ying em Yiling, foi a primeira vez que eu vi meu filho, depois de salvar os Wen, Wuxian o adotou, mas não importa se é adotivo ou não, com memória ou não, um filho sempre reconhece a mãe.
Os olhos do Patriarca voltaram à cor normal e caíram sobre o menino que o olhava com os lumes arregalados intercalando entre ele e o pai, parecia não acreditar no que havia ouvido. Em passos curtos o jovem se aproximou do ômega e com o máximo de cautela o cheirou, o perfume das flores de lótus apertou todos os botões necessários para destrancar a mente do pobre menino, alfas não deveriam chorar, mas isso já estava fora de questão há muito tempo, as lágrimas desceram em enxurradas e não foi necessário mais nada para que ambos os corpos estivessem grudados em um abraço forte.
O menino chorava silencioso, mas Wuxian soluçava, mas ele era um ômega, era mais sensível, ele abraçava o jovem, beijava os cabelos, o cheirava, fazia tudo, menos soltá-lo. Os líderes estavam atônitos, exceto Xichen que desde o início já sabia da verdade, ele sempre soube, havia sentido o cheiro do Patriarca nas vestes do menino assim que chegou.
– Você está vivo. – Ele repetia aquilo como se fosse um mantra, as memórias dele desesperado escondendo o filho dentro da árvore pedindo pra ele sair apenas quando voltasse ainda estava viva, viva até demais.
– Estou, graças ao senhor e ao meu pai. Eu vou cuidar de você agora, da mesma forma que cuidou de mim, não se preocupe. – Carinhosamente ele limpou as lágrimas do mais velho que o olhava encantado. – Você é meu mamã, não importam o que digam.
– Então o Jovem Mestre Lan Sizhui é filho de Wei Wuxian? Então se é assim então... O Patriarca Yiling e o Hanguang-Jun têm um filho?
– Exatamente. – Outro silêncio. Lan QiRen parecia que iria pegar fogo a qualquer momento, ele amava Lan Sizhui, mas vê-lo nos braços daquele homem que ele considerava a encarnação do m*l estava lhe matando, por um momento ele cogitou em quebrar a própria regra e matar dentro do Recanto das Nuvens.
– Isso não interfere em nada na questão. Wei Wuxian por que voltou?! – O ômega se desgrudou do filho que entendeu que não era o momento apropriado e se pôs ao lado de Wangji.
– Mo XuanYu me ofereceu esse corpo para que eu me vingasse em seu lugar.
– Por quem meu irmão procurava vingança?
– Eu não sei, quando acordei eu tinha três cortes no braço, eu supus que ele buscava vingança da senhora Mo e de seu filho, após o incidente na mansão dois cortes cicatrizaram e só me resta um.
– Você não sabe de quem é o último corte?
– Ele não me deu detalhes de absolutamente nada, quando acordei sequer sabia onde estava.
– E o que pretende fazer depois de cumprir sua missão?
– Pretendo cultivar da maneira correta e quem sabe construir uma família mais pra frente. – Aquelas simples palavras fizeram o coração do Segundo Mestre se aquecer, como ele queria que aquilo fosse real, foi por causa disso que discretamente lançou um olhar ao irmão num pedido mudo.
– Wei Wuxian acredito em suas palavras, mas espero que compreenda que por causa do seu passado iremos precisar de uma garantia de que não irá voltar ao caminho demoníaco novamente.
– O que o senhor sugere, Irmão Xichen?
– Wei Wuxian é perito em fantasmas e em tudo que envolve a energia ressentida, será um desperdício de conhecimento tremendo se ele morrer, por isso eu sugiro que ele volte ao mundo do cultivo e se associe a alguma seita, de preferência umas das Quatro Grandes Seitas em que existe melhor segurança e melhores condições de fiscalizá-lo. – Jin Guangyao mudou levemente a postura interessado na ideia.
– Eu concordo com sua colocação Xichen, mas Wei Wuxian, por conta dos seus antecedentes moralmente duvidosos, acredito que não pode me culpar por não o aceitar em minha seita.
– Eu entendo. – Os olhos se voltaram para Nie Huaisang, que nervoso apenas balançou a cabeça.
– Eu não sei, eu realmente não sei. – Jiang Cheng tinha uma expressão de ódio no rosto, o Zidian há tempos soltava faíscas, seus olhos estavam injetados e seus feromônios estavam presentes acalorando os ânimos dos alfas e intimidando os ômegas.
– Ele saiu de YunmengJiang para nunca mais voltar! Se pôr os pés lá novamente, ele morre! – As atenções agora estavam em GusuLan, Lan QiRen realmente esperava que o sobrinho voltasse a razão e impedisse aquela loucura.
– Wangji, você conhece o Patriarca melhor que eu, por acaso tem alguma coisa a dizer?
– O Recanto das Nuvens é cheio de regras, isso irá ajudar a contê-lo. – O tom gélido dele entrou nos ouvidos do ômega que teve que segurar um riso, ele sabia que aquilo era encenação. – Eu mesmo irei supervisionar e aplicar as punições.
– Eu confio nas palavras do meu irmão, a partir de hoje Wei Wuxian, o Patriarca Yiling é um discípulo do Recanto das Nuvens.
– Ainda não decidimos a punição. – O Sandu Shengshou soltou um riso macabro olhando para o ômega com os olhos esbanjando loucura. – Eu sugiro um ano de Cio em Cárcere.
– O que?! Não! – Os olhos de Wei Ying se arregalaram e seu corpo começou a tremer de nervoso, o coração de Lan Zhan pesou fortemente, mesmo tendo que esperar a palavra de seu irmão ele não pôde deixar de interferir.
– Sandu Shengshou, o senhor sabe o que é Cio em Cárcere? – Sua voz saiu calma, mas afiada como gelo, aquela era uma punição severa demais com sequelas muitas vezes irremediáveis.
– Evidente que sim.
– Wei Ying é um ômega, seu corpo atual é muito mais frágil que o seu anterior, passar um ano de cio preso sem um alfa ou qualquer tipo de alívio vai exigir muito do seu corpo e do seu núcleo, pode inclusive ser impedido de ter filhos. – Apesar das suas feições e do seu tom de voz serem as mesmas de sempre seu coração estava a mil, ele não conseguia imaginar o seu homem passando por uma situação daquelas, estava tão entorpecido em seu pensamentos que sequer notou seu filho dar um passo à frente e se ajoelhar diante dos líderes.
– Meu pai sempre me ensinou a retribuir a aqueles que nos fizeram o bem, eu tenho uma dívida eterna com meu mamã, por isso ofereço dois anos do meu Cio em Cárcere em seu lugar. – O assombro tomou conta do salão, Wei Ying abraçou o filho impedindo que ele continuasse.
– Eu cometi os erros e eu vou pagá-los! Você não me deve absolutamente nada e não é justo que pague em meu lugar.
– Ele está certo. – A voz amena de carinhosa de Jin Guangyao tomou o ambiente. – Você demonstrou Piedade Filial e isso é uma grande virtude, o Hanguang-Jun lhe ensinou muito bem.
– Sizhui. – O menino levantou o rosto olhando para os olhos tristes do pai que apenas fez um sinal o chamando para perto de si, mesmo a contragosto o jovem se levantou se afastando da mãe e indo para o lado dele.
– Então estamos de acordo, Xichen? O Patriarca será seu discípulo e passará um ano de Cio em Cárcere? – Os olhos do líder viajaram pelo rosto do irmão até chegar aos de Jiang Cheng, logo desceu até os do ômega que engoliu o choro. "Pelo menos eles estarão juntos", foi o que pensou antes de soltar um suspiro triste e acenar com a cabeça levemente.
– Sim, é o justo.