Você não vai embora

593 Palavras
O quarto ficou em silêncio depois das palavras de Ailme. A única coisa que se ouvia era a respiração tranquila do pequeno Romã dormindo na cama. Ela permanecia sentada, com as mãos juntas no colo, esperando alguma reação. Mas Brandão apenas a observava. O olhar dele estava sério. Profundo. Pensativo. Alguns segundos se passaram. Então ela voltou a falar, com cuidado: — Eu não quero causar nenhum problema aqui… senhor. Brandão finalmente se levantou da poltrona. Caminhou alguns passos pelo quarto. Depois parou perto da janela. A chuva ainda batia no vidro. Ele ficou olhando para fora por um momento. Pensando. Quando falou novamente, sua voz era baixa… mas firme. — Você disse que pretende voltar para a rua amanhã. Ailme abaixou os olhos. — Não tenho outro lugar. Ele virou o rosto na direção dela. — E pretende levar essa criança de volta para aquela cabana? Ela ficou em silêncio. Porque a resposta era óbvia. Sim. Era exatamente isso que ela faria. — Eu vou dar um jeito… — disse ela por fim. Brandão soltou um pequeno suspiro. Então caminhou até a cama. Olhou para o menino dormindo. Romã estava abraçado na mantinha, com o rosto tranquilo pela primeira vez em muito tempo. — Ele passou fome. Não foi uma pergunta. Foi uma constatação. Ailme não respondeu. Mas o silêncio dela disse tudo. Brandão ficou alguns segundos olhando para a criança. Algo dentro dele se apertou. Então voltou o olhar para Ailme. — Você não vai embora amanhã. Ela levantou a cabeça imediatamente. — Senhor… eu não posso ficar aqui. — Pode. A resposta veio rápida. Direta. Ela balançou a cabeça. — Eu não quero abusar da sua generosidade. Ele a interrompeu. — Não é generosidade. Ela franziu levemente a testa. — Então o que é? Brandão ficou em silêncio por um momento. Como se pensasse na resposta. Mas no fundo… ele mesmo não sabia explicar direito. Talvez fosse a semelhança. Talvez fosse a injustiça da história dela. Talvez fosse simplesmente o menino dormindo ali. Por fim ele disse: — É uma decisão minha. Ailme ainda parecia hesitante. — Mas eu… Ele a interrompeu novamente. — Você pode ficar aqui até organizar sua vida. A voz dele continuava calma. Mas havia autoridade nela. — Ninguém nesta casa vai questionar isso. Ela ficou em silêncio. Sem saber o que dizer. — Você e o menino precisam de estabilidade. Ele olhou novamente para Romã. — Principalmente ele. Ailme sentiu os olhos se encherem de lágrimas outra vez. — Eu não sei como agradecer… Brandão balançou a cabeça levemente. — Não precisa. Ela respirou fundo. Ainda parecia incrédula. — O senhor é muito bom… Ele soltou uma pequena risada sem humor. — Não. Ailme o olhou confusa. Brandão caminhou até a porta. Antes de sair, parou por um segundo. E disse algo que a deixou intrigada. — Eu não sou um homem bom. Então abriu a porta. Mas antes de sair completamente, voltou a olhar para ela. O olhar dele demorou alguns segundos em seu rosto. E ele pensou novamente aquilo que vinha martelando sua mente desde a estrada. É igual… Muito igual. Mas dessa vez ele não disse nada. Apenas saiu do quarto. Deixando Ailme ali… Sentada ao lado do filho. Tentando entender por que o homem mais frio que ela já tinha visto decidiu ajudá-los. Sem saber que, do lado de fora do quarto… Brandão estava parado no corredor. Com um único pensamento girando em sua mente. Ele precisava descobrir por que aquela mulher parecia tanto com a esposa que ele havia perdido.
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