Isadora encarava o pai com os olhos arregalados, o coração martelando no peito como se fosse explodir. Aquela frase ainda pairava no ar como uma sentença sem volta:
— Você vai se casar com Leonardo Alcântara.
Ela deu um passo para trás, a respiração curta, como se o ar tivesse se transformado em vidro quebrado em seus pulmões.
— Você só pode estar brincando — murmurou, a voz trêmula. — Isso é uma piada de mau gosto, pai. Muito, muito mau gosto.
O pai desviou o olhar, envergonhado, como se não suportasse encará-la. A mãe, sentada ao lado, mantinha as mãos entrelaçadas, o rosto pálido como giz.
— Não é brincadeira, filha — respondeu ele, finalmente. — É uma oportunidade. Uma chance de mudar de vida. Para todos nós.
— Para todos nós? — Ela deu uma risada amarga. — Vocês venderam a própria filha como se eu fosse... como se eu fosse um bem negociável!
— Não fala assim! — a mãe implorou, com lágrimas nos olhos. — A gente só quer o seu bem!
— O meu bem? — Isadora levantou as mãos, exasperada. — O meu bem seria liberdade! Seria poder estudar, viver, escolher com quem casar! Vocês acham que o meu bem é ser jogada na cama de um desconhecido só porque ele pagou bem?
O pai bateu a mão na mesa com força, como se tentasse recuperar o controle da conversa.
— Ele não vai te tocar! — esbravejou. — Ele não quer uma esposa de verdade, quer só cumprir uma cláusula do testamento. Vocês vão fingir estar casados por um ano, e depois ele te dará liberdade. Ele prometeu.
— E você acredita? — Ela cruzou os braços, furiosa. — Um homem que compra uma mulher pra se casar já mostra o tipo de caráter que tem.
— É um contrato — o pai explicou, tentando ser racional. — Um contrato vantajoso. Você não terá que fazer nada além de manter as aparências. Ele vai pagar bem. E... e nós precisamos desse dinheiro, filha. Estamos à beira da falência.
Isadora sentiu a dor atravessá-la como uma lâmina fina e fria. Então era isso. Dinheiro. A raiz de tudo. O motivo pelo qual seus sonhos estavam sendo arrancados com crueldade.
— Eu não sou moeda de troca — murmurou, com os olhos marejados.
— Você é nossa única salvação — o pai sussurrou, sem encará-la.
Leonardo Alcântara girava lentamente o copo de uísque na mão enquanto observava a cidade do alto de sua cobertura luxuosa. As luzes abaixo cintilavam, distantes, e mesmo em meio ao luxo, havia um vazio constante em seu peito.
Ele odiava essa condição imposta por seu falecido pai.
“Só herdará a holding se estiver legalmente casado até completar trinta anos.”
Ridículo. Arcaico. E c***l.
Leonardo odiava obrigações. Odiava a palavra “sentimentos”. Para ele, casamento era apenas papel — um empecilho que seu velho pai achava necessário para garantir a estabilidade da empresa familiar.
E agora, estava prestes a assinar seu nome em um contrato de casamento com uma mulher que nunca viu.
— O que estou fazendo? — resmungou, sozinho.
Mas ele sabia exatamente o que estava fazendo: protegendo o império que construiu com esforço, estratégia e frieza. Se para isso precisasse se casar com a filha de seu velho amigo de infância, que fosse. Seria temporário. Um teatro.
Seu celular vibrou.
Mensagem de Augusto Leme
"Ela vai aceitar. Dou minha palavra."
Leonardo digitou seco:
"Espero que sim. Cumpro minha parte assim que o contrato estiver assinado."
Horas depois, Isadora estava sentada na varanda, o olhar perdido no horizonte, tentando assimilar. Seu pai havia deixado os papéis do contrato sobre a mesa. Tudo perfeitamente descrito: as condições, o prazo, o valor, as obrigações.
Um casamento de fachada.
Nada de toque, nada de sentimentos, apenas aparências públicas.
E, ao final de um ano, um valor milionário seria depositado em nome dela — uma quantia suficiente para ela desaparecer e recomeçar em qualquer parte do mundo. Poderia pagar a universidade, comprar um apartamento, sumir daquela vida.
Mas o preço era alto. Sua dignidade. Seu corpo como vitrine. Seu nome atado a um homem frio e desconhecido.
Ela passou os dedos pelos termos do contrato, sentindo um calafrio subir pela espinha. Havia até cláusulas de confidencialidade, proibição de envolvimento com terceiros, regras sobre entrevistas e eventos.
Era como assinar sua alma.
Mas então pensou em sua mãe doente, no irmão mais novo que ainda dependia da família, nas contas vencidas. O egoísmo travou uma batalha interna feroz com a compaixão.
— Que tipo de filha eu sou se abandonar todos eles agora?
Foi até a cozinha. O pai a observava de longe, calado, envergonhado, destruído por dentro.
— Eu tenho uma condição — disse ela, firme.
— Qualquer uma — respondeu ele, com pressa, esperança nos olhos.
— Eu quero conhecê-lo. Nem que seja por cinco minutos. Antes de assinar.
Isadora se viu, pela primeira vez, diante da sede da Alcântara Global. Um prédio de vidro com mais de cinquenta andares, tão imponente quanto o próprio homem que a esperava no último andar.
Seu coração disparava. Suas mãos suavam. Estava prestes a conhecer o homem com quem supostamente viveria um ano inteiro fingindo ser esposa.
Subiu de elevador com um misto de medo e raiva. A porta se abriu com um bip suave.
E então ela o viu.
Alto. Másculo. De terno impecável. Mandíbulas marcadas. Olhos frios como gelo. Era bonito. Extremamente bonito. Mas não sorria. Nem um traço de simpatia. Era como uma escultura feita de arrogância.
Leonardo levantou os olhos de um documento e a observou como quem avalia uma joia em leilão.
— Então você é a escolhida?
A forma como ele disse isso fez o estômago de Isadora virar.
— Não sou um item de catálogo — rebateu. — Só vim porque quero deixar algo claro.
Ele arqueou uma sobrancelha, curioso.
— Que eu não sou sua. Nem agora, nem nunca. Aceitei por obrigação, não por submissão. Se acha que pode me comprar, vai se decepcionar.
Leonardo se levantou. Caminhou lentamente até ela, com aquele olhar impassível e perigoso. Parou a poucos centímetros, sentindo a respiração dela acelerar.
— Ótimo — disse ele. — Porque eu também não quero você. E quanto menos nos tocarmos, melhor. Mas saiba disso, Isadora Leme: nesse jogo, a única coisa que importa... é manter as aparências. Você está pronta para fingir ser minha esposa?
Ela sustentou o olhar.
— Sim. Mas você vai ter que fingir ser meu marido também. E não sou fácil de fingir que amo.
— Ainda bem — ele sorriu, pela primeira vez. Um sorriso cínico. — Porque amor... nunca fez parte do contrato.
O contrato repousava sobre a mesa de vidro como uma sentença. Isadora encarava as folhas brancas repletas de cláusulas frias e impessoais. Havia um vazio estranho no ar. Não era silêncio... era um tipo de ausência — de sentimentos, de conexão, de qualquer traço de humanidade.
Leonardo permanecia de pé, ao lado da janela, observando a cidade como se estivesse entediado com tudo aquilo. Sua pose era impecável, assim como seu terno escuro e sua expressão controlada. Ele era bonito, sim, mas sua beleza tinha algo de c***l, como uma lâmina afiada que cortava sem deixar marcas visíveis.
— Pode ler tudo com calma, se quiser — disse ele, finalmente, com uma voz tão fria quanto sua presença.
— Já li — respondeu Isadora, sem tirar os olhos do papel. — Várias vezes. Meus pais ficaram entusiasmados demais pra me deixar esquecer uma linha sequer.
Leonardo se virou, caminhando até ela com passos lentos, calculados. Sentou-se à frente dela, cruzando as mãos sobre a mesa.
— E está pronta para assinar?
Ela o encarou. Odiava aquele olhar dele. Era como se a atravessasse, como se a reduzisse a um número, uma cláusula, uma obrigação.
— Estou pronta para cumprir a minha parte. Mas quero deixar algo claro de novo — disse ela, firme. — Você pode ser o homem mais poderoso dessa cidade, Leonardo, mas eu não sou sua posse. Não sou uma funcionária. Nem uma boneca pra desfilar ao seu lado.
Ele inclinou levemente a cabeça, avaliando-a com interesse.
— Você sempre foi tão rebelde ou só com os homens que te compram?
A pergunta foi uma faca. Isadora sentiu o sangue ferver.
— Eu não fui comprada. Eu fui sacrificada.
Leonardo sorriu. Um sorriso pequeno, cínico, e carregado de uma ironia amarga.
— Bom, o sacrifício vai te render uma boa conta bancária. E, com sorte, uma bela liberdade ao final de tudo.
Isadora respirou fundo. Sabia que discutir com ele era como tentar quebrar pedra com palavras.
Pegou a caneta. Assinou. Cada letra do seu nome tremia como se estivesse escrevendo sua própria prisão.
Leonardo, sem cerimônia, pegou o contrato e assinou também. Uma assinatura rápida, firme. Era apenas mais um negócio para ele.
— Está feito — disse ele. — A partir de amanhã, você será a Sra. Alcântara. E o mundo inteiro vai acreditar que somos um casal perfeito.
— O mundo pode acreditar — respondeu ela, levantando-se — mas eu nunca vou esquecer que isso é uma mentira.
Antes que ele pudesse responder, ela já estava na porta.
— Seu motorista pode me deixar em casa. Já cumpri minha parte.
E saiu sem olhar para trás.
No dia seguinte, os jornais estamparam:
“Leonardo Alcântara se casa em segredo com jovem desconhecida!”
“Nova Sra. Alcântara: quem é a misteriosa mulher que conquistou o CEO mais cobiçado do país?”
“Casamento surpresa movimenta os bastidores da elite!”
Isadora observava as manchetes com incredulidade. As fotos foram tiradas na porta do cartório — onde eles haviam assinado a certidão de casamento na presença de dois advogados e sem uma única palavra afetuosa entre eles.
Ela usava um vestido branco simples. Leonardo, seu terno de sempre. Nenhum beijo. Nenhum abraço. Nenhum anel trocado.
Era oficial. Legal. E absurdamente vazio.
A primeira semana foi um desafio. Eles m*l se viam. Quando precisavam aparecer em eventos, trocavam sorrisos falsos, toques encenados e frases ensaiadas. A imprensa os chamava de casal perfeito. Mas nos bastidores, o gelo era absoluto.
Leonardo se dedicava ao trabalho com obsessão. Saía cedo, voltava tarde. E quando estava em casa, m*l dirigia palavras a ela.
Isadora, por outro lado, passava os dias tentando manter a mente ocupada. Começou a estudar francês pela internet. Lia livros. Corria na esteira da academia do prédio. Tentava ignorar os olhares curiosos dos vizinhos e as perguntas dos funcionários.
Mas o que mais a incomodava era a presença dele.
A forma como ele andava. A maneira como cheirava. Como se vestia. Como olhava para ela nos eventos. Era como se estivesse sempre a analisando, desafiando-a a falhar no teatro que montaram.
Até que, numa noite, depois de um jantar beneficente cheio de jornalistas e sorrisos falsos, Leonardo encostou-a contra a parede da sala com um gesto brusco.
— Qual é o seu jogo, Isadora?
Ela engoliu em seco.
— Que jogo?
— Você me olha como se me odiasse, mas quando estamos em público, seus olhos dizem outra coisa.
— Eu apenas cumpro o que foi combinado — disse ela, firme. — Você queria aparência de casamento? Estou entregando exatamente isso. Nada mais.
Leonardo se aproximou, tão perto que ela podia sentir o perfume amadeirado que ele usava.
— Cuidado com o que entrega, Isadora. Às vezes, a mentira se torna verdade... e o jogo, perigoso.
Ela o empurrou com força.
— Eu não tenho medo de você, Leonardo.
Ele sorriu. Um sorriso diferente, quase... intrigado.
— Vai aprender que talvez devesse.
E saiu do cômodo como se nada tivesse acontecido.
Isadora permaneceu ali, com o coração batendo como um tambor.
Talvez ele tivesse razão.
Esse contrato, essa fachada... estava começando a mexer com ela mais do que deveria.