Ajuda de onde menos se espera

882 Palavras
Laura ficou parada por alguns segundos depois que Guilherme disse aquela frase. “Olha o que o destino me trouxe de volta.” O coração dela deu um pequeno salto — não de amor, mas de surpresa, a última vez que tinham se visto, meses atrás, ele havia prometido que a encontraria novamente. Mas o tempo passou… e muita coisa mudou. Laura respirou fundo, recuperando a postura firme que vinha carregando desde que saiu de Massachusetts. — Pelo visto o destino gosta de brincar com a gente — respondeu ela, mantendo o tom profissional. Guilherme sorriu, mas percebeu na hora: aquela não era mais a mesma Laura. A menina doce, que sorria fácil, tinha desaparecido. Na frente dele estava uma mulher diferente. Mais séria. Mais distante. Mais forte. Ele puxou a cadeira para ela. — Sentes-se, temos muito trabalho pela frente. Laura assentiu e abriu a pasta com os documentos da empresa. A reunião seguiu de forma profissional, números, contratos, metas, Guilherme explicava tudo com calma, e Laura absorvia cada detalhe com uma atenção impressionante. No final da reunião, ele cruzou os braços e a observou por alguns segundos. — Você mudou. Laura levantou os olhos lentamente. — Pessoas mudam. — Não tanto assim. Ela fechou a pasta. — A vida ensina. Guilherme percebeu que havia mais ali, mas não pressionou. — Bom… — ele se levantou — já que agora você é oficialmente a nova dona disso tudo, acho que vou ter que te mostrar como as coisas funcionam por aqui. — Então vamos trabalhar. Nos dias que seguiram, Guilherme se tornou praticamente a sombra de Laura na empresa. Ele apresentava setores, explicava funcionários, mostrava relatórios. Laura se mostrou uma líder extremamente eficiente. Fria. Direta. Sem paciência para erros. Os funcionários começaram a perceber rapidamente que a nova chefe não era alguém fácil de lidar. Mas também não era injusta. Enquanto isso, fora da empresa, Laura ainda precisava montar o apartamento. E foi Guilherme quem acabou ajudando. — Você vai precisar de móveis — ele disse um dia, encostado na mesa dela. — Ou pretende dormir no chão? Laura suspirou. — Ainda não tive tempo para isso. — Então vamos resolver hoje. — Guilherme, eu ...— — Sem discussão, eu conheço bons lugares. Ela pensou por alguns segundos… e acabou concordando. Naquela tarde os dois foram a várias lojas. Sofá. Mesa. Camas. Armários. Laura escolhia tudo de forma prática, quase militar. — Esse, esse também, não preciso de nada muito extravagante. Guilherme começou a rir. — Você está montando um bunker ou um apartamento? Ela levantou uma sobrancelha. — Segurança é prioridade. — Três quartos para segurança? Laura ficou em silêncio por um segundo. — Um para minha mãe. — E o outro? Ela desviou o olhar. — Reserva. Ele não insistiu. Depois das compras, os dois foram almoçar. Era a terceira vez naquela semana. Sentados em um restaurante simples perto da empresa, Guilherme observava Laura enquanto ela mexia distraída no copo de água. — Posso te perguntar uma coisa? — Depende. — Eu realmente achei que nunca mais ia te ver. Ela ergueu os olhos. — Por quê? — Porque eu esperei. Laura franziu levemente a testa. — Esperei meses — ele continuou. — Voltei naquele lugar várias vezes. O silêncio caiu entre os dois. — Achei que você fosse aparecer de novo. Laura respirou fundo. Algo dentro dela apertou. — A vida mudou de direção. — Eu percebi. Ele apoiou os cotovelos na mesa. — Você desapareceu. Laura ficou alguns segundos olhando para ele. E então tomou uma decisão. — Guilherme… eu preciso te contar uma coisa. Ele ficou imediatamente atento. — Estou grávida. O silêncio que se seguiu foi tão grande que parecia que o restaurante inteiro tinha parado. Guilherme piscou. Uma vez. Duas. — Você… o quê? — Estou grávida. Ele passou a mão no rosto, completamente desorientado. — Eu… não… eu não estava esperando isso. — Nem eu. Ele ficou alguns segundos tentando organizar os pensamentos. Então respirou fundo. — O pai está por perto? Laura endureceu imediatamente. — Não. — Ele sabe? — Não. Guilherme observou o rosto dela. Ali havia dor. Mas também algo muito mais forte. Determinação. Ele então se recostou na cadeira. — Certo. Laura franziu a testa. — Certo? — Certo. — Só isso? — Só isso. Ele deu de ombros. — Você é forte, vai dar conta. Ela ficou surpresa com a reação tranquila. — Guilherme… Ele interrompeu. — Escuta bem. Os olhos dele estavam sérios agora. — Eu esperei meses para te encontrar de novo. Ela ficou imóvel. — Então não vai ser uma gravidez que vai me fazer desaparecer. Laura permaneceu em silêncio. — Eu não sei o que você precisa — ele continuou. — amigo, ajuda, só alguém para ouvir. Ele se inclinou um pouco para frente. — Mas eu estou aqui. Laura o encarou por alguns segundos. A antiga Laura teria chorado. A nova Laura apenas assentiu. — Obrigada. Ele sorriu de leve. — Agora me diz uma coisa. — O quê? — Esse terceiro quarto… Laura respirou fundo. E colocou a mão discretamente sobre a barriga. — Vai ser do bebê. Guilherme passou a mão no cabelo. Ainda tentando processar tudo. Mas uma coisa ele já tinha decidido. Não iria embora. Não dessa vez.
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