Fogo na Água

1300 Palavras
Laura acordou com o sol atravessando a cortina branca do quarto. A cabeça latejava levemente, mas não era nada comparado à lembrança da noite anterior. Henrique. O olhar dele. O ciúme. Ela sorriu sozinha. Descobrir que mexer com o ego dele era tão fácil tinha sido quase… divertido. Ela levantou, abriu a mala e tirou o biquíni preto que havia levado sem saber exatamente se teria coragem de usar. O tecido era simples, mas o corte valorizava cada curva. No espelho do banheiro, ela prendeu o cabelo em um coque alto e se analisou. Não era insegurança dessa vez. Era intenção. Desceu as escadas sentindo o piso frio sob os pés descalços. A casa ainda estava acordando. Algumas garrafas vazias espalhadas pela área externa eram prova do excesso da noite anterior. Henrique estava sentado na beira da piscina, camisa branca aberta no peito, óculos escuros escondendo metade da expressão. Ele levantou o rosto quando ouviu os passos. E parou. Laura caminhou sem pressa até a borda da piscina. — Bom dia — disse, casual. Ele demorou dois segundos para responder. — Bom dia. Os olhos dele desceram pelo corpo dela sem disfarçar. Ela percebeu. E sorriu. Sem aviso, Laura mergulhou. A água estava gelada, fazendo seu corpo arrepiar. Quando voltou à superfície, jogou o cabelo para trás e soltou uma risada leve. Alguns dos garotos que ainda estavam na casa apareceram na varanda ao ouvir o barulho. — A piscina já está liberada? — um deles gritou. — Sempre esteve — Laura respondeu, nadando para o centro. Em poucos minutos, mais três entraram na água. Risadas, respingos, comentários. Henrique continuava sentado. Observando. Laura brincava como se não houvesse peso algum na noite anterior. Um dos garotos espirrou água nela, e ela revidou. Outro a puxou pelo braço numa tentativa de afundá-la de leve. Ela estava solta. Livre. Provocadora. Exatamente como ele sabia que ela podia ser. — Cuidado, Laura — um dos meninos disse rindo quando ela quase escorregou na borda. — Eu sei nadar. — Quero ver então. Ele a puxou pela cintura, e ela deixou. Henrique se levantou. A tensão no corpo dele era visível mesmo à distância. Laura percebeu. E continuou. O mesmo garoto que a segurava pela cintura a ergueu no colo, entrando mais fundo na piscina enquanto ela gargalhava, braços apoiados nos ombros dele. Foi o suficiente. Henrique tirou a camisa de uma vez, jogando-a na cadeira ao lado. E pulou na piscina. A água se abriu com força quando ele mergulhou. Em poucos segundos estava diante deles. — Pode soltar. A voz dele saiu baixa. Controlada. O garoto hesitou. — Relaxa, cara, é só brincadeira. Henrique não sorriu. — Eu falei pra soltar. Laura sentiu a mudança no ar. O garoto a colocou de volta na água. Mas Henrique já estava ali, segurando o braço dela. Não com brutalidade. Mas com firmeza suficiente para deixar claro que não era pedido. — Vem comigo. — Henrique — ela começou, meio rindo, meio surpresa. Ele não respondeu. Apenas a puxou até a parte mais afastada da piscina, perto das pedras que delimitavam o jardim. — Você está louco? — ela sussurrou, ainda molhada, cabelo grudando na pele. — Eu? — ele soltou uma risada curta. — Você sabe exatamente o que está fazendo. — Estou nadando. — Você estava no colo dele. — E daí? O maxilar dele travou. — Você acha que isso é engraçado? Laura cruzou os braços, ainda dentro da água. — Eu achei que você não estava acostumado a dividir. Ele deu um passo mais perto. — Não provoca. — Ou o quê? A pergunta saiu desafiadora. Ele passou a mão pelo cabelo molhado, respirando fundo. — Você quer me testar desde ontem. — E você cai sempre. Silêncio. Os sons da piscina continuavam ao fundo, mas ali parecia outro cenário. Mais fechado. Mais íntimo. Henrique segurou o rosto dela de repente. Não forte. Mas decidido. — Você não faz ideia do que isso faz comigo. A voz dele não era mais raiva. Era outra coisa. Algo mais cru. Laura sentiu o coração acelerar. — Então fala. — Eu não gosto de ver outro cara encostando em você. — Você não manda em mim. — Eu sei. Ele se aproximou mais um centímetro. — E é exatamente isso que me deixa louco. O ar entre eles parecia quente demais para uma piscina. Laura engoliu seco. — Você não me tem, Henrique. Ele inclinou o rosto, tão perto que a respiração dele tocava a boca dela. — Talvez eu queira ter. O mundo ao redor desapareceu. Não era mais sobre os outros. Não era sobre ego. Era sobre tensão acumulada demais. — Eu não sou coisa sua — ela repetiu, mas a voz saiu mais fraca. — Eu sei. Ele deslizou o polegar pela linha do queixo dela. Devagar. — Mas para de fingir que você não gosta quando eu fico assim. Ela poderia negar. Mas não negou. Porque gostava. Gostava da intensidade. Gostava de ser desejada daquele jeito. — Você é impossível — ela murmurou. — E você é provocação pura. Laura respirou fundo. — Então faz alguma coisa. A frase saiu antes que ela pudesse filtrar. Henrique não esperou mais. Ele a puxou pela cintura, colando o corpo molhado dela ao dele. E beijou. Não foi suave. Não foi cuidadoso. Foi quente. Urgente. Como se cada discussão tivesse se acumulado naquele momento. Os dedos dele apertaram a cintura dela com firmeza. Laura levou as mãos até o pescoço dele, sentindo o calor da pele mesmo com a água fria ao redor. O beijo era intenso, profundo, carregado de desejo contido. Ela sentiu o mundo girar — não de álcool, mas de adrenalina pura. Henrique a encostou levemente na borda de pedra da piscina, protegendo-a com o próprio corpo enquanto continuava o beijo. Não havia mais provocação. Não havia plateia. Só dois orgulhosos finalmente admitindo que a tensão entre eles não era jogo. Quando ele finalmente se afastou alguns centímetros, ambos estavam ofegantes. A testa dele encostada na dela. — Você vai me matar ainda — ele sussurrou. Ela abriu um sorriso lento. — Você gosta do perigo. — Não quando envolve você. O coração dela deu um salto estranho. Diferente da diversão. Diferente do ego. Algo mais profundo. Ela deslizou a mão pelo peito dele, ainda sentindo o ritmo acelerado do coração. — Então aprende a confiar. Ele segurou a mão dela. — Aprende a não me provocar. Ela mordeu o lábio inferior de leve. — Não prometo. Henrique soltou uma risada baixa, ainda respirando pesado. — Você é insuportável. — E você é ciumento. — Só com o que importa. Silêncio. A frase ficou entre eles. Mais forte do que o beijo. Laura desviou o olhar primeiro, sentindo algo diferente se formar no peito. Não era mais só diversão. Não era mais só adrenalina. Era perigo emocional. Do tipo que deixa marca. Lá do outro lado da piscina, Tereza observava de braços cruzados, um pequeno sorriso no canto da boca. Ela sabia. Sabia que aquilo tinha passado da fase de jogo. Laura voltou a encarar Henrique. — Se você fizer cena na frente de todo mundo de novo, eu juro que danço com ele outra vez. Henrique aproximou o rosto novamente, dessa vez mais calmo. — Se você fizer isso, eu beijo você na frente de todo mundo. Ela arqueou a sobrancelha. — Promessa? Ele sorriu de lado. — Ameaça. E antes que ela pudesse responder, ele mergulhou de volta para o centro da piscina, deixando-a ali, apoiada na borda, tentando controlar a própria respiração. A água ainda estava fria. Mas o corpo dela não. E pela primeira vez, Laura percebeu que brincar com o ego de Henrique era fácil. Difícil seria não se apaixonar por ele enquanto fazia isso.
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