Intercâmbio

1130 Palavras
Laura segurava o celular nas mãos fazia quase cinco minutos. A mensagem da diretora ainda aberta na tela: “Preciso da sua confirmação oficial até hoje às 14h.” Ela já havia decidido. Mas dizer em voz alta tornava tudo real. Respirou fundo e discou. — Tereza? Você está em casa? — Estou, Por quê? — a voz veio desconfiada do outro lado. — Posso passar aí? É importante. — Laura, você está me assustando igual fez com o Henrique. Ela riu nervosamente. — Prometo que é coisa boa. Tereza abriu a porta ainda de pijama, cabelo preso de qualquer jeito. — Se você me tirou da cama por causa de uma coisa mínima, eu juro— Laura a interrompeu. — Eu vou para os Estados Unidos. Silêncio. — O quê? — Eu ganhei a bolsa de intercâmbio do colégio, e eu vou aceitar. Tereza piscou algumas vezes. — Você está falando sério? Laura assentiu. — Oficialmente, eu confirmo hoje na escola. Tereza levou as mãos à boca. — Laura… isso é gigante! Ela puxou a amiga para um abraço forte, quase derrubando as duas contra a parede da entrada. — Você vai estudar lá? Um ano inteiro? — Um ano. — Meu Deus, a Gabriela vai ter um infarto. Laura soltou uma risada sincera. — Isso não é a melhor parte. Tereza cruzou os braços, desconfiada. — Então qual é? Laura sentou no sofá, finalmente permitindo que a realidade a alcançasse. — A cidade da instituição parceira fica em Massachusetts. Tereza arregalou os olhos lentamente. — Massachusetts… Laura… — É. — Não. — É. — Você está me dizendo que eu vou ficar na mesma cidade que o Henrique. Tereza começou a andar pela sala como se precisasse descarregar energia física. — Isso não pode ser coincidência. — Não é coincidência, é parceria institucional, a escola sempre teve vínculo com universidades da região. — E você vai estudar perto da faculdade dele? Laura sorriu de leve. — Sim. Tereza parou abruptamente. — Isso é roteiro de filme. Laura riu. — Eu não estou indo por ele. — Eu sei — Tereza respondeu, mais séria agora. — E é isso que torna tudo mais perfeito. Às 13h45, Laura estava diante da porta da diretoria. Bateu duas vezes. — Entre — disse a voz firme de Viviane Duarte. A diretora ergueu os olhos quando Laura entrou. — Veio me dar sua resposta? Laura manteve a postura ereta. — Sim, diretora. Silêncio breve. — Eu aceito a bolsa. Viviane ficou imóvel por meio segundo. Depois o sorriso surgiu — amplo, genuíno, quase orgulhoso. — Eu sabia. Ela levantou-se imediatamente, contornando a mesa. — Laura, você não faz ideia do que isso representa para a escola. — Eu tenho uma pequena noção — Laura respondeu, sorrindo. — Não, você não tem. — Viviane estava visivelmente eufórica agora. — Seu desempenho foi excecional, sua história de superação, sua liderança nos projetos sociais, o fundo educacional que você criou… Isso eleva o nome do colégio internacionalmente. Laura absorveu aquilo em silêncio. — Podemos anunciar hoje? — perguntou a diretora. Laura respirou fundo. — Podemos. No último horário do dia, o sistema de som da escola foi ativado. Os alunos começaram a cochichar automaticamente. Henrique estava encostado no armário quando o nome dela ecoou pelo corredor. — É com grande orgulho que anunciamos que a aluna Laura Sarkozy foi a vencedora da bolsa anual de intercâmbio para os Estados Unidos… As palavras se espalharam como faísca. — …após desempenho acadêmico exemplar e avaliação internacional… Gabriela, do outro lado do corredor, ficou imóvel. Laura sentiu dezenas de olhares sobre ela. Mas dessa vez não eram cochichos maldosos. Eram admiração. E inveja. Henrique atravessou o corredor sem hesitar, ignorando completamente o burburinho ao redor. — Você confirmou — ele disse, sorrindo. — Confirmei. Ele a puxou para um abraço no meio do corredor, sob os olhares atentos de todos. Gabriela virou o rosto. Laura percebeu. Mas não sentiu prazer em vê-la incomodada. Sentiu algo melhor. Indiferença. Mais tarde, sentados na arquibancada da quadra vazia, Henrique abriu o notebook. — A coordenadora da universidade me mandou detalhes da minha matrícula final. Laura inclinou-se ao lado dele. — E? Ele rolou a tela devagar. — Harvard. Ela já sabia. Mas ouvir o nome novamente ainda tinha peso. — Eu recebi hoje os dados completos da instituição parceira da sua escola — ele continuou. Laura sentiu o coração acelerar. — E? Henrique virou o notebook levemente na direção dela. O nome estava ali. Programa de intercâmbio acadêmico — parceria educacional com Harvard University. Laura levou a mão à boca. — Eu vou estagiar lá? Henrique assentiu. — Pelo que entendi, o programa inclui estágio supervisionado dentro da própria universidade, área administrativa e jurídica, você vai acompanhar projetos, pesquisas, talvez até aulas abertas. Ela ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo. — Eu vou fazer estágio em Harvard. — Vai. — Na faculdade que você vai cursar Direito. — Exatamente na mesma. Laura começou a rir, incrédula. — Isso é surreal. Henrique fechou o notebook. — Não é coincidência, Laura, você ganhou por mérito. Ela o encarou. — Você tem noção do que isso significa para mim? Para as empresas? Para tudo o que eu quero construir? Ele assentiu. — Experiência internacional real, networking, visão global. Ela respirou fundo. — E ainda assim… eu não fui por você. Henrique sorriu de lado. — Eu sei. Ela segurou a mão dele. — Eu escolhi isso por mim. — E é por isso que funciona. O silêncio entre eles era diferente agora. Não havia mais contagem regressiva dolorosa. Havia planejamento. — A gente não vai estar grudado — Henrique disse. — Não. — Eu vou ter aulas, provas, rotina pesada. — Eu também. — Talvez a gente só se veja nos finais de semana. Laura inclinou a cabeça. — Como qualquer casal normal. Ele riu. — Finalmente. Ela apoiou o queixo no ombro dele. — Você acha que estamos prontos para isso? Henrique ficou sério. — A gente já enfrentou coisa muito pior do que distância de alguns quilômetros dentro do mesmo estado. Laura sorriu. — Verdade. Do outro lado da quadra, Gabriela passava com duas amigas, lançando um olhar atravessado. Laura não desviou. Não precisou. Ela não estava mais competindo. Estava avançando. — Harvard — Henrique repetiu, quase como se testasse o som da palavra. — Harvard — ela ecoou. Não era apenas uma universidade. Era símbolo. De crescimento. De ambição. De futuro. Henrique beijou a testa dela com delicadeza. — Eu não poderia estar mais orgulhoso. Laura fechou os olhos por um instante. Há meses atrás, ela reagia ao mundo. Agora, o mundo reagia a ela. E, pela primeira vez, o anúncio de seu nome nos alto-falantes não trouxe medo. Trouxe horizonte.
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