Hospital São Gabriel.
Fim de tarde.
O corredor estava silencioso demais para uma terça-feira.
Sônia Almeida tirava as luvas com mãos firmes, mas o peito estava pesado desde a noite anterior, Laura tinha acordado assustada, chamando pelo pai.
De novo.
Ela caminhava em direção à sala dos médicos quando viu o terno escuro parado perto da recepção.
Impecável.
Imponente.
Indesejado.
O Senador Villar não esperava, ele invadia.
Sônia parou a dois metros dele.
— O que o senhor está fazendo aqui?
Ele abriu um sorriso diplomático, daqueles treinados para campanhas.
— Precisamos conversar.
— Eu não tenho nada para conversar com o senhor.
Ele olhou ao redor.
— Não no corredor.
Ela sabia que qualquer cena ali poderia custar seu emprego.
Respirou fundo.
— Cinco minutos.
Entraram em uma sala vazia de plantão.
Assim que a porta fechou, o sorriso dele desapareceu.
— Seu genro quase causou um escândalo público.
— Meu genro? — Sônia riu, sem humor. — O seu filho tentou sequestrar a minha filha.
O maxilar dele travou.
— Cuidado com as palavras.
— Eu escolho muito bem as palavras, senador, diferente do senhor.
Silêncio.
O ar ficou pesado.
Clara cruzou os braços.
— O senhor já tirou tudo da minha família, agora quer tirar minha filha também?
Ele não respondeu imediatamente.
— Eu não tirei nada de vocês.
Ela deu um passo à frente.
— Não? Vamos relembrar então.
Os olhos dela não tremiam.
— Marcelo tinha sociedade com o senhor, investimentos, projetos de tecnologia limpa, patrimônio declarado, empresas sólidas.
Ele permaneceu imóvel.
— Depois que ele morreu… — a voz dela vacilou só por um segundo. — nossas contas foram bloqueadas, investigações surgiram do nada, acusações fiscais, processos que nunca existiram antes.
— Seu marido fez escolhas erradas.
A resposta foi seca.
— Não ouse.
A sala pareceu menor.
— Marcelo nunca faria nada ilegal.
O senador inclinou a cabeça levemente.
— Confiança é uma coisa curiosa, dona Sônia, ás vezes a gente só descobre a verdade quando é tarde demais.
Ela entendeu o recado implícito.
— O senhor armou aquilo.
Ele sorriu de lado.
— Cuidado.
— O senhor precisava de um culpado, e meu marido estava no caminho.
A respiração dela acelerava, mas a postura continuava firme.
— Nós éramos ricos, senador, minha filha cresceu em uma casa que hoje pertence a outra família, eu vendi joias para pagar advogado. Trabalhei dobrado para manter aquela menina estudando na mesma escola que os filhos da elite que nos viraram as costas.
Ele deu um passo mais perto.
— Está insinuando que eu destruí sua família?
— Estou afirmando.
O silêncio que se seguiu era mais perigoso que qualquer grito.
— Seu filho vai ficar longe da minha filha — Sônia disse, clara e firme. — Ou eu vou denunciar tudo o que eu sei.
Ele riu baixo.
— Denunciar o quê, exatamente?
Ela hesitou por meio segundo.
E ele percebeu.
— A senhora não tem provas.
— Ainda.
Ele estreitou os olhos.
— Acha mesmo que alguém vai acreditar em uma enfermeira viúva contra um senador da República?
Ela sustentou o olhar.
— A opinião pública gosta de histórias de injustiça.
Ele se inclinou levemente.
— A opinião pública gosta do que eu mando ela gostar.
A ameaça estava ali, direta.
— Se sua filha continuar próxima da minha família… acidentes acontecem.
O sangue de Sônia gelou.
— Está me ameaçando?
Ele arrumou o paletó.
— Estou aconselhando.
Ela sentiu a fúria subir como febre.
— Se alguma coisa acontecer com a Laura…
Ele interrompeu:
— Se alguma coisa acontecer com o meu filho por causa de acusações irresponsáveis… eu garanto que sua licença será a menor das suas preocupações.
A porta se abriu abruptamente.
Uma enfermeira colocou a cabeça para dentro.
— A senhora é necessária na emergência.
Sônia não desviou os olhos dele.
— Isso não acabou.
O senador ajeitou o relógio.
— Para mim, já acabou há muitos anos.
Ele saiu da sala com a tranquilidade de quem nunca perde.
Sônia ficou ali, respirando fundo, tentando manter as mãos firmes.
Ele tinha razão sobre uma coisa.
Ela não tinha provas.
Mas tinha memória.
E memória pode ser mais perigosa que documentos.
Do lado de fora do hospital, o senador entrou no carro oficial.
O motorista aguardava instruções.
Ele pegou o celular.
— Monitore a família Almeida com mais cuidado.
Desligou.
Enquanto o carro se afastava, ele murmurou para si mesmo:
— Erros do passado não podem voltar à superfície.
No colégio, Laura ria de algo que Tereza dizia.
Henrique observava as duas de longe, ainda com a voz do pai ecoando na cabeça:
“Seu sogro não morreu como você pensa.”
Ele não conseguia tirar aquela frase da mente.
Agora, longe dali, Eduardo estava a caminho do Brasil.
E não era apenas para proteger o filho.
Era para reabrir um caso enterrado há anos.
Porque se Marcelo Almeida não foi apenas uma vítima…
Então alguém construiu um império sobre a ruína dele.
E impérios, quando começam a rachar…
Desmoronam de dentro para fora.