A manhã estava fria em Massachusetts.
Henrique caminhava pelo campus ainda com o celular na mão, a conversa com o pai tinha sido curta, direta, como quase todas as conversas entre eles.
Eduardo havia confirmado a viagem que Henrique precisava fazer para resolver algumas questões da empresa da família durante alguns dias, algo rápido, algo que ele poderia resolver e voltar.
Mas, enquanto caminhava de volta para o dormitório, havia uma sensação estranha dentro dele.
Um peso.
A última conversa com Laura não tinha terminado bem.
Na verdade, não tinha terminado de forma alguma.
Eles haviam brigado, mais uma vez.
As palavras tinham sido duras, orgulho dos dois lados, silêncio depois.
Henrique lembrava perfeitamente do momento em que ela saiu do domitório dele dias antes, os olhos cheios de lágrimas que ela se recusava a deixar cair na frente dele.
Desde então, não tinham se procurado.
Nenhuma mensagem.
Nenhuma ligação.
Nenhuma tentativa.
E isso não parecia certo.
Laura nunca ficava tanto tempo em silêncio.
Henrique parou no meio do caminho e respirou fundo.
Talvez ela ainda estivesse brava.
Talvez precisasse de espaço.
Talvez…
Ele balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos.
Pegou o celular.
Nenhuma mensagem nova.
Suspirou.
Decidiu que antes de qualquer viagem, precisava falar com ela, já que não havia resposta no dia anterior.
Resolver aquilo.
Ele mudou de direção e seguiu para o apartamento de Laura.
O prédio ficava a algumas quadras do campus, em uma rua tranquila, cheia de árvores que começavam a perder as folhas com a chegada do outono.
Henrique conhecia aquele caminho de cor.
Quantas vezes havia dormido ali?
Quantas vezes acordara com Laura enrolada nele, reclamando que ele ocupava espaço demais na cama?
Um sorriso pequeno escapou dele ao lembrar.
Mas o sorriso desapareceu quando chegou em frente ao prédio.
Algo estava estranho.
A janela do apartamento estava fechada.
As luzes apagadas.
Nada fora do normal… mas ainda assim havia algo errado.
Ele subiu as escadas rapidamente.
Parou diante da porta.
Bateu duas vezes.
— Laura?
Silêncio.
Ele bateu novamente, mais forte.
— Laura, abre aí.
Nada.
Henrique franziu a testa.
Pegou o celular e ligou.
Chamou.
Chamou.
Caiu na caixa postal.
Ele respirou fundo, tentando não imaginar coisas.
Talvez ela estivesse na escola.
Ou no estágio.
Ou…
Ele tentou a maçaneta.
A porta abriu.
Devagar.
Um frio percorreu a espinha dele.
Ele entrou.
— Laura?
O silêncio dentro do apartamento parecia pesado.
Muito pesado.
Henrique caminhou lentamente pela sala.
E então percebeu.
Algo estava errado.
Muito errado.
A mesa onde Laura costumava deixar os livros estava vazia.
O sofá tinha apenas uma almofada.
A estante estava praticamente limpa.
Henrique sentiu o coração acelerar.
— Laura?
A voz saiu mais baixa dessa vez.
Ele caminhou até o quarto.
Empurrou a porta.
E parou.
A cama estava arrumada.
Perfeitamente arrumada.
Mas o quarto estava… vazio.
O guarda-roupa aberto revelava cabides sem roupas.
A mala grande que Laura tinha trazido do Brasil não estava ali.
A pequena bancada onde ela se maquiava também estava limpa.
Nada.
Absolutamente nada.
Henrique sentiu o ar faltar por um segundo.
— Não…
Ele deu alguns passos para dentro do quarto, como se procurasse algo que provasse que aquilo era apenas impressão dele.
Mas não era.
Laura tinha ido embora.
O pensamento bateu nele como um soco.
Ela foi embora.
Ele passou a mão pelo cabelo, andando de um lado para o outro.
— Não… não… não…
Pegou o celular novamente.
Ligou.
Caixa postal.
Mandou mensagem.
Laura, onde você está?
Outra mensagem.
O que está acontecendo?
Nada.
Nenhuma resposta.
Henrique saiu do quarto e voltou para a sala.
Foi então que viu algo sobre a bancada da cozinha.
Um envelope.
Com o nome dele.
A letra de Laura.
Henrique caminhou até lá devagar.
Pegou o envelope.
As mãos tremiam levemente.
Por um segundo, ele teve medo de abrir.
Medo do que poderia encontrar.
Mas abriu.
Dentro havia apenas um papel.
Ele reconheceu imediatamente.
Era a folha de um caderno dela.
Henrique respirou fundo e começou a ler.
Henrique,
Quando você ler isso, eu provavelmente já estarei longe.
Eu pensei em te esperar, pensei em conversar, pensei em tentar consertar tudo o que quebramos nas últimas semanas.
Mas às vezes amar alguém também significa saber a hora de ir embora.
Henrique apertou o papel com mais força.
O coração batendo cada vez mais rápido.
Ele continuou lendo.
Você tem sonhos enormes.
Harvard sempre foi um deles.
E eu nunca me perdoaria se fosse o motivo de você abrir mão disso.
Henrique franziu a testa.
— Do que você está falando…
Ele continuou.
Talvez um dia você entenda.
Talvez um dia você me odeie.
Mas eu prefiro que você me odeie do que te ver desistir da vida que sempre quis.
As mãos dele tremiam agora.
Eu te amei de todas as formas que soube.
E talvez isso tenha sido o nosso problema.
Nós nos amamos demais.
Cuida de você.
Laura
Henrique ficou imóvel.
O silêncio do apartamento parecia ainda mais pesado agora.
Ele releu a carta.
Uma vez.
Duas.
Três.
As palavras não faziam sentido.
Ou talvez fizessem sentido demais.
Ela tinha ido embora.
Sem conversar.
Sem lutar.
Sem tentar.
Henrique jogou a carta sobre a bancada e passou as mãos pelo rosto.
Uma mistura de raiva, frustração e dor se apertava dentro do peito.
— Você não podia ter feito isso…
Ele olhou ao redor.
O apartamento vazio.
Sem Laura.
Sem o cheiro do perfume dela.
Sem os livros espalhados.
Sem a risada dela ecoando pelos cômodos.
Nada.
Ele pegou a carta novamente.
Leu a última linha outra vez.
"Cuida de você."
Henrique soltou uma risada baixa.
Sem humor nenhum.
— Você foi embora… e quer que eu cuide de mim?
Ele deixou a carta cair novamente sobre a bancada.
Por alguns segundos, apenas ficou ali.
Parado.
Respirando.
Tentando entender.
Mas havia algo dentro dele que se recusava a aceitar aquilo.
Laura não simplesmente desapareceria.
Não sem motivo.
Não sem algo maior por trás.
Henrique pegou o celular novamente.
Discou um número que conhecia de memória.
Demorou alguns segundos até a ligação ser atendida.
— Pai?
A voz de Eduardo veio calma do outro lado da linha.
— Henrique? Está tudo bem?
Henrique olhou ao redor do apartamento vazio.
Sentindo o peso da ausência dela.
— Não.
Ele respirou fundo.
— A Laura foi embora.
Silêncio.
Henrique continuou, com a voz mais baixa.
— E eu preciso descobrir por quê.
Do outro lado da linha, Eduardo Gates permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Porque, diferente do filho…
Ele já começava a suspeitar da verdade.
E sabia que aquela história estava longe de terminar.