O peso dos Gates

948 Palavras
O sol ainda não havia nascido completamente em Tóquio quando o telefone vibrou sobre a mesa de madeira escura. Eduardo Gates não gostava de ser acordado. Mas gostava menos ainda de surpresas. Helena abriu os olhos primeiro, observou o marido sentar-se na cama, atender a ligação com a voz ainda grave de sono. — Fale. Silêncio do outro lado. À medida que ouvia, a expressão dele deixava o cansaço e ganhava outra coisa. Frieza. Helena sentou-se também. — O que houve? Ele desligou devagar. — Nosso sócio resolveu se tornar protagonista. Helena arqueou levemente a sobrancelha. — Explique. Eduardo levantou-se e caminhou até a janela do hotel, de onde a cidade se estendia organizada, impecável. — Ele mencionou a bolsa da garota durante o evento, na frente de pessoas erradas. Helena ficou em silêncio por alguns segundos. — Augusto Villar estava presente. Não era pergunta. Eduardo virou o rosto. — Estava. Ela suspirou lentamente. — Então agora o senador sabe que Henrique investiu em alguém fora do nosso círculo. Eduardo apertou o maxilar. — O que me irrita não é isso, é a quebra de hierarquia. Helena levantou-se, caminhando até ele. — Henrique está apaixonado. Eduardo não respondeu imediatamente. — Ele tem idade para isso — ela continuou. — Mas não tem maturidade para entender as consequências políticas. Eduardo voltou até a mesa onde o tablet estava ligado. Imagens apareceram na tela. Fotografias. Henrique e Laura na praia. Caminhando. Rindo. Tereza conversando com um rapaz desconhecido. Helena olhou as imagens sem emoção aparente. — Você já colocou segurança. — Desde o evento. — Henrique sabe? — Não. Helena cruzou os braços. — Ele vai descobrir. — Ele pode me odiar depois, prefiro isso a vê-lo vulnerável. O silêncio entre os dois não era vazio. Era cálculo. Eduardo pegou o telefone novamente. — Está na hora de lembrar algumas pessoas de onde vem o poder. Discou o primeiro número. Não demorou para atenderem. — Senador Villar. A voz do outro lado carregava autoridade. — Eduardo, que surpresa. — Não gosto de surpresas, senador. Uma pausa. — Imagino que esteja se referindo ao evento. — Seu filho confundiu cortesia com liberdade. O tom era controlado, mas a ameaça estava ali. — Augusto é jovem. — Meu filho também, a diferença é que eu ensino limites. Silêncio. Eduardo continuou: — Nossa empresa de tecnologia fornece sistemas de segurança digital para três ministérios, inclusive o seu. O senador respirou fundo. — Está insinuando algo? — Estou afirmando que interferências indesejadas podem gerar revisões contratuais. A mensagem foi clara. Helena observava sem interromper. — Meu filho não tocará novamente na sua futura nora — o senador respondeu por fim. Eduardo corrigiu: — Na namorada do meu filho. A linha ficou muda por um segundo. Era uma declaração estratégica. — Entendido. Eduardo desligou. Sem alterar a respiração. — Um resolvido — disse. Helena inclinou levemente a cabeça. — E a garota Gabriela? Eduardo pegou outro número. O pai de Gabriela atendeu quase de imediato. — Eduardo! Que honra. — Vou direto ao ponto, Roberto. O homem do outro lado silenciou. — Sua filha tentou manipular uma situação envolvendo meu filho. — Deve haver um engano… — Não há. Eduardo caminhava pelo quarto enquanto falava. — A sua construtora depende diretamente de nossas plataformas de gerenciamento e segurança estrutural. A respiração do outro lado ficou mais pesada. — Gabriela é apenas uma adolescente. — Adolescência não isenta consequências. Helena aproximou-se, falando pela primeira vez. — Nós não nos opomos a amizades, Roberto, mas não toleramos jogos. A voz dela era suave. E infinitamente mais perigosa. — Eu… conversarei com ela imediatamente. Eduardo concluiu: — Faça isso, ou conversaremos sobre contratos. Desligou. O quarto voltou ao silêncio. Helena observou novamente as imagens na tela. Laura correndo na areia. Henrique olhando para ela como se o mundo estivesse ali. — Ela não parece interesseira — Helena comentou. Eduardo ficou em silêncio por alguns segundos. — Não parece. — Então o problema não é ela. Ele voltou os olhos para a tela. — O problema é o mundo ao redor. Helena tocou levemente o braço dele. — Você está protegendo demais. — Estou protegendo o legado. — E se o legado depender da felicidade dele? Eduardo olhou para a esposa. Era raro que discordassem. — Você acha que isso é amor? Helena observou a foto ampliada. Henrique sorrindo de um jeito que ela não via desde criança. — Eu acho que ele nunca assumiu ninguém antes. Eduardo respirou fundo. — Justamente por isso é perigoso. Mais cedo Henrique deitou na areia ao lado de Laura, os dedos entrelaçados aos dela. Ele não fazia ideia de que, a milhares de quilômetros dali, decisões estavam sendo tomadas. Laura fechou os olhos, sentindo o sol no rosto. — Você já pensou em largar tudo? Ele abriu um olho. — Tudo o quê? — Empresa, nome, pressão. Ele riu de leve. — Eu não posso largar algo que nasceu comigo. Ela virou o rosto para ele. — Mas você pode escolher como carregar. Ele ficou pensativo. Sem saber que o pai já estava escolhendo por ele. No Japão, Eduardo desligou o tablet. — Mantenha os seguranças a distância suficiente para não interferir — ordenou pelo telefone. — Sim, senhor. Helena aproximou-se da janela. — Eles estão felizes hoje. Eduardo observou o céu começando a clarear sobre Tóquio. — Que aproveitem. Ela virou o rosto lentamente. — Isso soa como um aviso. Ele não respondeu. Porque no fundo sabia: Poder protege. Mas também cobra. E se Henrique estivesse se apaixonando de verdade… O império Gates precisaria decidir se protegeria o sobrenome. Ou o filho. E essa escolha… Ainda estava longe de ser feita.
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