A Menina que aprendeu a não ser pega

1342 Palavras
Laura nunca foi burra. E talvez esse tenha sido o começo de tudo. Porque errar por ingenuidade é uma coisa. Errar sabendo exatamente como escapar é outra completamente diferente. A ressaca daquela manhã não era só física. Era uma mistura amarga de culpa, adrenalina e uma pontinha de orgulho por ter conseguido sair ilesa mais uma vez. Ela entrou na escola com óculos escuros grandes demais para o uniforme azul claro. O cabelo preso em um coque improvisado escondia o cheiro do cigarro misturado com bebida. A garrafa térmica rosa que antes carregava água agora tinha algo mais forte, diluído o suficiente para não levantar suspeitas. Raiana já a esperava perto do portão. — Sobreviveu? — perguntou com um sorriso enviesado. — Sempre — Laura respondeu, automática. Mas sobreviver estava começando a significar coisas diferentes. As primeiras aulas passaram em um borrão lento. A professora de matemática escrevia equações na lousa enquanto Laura lutava contra o peso dos próprios olhos. Não era sono comum. Era o corpo cobrando o que ela fingia não dever. Ela sabia a matéria. Sempre soube. Mesmo com a cabeça latejando, resolvia mentalmente os exercícios antes que os colegas terminassem de copiar. A diferença é que agora ela não fazia questão de levantar a mão. Antes, Laura queria ser vista. Agora, ela queria ser invisível. No intervalo, Raiana puxou assunto como quem propõe um plano de guerra. — Minha mãe quase atendeu a ligação ontem. Se ela descobre que eu faltei sexta passada, eu tô morta. Laura congelou por meio segundo. — Ligaram pra sua mãe? — Ligaram. A diretora tá em cima. Disse que vai começar a ligar quando a gente falta ou chega atrasada. A ameaça não era a diretora. Era a bolsa da mãe de Laura. Era o cheiro de café pela manhã. Era o olhar cansado que ainda confiava. Ela deu um gole disfarçado na garrafa. — Então a gente resolve isso — disse, simples. Raiana franziu a testa. — Como? Laura ficou em silêncio por alguns segundos. Pensando. Calculando. Ela conhecia a rotina da escola. Sabia que às quartas-feiras, depois do intervalo, a secretária ia até o prédio anexo organizar documentos do conselho escolar. A sala da diretora ficava vazia por pelo menos quinze minutos. Quinze minutos eram suficientes. — Confia em mim — Laura respondeu. E naquele instante, pela primeira vez, não parecia uma adolescente. Parecia estrategista. A oportunidade surgiu dois dias depois. Laura fingiu dor de cabeça no início da terceira aula. Pediu para ir à enfermaria. Caminhou devagar pelo corredor, contando passos, controlando a respiração. Não era medo. Era excitação. Ela passou pela porta da diretoria. Fechada. Silenciosa. Olhou para os lados. Entrou. A sala tinha cheiro de papel e ar-condicionado antigo. Sobre a mesa, uma pilha organizada de fichas individuais dos alunos. Ela já tinha visto aquele arquivo antes quando precisou entregar um documento no início do ano. Não demorou para encontrar a própria pasta. Laura abriu. Ali estava tudo: endereço, notas, histórico, nome da mãe, telefone fixo, celular. Ela encarou o número por alguns segundos. Era como olhar para casa à distância. Respirou fundo. Pegou o celular do bolso. Fotografou discretamente a ficha inteira. Depois, com a mesma calma de quem copia dever de casa, abriu a gaveta da mesa da diretora. Canetas. Carimbos. Um corretivo líquido. O coração acelerou agora. Ela não podia rasurar de forma óbvia. Com cuidado, aplicou uma fina camada de corretivo sobre os últimos quatro dígitos do celular da mãe. Esperou secar soprando devagar. Pegou a caneta preta da própria diretora. E escreveu outro número. Não inventado. Era o número antigo de um chip que Laura ainda guardava, desligado no fundo da gaveta do quarto. Se ligassem, ninguém atenderia. Fechou a pasta. Reorganizou a pilha exatamente como estava. Limpou qualquer vestígio da mesa com a manga do uniforme. Antes de sair, olhou ao redor. Não havia culpa no olhar. Havia poder. A mudança começou pequena. Primeiro, atrasos frequentes. Depois, risadas altas no meio da explicação do professor. Bilhetes circulando pela sala. Um dia, ela simplesmente levantou no meio da aula de história e foi ao banheiro sem pedir permissão. — Laura, volte aqui! — o professor chamou. Ela virou de costas, andando devagar. — Já volto. E voltou mesmo. Porque Laura não queria suspensão. Não queria expulsão. Não queria notas baixas. Ela queria controle. A rebeldia dela não era desorganizada. Era calculada. Entregava todos os trabalhos no prazo. Tirava notas acima da média. Fazia provas impecáveis. Quando a diretora a chamou na sala uma semana depois para conversar sobre comportamento, o discurso perdeu força no meio do caminho. — Suas notas são excelentes, Laura. Mas sua postura… — Estou passando por uma fase difícil em casa — respondeu, com a voz medida. Não era totalmente mentira. A diretora suspirou. — Já tentamos falar com sua mãe algumas vezes, mas o número não completa. Laura ergueu as sobrancelhas em falsa surpresa. — Estranho. Ela comentou que trocou de operadora recentemente. A diretora anotou algo em um bloco. — Peça para ela atualizar o número na secretaria, por favor. — Claro. Laura saiu da sala com um meio sorriso. Ela tinha vencido mais uma rodada. As festas continuavam. Agora com menos medo. Ela saía dizendo que estudaria na casa de Raiana. Pegava dinheiro na bolsa da mãe com mais cuidado — nunca notas grandes, sempre pequenas quantias que parecessem troco esquecido. O álcool já não ardia tanto na garganta. Virava rotina. Na escola, começou a carregar a garrafa “de água” todos os dias. Pequenos goles entre uma aula e outra. Não o suficiente para ficar visivelmente alterada. Apenas o bastante para manter a sensação de leveza artificial. Os professores percebiam a mudança. A menina aplicada ainda estava ali, mas havia algo quebrado no brilho dos olhos. Durante uma aula de literatura, enquanto a turma discutia um poema sobre juventude e escolhas, Laura ficou encarando a janela. Ela não estava triste. Mas também não estava feliz. Era como se estivesse vivendo fora do próprio corpo. Ela não pensava mais nas consequências. Pensava na próxima fuga. Em casa, a mãe comentava distraída: — A escola não ligou mais, que bom. Acho que você melhorou nos atrasos. Laura mastigava devagar, evitando contato visual. — Estou me organizando melhor. E estava mesmo. Organizando mentiras. Organizando horários. Organizando álibis. A culpa aparecia às vezes, no silêncio do quarto à noite. Mas ela aprendia a silenciar também. Colocava fones de ouvido. Música alta. Pensamentos abafados. Ela não queria ser a menina que o Guilherme conheceu. Porque aquela menina era vulnerável. E Laura decidiu que vulnerabilidade era fraqueza. Na escola, sua reputação começava a mudar. Os meninos cochichavam quando ela passava. Algumas meninas a olhavam com admiração. Outras com julgamento. Ela gostava da sensação de ser comentada. Era melhor do que ser esquecida. Um dia, durante a aula de química, fez um comentário sarcástico alto demais. A sala inteira riu. O professor a expulsou para a coordenação. Enquanto caminhava pelo corredor, ela sentiu algo estranho. Não era medo. Era vazio. Sentou na cadeira em frente à sala da diretora e ficou olhando para o próprio reflexo no vidro da janela. Olhos mais pesados. Sorriso mais cínico. Postura mais dura. Ela estava se transformando. E ninguém estava impedindo. Porque suas notas continuavam perfeitas. Porque o telefone não tocava mais em casa. Porque ela aprendera a não ser pega. Mas toda estratégia tem prazo de validade. E mesmo que Laura ainda não soubesse, a linha entre controle e queda estava ficando cada vez mais fina. Ela achava que dominava o próprio caos. Mal percebia que estava se afastando, passo a passo, da menina que um dia acreditou em amores que acalmam. E enquanto isso, em algum lugar da cidade, um garoto que trabalhava demais ainda não fazia ideia de que a menina doce que ele conheceu estava se escondendo atrás de versões cada vez mais difíceis de amar. E o primeiro contato ainda não tinha acontecido. Mas quando acontecesse… Ele encontraria uma Laura diferente. E talvez fosse exatamente isso que mudaria tudo.
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