O líquido queimou minha garganta e eu fiz uma careta automática.
— Credo, que gosto é esse?
A Raiana riu alto.
— Isso se chama crescer, Laura.
Eu devolvi o copo pra ela, mas depois de alguns segundos peguei de volta. Dei mais um gole. Dessa vez já não queimou tanto.
A música estava mais alta.
As luzes pareciam mais fortes.
E eu estava me sentindo… diferente.
Não sei dizer se era o efeito da bebida ou da liberdade.
Olhei em volta tentando reconhecer alguém, quando senti alguém esbarrar de leve no meu ombro.
— Foi m*l.
Eu conhecia aquela voz.
Meu coração disparou antes mesmo de eu virar.
Quando virei, ele estava ali.
Moletom preto, cabelo bagunçado, aquele mesmo sorriso que me fez atravessar a rua semanas atrás.
Guilherme.
Por alguns segundos eu só consegui encarar.
Ele me olhou dos pés à cabeça, parou nos meus olhos e sorriu de canto.
— Então você é a Laura.
Meu nome na boca dele parecia outra coisa.
— Sou… — respondi tentando parecer normal, mas eu podia jurar que meu rosto estava vermelho.
— Eu quase achei que você era um fake do MSN. — ele riu baixo.
— E eu quase achei que você não existia. Nunca estava online.
Ele deu um passo mais perto.
— Eu trabalho até tarde. Mas eu te vi entrar algumas vezes.
— Então por que não falou comigo?
Ele inclinou a cabeça, como se estivesse me estudando.
— Porque eu queria falar pessoalmente.
Meu estômago virou.
Eu nunca tinha ficado tão perto de um menino assim. O cheiro dele misturado com a fumaça da boate, a música vibrando no chão, o álcool começando a fazer efeito… tudo parecia cena de filme.
— Você ficou bonita hoje. — ele disse, quase no meu ouvido.
E ali foi o momento.
O momento em que eu senti as tais borboletas.
O momento em que eu soube que estava ferrada.
Porque quando ele segurou minha cintura, eu não pensei nas regras da minha mãe.
Não pensei na idade.
Não pensei em nada.
Só pensei que queria sentir aquilo de novo.
Ele segurava minha cintura como se já tivesse feito aquilo mil vezes.
Mas pra mim era a primeira vez.
— Você demorou pra falar comigo. — falei tentando parecer segura.
— Eu gosto de observar antes. — ele respondeu.
— E o que você observou?
Ele sorriu.
— Que você não é como as outras.
Essa frase é clichê?
Talvez.
Mas aos 15 anos aquilo foi suficiente pra eu acreditar que era especial.
A música mudou para uma mais lenta, o que era raro naquela festa.
Ele aproximou mais o rosto do meu.
— Posso?
Eu poderia ter pensado.
Poderia ter lembrado das regras.
Poderia ter dito não.
Mas eu não disse nada.
E ele me beijou.
Não foi como nos filmes, foi melhor, desajeitado, quente, cheio de descoberta.
Quando ele se afastou, eu senti falta na mesma hora.
— Agora eu vou ter que entrar no MSN mais cedo. — ele disse rindo.
— Vai mesmo. — respondi.
O beijo foi rápido.
Não porque faltou vontade.
Mas porque alguém puxou ele pelo ombro.
— Guilherme, vem cá rapidão!
Ele revirou os olhos.
— Eu já volto. — disse pra mim, como se fosse óbvio que voltaria.
Eu fiquei ali parada, com o coração na garganta.
Ele realmente voltou alguns minutos depois.
— Minha mãe já vai chegar. — falei antes que ele dissesse qualquer coisa.
— Já?
— Hoje eu posso ficar mais um pouco, mas não muito.
Ele colocou a mão na nuca, pensativo.
— Eu entro no MSN hoje.
Eu ri.
— Eu nunca pego você online.
— Hoje você vai pegar.
Mas eu não peguei...
Naquela noite, quando cheguei em casa, deitei na cama sentindo ainda o gosto do beijo.
Esperei dar 22:00, esperei 22:30 , 23:00.
Mas minha mãe apareceu na porta.
— Já está tarde, Laura.
Desliguei o computador.
E ele entrou 15 minutos depois.
Eu só fui saber no dia seguinte, porque tinha um “oi” piscando na janela de conversa.
Depois daquela festa, eu esperei.
Esperei ele entrar no MSN.
Esperei ele me chamar na próxima teens.
Esperei ele aparecer na saída da escola.
Mas a vida não funciona na ansiedade de uma menina de 15 anos.
Os meses foram passando.
Eu fui em outras festas.
Conheci outras pessoas.
Experimentei outras coisas.
A primeira vez que bebi, odiei.
A segunda, já não achei tão r**m.
Na terceira, eu estava rindo de coisas que nem eram engraçadas.
A Raiana dizia que eu precisava viver.
E eu acreditava.
Comecei a mentir mais em casa.
Dizia que estava na casa dela quando não estava.
Dizia que ia dormir cedo, mas ficava até tarde conversando com gente que minha mãe nunca aprovaria.
O Guilherme ainda entrava no MSN.
Às vezes eu via o “online” dele aceso às 23:47.
Eu já estava deitada.
Outras vezes eu ficava acordada escondido… e ele não aparecia.
Nosso tempo nunca batia.
E aos poucos, o menino do sorriso bonito virou só uma lembrança boa.