Entre o silêncio e o medo

1102 Palavras
O cheiro de hospital sempre foi algo distante da realidade de Laura. Agora parecia sufocante. Luz branca demais. Frio demais. Silêncio demais. Ela abriu os olhos devagar, sentindo a cabeça pesada, o corpo lento, como se estivesse submersa, um monitor apitava em ritmo constante ao lado da cama. Henrique estava ali. Sentado na cadeira ao lado, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos entrelaçadas, o olhar fixo nela como se tivesse medo de que desaparecesse. Quando percebeu que ela acordou, se aproximou imediatamente. — Ei… — a voz saiu mais baixa do que o normal. — Está me ouvindo? Laura piscou algumas vezes. — Estou… Ele soltou o ar que parecia estar preso há horas. — Você me assustou. Ela tentou se lembrar, a festa, a bebida, a sensação estranha. Guilherme, a porta abrindo, Henrique. — Eu mandei a localização… — murmurou. — Eu sei. — Ele passou a mão pelo rosto, ainda tenso. — Você fez certo. Por alguns segundos, ficaram em silêncio, não era o silêncio provocativo de sempre, era outro tipo, mais frágil. — Minha mãe… — ela disse de repente, sentindo o coração acelerar. Henrique hesitou. — Ela achava que você estava num aniversário com a Raiana. Laura fechou os olhos. — Ela vai me matar. — Não vai. — Você não conhece ela quando está decepcionada. Ele inclinou o corpo para mais perto. — Ela vai ficar com medo, não decepcionada. A forma como ele disse aquilo fez algo apertar dentro dela. — O médico disse que foi alguma substância misturada com álcool, você vai ficar bem, foi rápido. — Ele engoliu seco. — Ainda bem que você me mandou a localização. Laura observou o rosto dele com mais atenção, os olhos estavam vermelhos, não de choro, mas de tensão. O maxilar ainda rígido, a postura sempre confiante parecia levemente quebrada. — Você ficou com medo? — ela perguntou, quase num sussurro. Henrique soltou uma risada sem humor. — Eu quase enlouqueci. Ela não esperava aquela resposta. — Eu te procurei por todo lado naquela casa, quando te vi naquele sofá… — ele parou, respirou fundo. — Eu nunca senti aquilo antes. Laura sentiu algo mudar ali, não era provocação, não era disputa, era verdade. — Eu não estava fazendo nada. — Eu sei. — Ele a interrompeu rápido demais. — Não era isso. Ela sustentou o olhar dele. — Então o que era? Henrique demorou alguns segundos para responder. — Era a ideia de que eu podia chegar tarde demais. A frase ficou suspensa entre os dois. Ela sentiu o peito aquecer, mesmo sob o frio do ar-condicionado. Henrique passou a mão devagar pelos cabelos dela, afastando uma mecha do rosto, o gesto era delicado, quase contraditório com a intensidade que ele sempre carregava. — Você precisa parar de se colocar em risco pra provar alguma coisa. Ela desviou o olhar. — Eu não estava tentando provar nada. Mas no fundo, talvez estivesse. Provar que ainda era a mesma. Provar que não estava deslumbrada. Provar que não precisava deles. — Você não precisa escolher entre mundos — ele disse, como se tivesse lido os pensamentos dela. — Só precisa escolher o que te faz bem. Ela quase perguntou se ele se incluía nisso. Mas antes que pudesse, a porta se abriu. Tereza entrou primeiro, o rosto sério — não arrogante, não leve — sério. Atrás dela vinha a mãe de Laura. Os olhos da mãe estavam arregalados, misto de medo e pressentimento confirmado, o motorista esperava do lado de fora. — Laura! — ela atravessou o quarto em passos rápidos. Henrique se levantou imediatamente, dando espaço. A mãe segurou o rosto da filha entre as mãos. — O que aconteceu? Laura sentiu a culpa vir inteira. — Mãe… eu… A voz falhou. — Você não estava num aniversário? Tereza se aproximou devagar. — Dona Sônia, a gente soube da festa e foi buscar a senhora em casa assim que o Henrique levou ela pro hospital. A mãe de Laura olhou para Henrique pela primeira vez com atenção real. Ele manteve postura firme. — Eu trouxe ela assim que percebi que tinha algo errado. Não havia arrogância na voz, só responsabilidade. A mãe voltou o olhar para a filha. — Você bebeu? Laura respirou fundo. — Eu bebi um pouco… mas colocaram alguma coisa. Silêncio. A expressão da mãe mudou, saiu da decepção para o medo. — Você podia ter morrido. A frase foi seca, foi crua. Laura sentiu o peso dela. — Eu sei. Henrique observava tudo em silêncio, as mãos fechadas nos bolsos, ele não era da família, mas estava ali como se fosse. Tereza colocou a mão no ombro de Laura. — A culpa não é sua. Mas, de certa forma, Laura sentia que era. Sentia que estava tentando viver rápido demais. Que estava testando limites que nem sabia se aguentava. A mãe respirou fundo e puxou uma cadeira. — A partir de agora, eu quero saber exatamente onde você está, com quem está, e se for sair, eu quero o endereço, o telefone e o nome completo de todo mundo. Laura assentiu, sem discutir. Henrique se aproximou um pouco. — Eu fico até a alta. A mãe o encarou por alguns segundos. Avaliando. Pesando. Depois assentiu levemente. — Obrigada por trazer minha filha, ainda bem que ela ganhou essa bolsa, e não vai mais ficar no meio daquelas pessoas. Ele apenas inclinou a cabeça. Mas quando Laura olhou para ele, viu algo diferente. Não era posse. Não era desafio. Era cuidado. E isso a assustava mais do que o resto. Porque intensidade ela sabia lidar. Mas alguém ficando por escolha… Isso era novo. Do outro lado da cidade, Guilherme ficou parado do lado de fora da festa por alguns minutos depois que Henrique saiu. Não sabia de onde vinha, mas sabia que os olhos dela, mesmo turvos, carregavam algo que não combinava com aquele lugar,ele que esperou tanto para falar com ela novamente, não sabia que seria desse jeito. Mas sabia que aquela história não tinha terminado ali. E no hospital, enquanto a mãe conversava com a médica e Tereza organizava os detalhes da alta, Henrique se aproximou da cama novamente. — Eu não gosto de dividir espaço — ele disse baixo. Laura ergueu o olhar. — Espaço? Ele sustentou os olhos nos dela. — Com perigo, com gente que não sabe o seu valor, com ninguém. Ela sentiu o coração acelerar. — Você não manda em mim. — Eu sei. Ele se inclinou levemente, a voz quase um segredo. — Mas eu me importo. E dessa vez não havia provocação. Só verdade.
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