Tina Oliveira – Dias atuais
O cheiro é o que noto primeiro.
Depois que cresci comecei a perceber as lembranças e sensações que cheiros evocavam. Dizem que esse é o sentido mais ligado a memória. Por exemplo, cheiro de comida sempre foi associado a alívio, significava que não ficaria com fome naquele dia e que minha mãe estava em casa. Até hoje quando me alimento me sinto mais relaxada.
O cheiro de cerveja barata nunca era bom, eu associava a podridão e fuga. Era quando o pai de Dani estava por perto e aquele homem era repugnante até o último nível, por isso eu precisava ficar longe antes que coisas ruins acontecessem.
O cheiro que sentia agora era cheiro de álcool.
Não como cerveja barata, mas como algo esterilizado, frio e impessoal.
Isso nunca era um bom sinal.
Abro os olhos e vejo pessoas de branco em todo lugar que foco, poderia ter me enganado que isso era o céu, mas eu deveria saber que nem sempre branco é sobre santidade. Eu deveria saber que não seria tão fácil assim escapar de um paraíso e ir para outro.
Recebi a notícia aos poucos, como se eu fosse uma criança aprendendo a ler.
Descobri que dei entrada as pressas no hospital por que eu tomei um tiro. Essa notícia foi surreal, como se estivessem falando de outra pessoa.
Me informaram que eu passei por uma cirurgia, eu tinha uma hemorragia que precisava ser contida e uma bala alojada na minha costela que precisava ser retirada. Meu pulmão foi comprometido pelo caminho que a bala percorreu, talvez minha respiração nunca mais fosse a mesma.
E quando enfim achei que as notícias ruins teriam acabado veio a pior de todas: descobrir que sua melhor amiga morreu com a mesma bala que tiraram de você.
Isso me fez querer voltar a dormir por tempo indeterminado e fugir dessa realidade. Fingir que as notícias acabaram na cirurgia.
Tem dia que é melhor não acordar que dá tudo errado. Aquele era o meu.
Mas isso é real, tão real quanto meu lado direito queimando a cada respiração que entra no pulmão, tão real quanto a sensação de que vou desmaiar de dor.
Entro e saio da consciência confundindo realidade com sonho. Vejo pessoas em diferentes momentos usando o costumeiro branco e falando sobre mim, não consigo entender o que dizem. As palavras não conectam no meu cérebro grogue de remédio e choque.
Poderiam ter se passado minutos ou horas, o tempo se tornou confuso e relativo. Mas finalmente acordo e sinto a mente um pouco mais clara que das últimas vezes.
E então desejo não estar lúcida por que nessa realidade Cris não existe mais.
Cris se foi e eu nem lembro quais foram suas última palavras, sua última piada, seu último riso.
Tudo era nebuloso e estranho, eu nem vi a bala chegando, eu só lembro de estar na escada e no segundo seguinte estar deitada no degrau sentindo uma dor filha da p**a de r**m.
Quero saber quem fez isso, quem tirou a vida dela.
Olho para o teto branco com sua luz amarela piscando a cada cinco segundos.
Analiso as paredes brancas descascadas com seus buracos de tinta falhada e mais tinta branca velha por baixo.
Estou com vários tubos ligados ao meu corpo e não consigo nem entender de onde estão saindo e o que estão monitorando. Sei que eu deveria ter algo ligado ao meu sistema urinário mas o equipamento está em falta no hospital, uma enfermeira me disse que tenho que me levantar e suportar a dor quando for preciso ou mandar o mundo se f0der e mijar na cama como um bebê. Duas belas opções.
Meu quarto é composto unicamente por aparelhos, uma cama dura ao qual estou deitada e uma cadeira de plástico. Sem banheiro. Além de me arrastar em miséria ainda preciso fazer isso pelo corredor até o banheiro lá no final.
Escuto o barulho da porta abrindo e levanto a cabeça para encarar um médico que acaba de chegar.
Ele é pardo, tem cabelos grisalhos e é levemente calvo nas laterais da cabeça. Parece estar na casa dos cinquenta anos e tem rugas profundas no rosto redondo.
- Oi Cristina, eu sou o Dr. Sandro, você está no hospital Santa Teresa, como se sente? – Ele pergunta. Seus olhos são gentis como os de um avô. Ou o que deveriam ser, não tenho como comparar já que não conheci nenhum dos meus.
- Tudo dói – respondo com a voz rouca, minhas cordas vocais secas pelo desuso.
Dr. Sandro me ajuda a beber um copo d’água.
- Você deu entrada há dois dias com uma bala alojada na costela direita, você lembra do que aconteceu? –
Dois dias... Eu dormi muito.
Tento mais uma vez me lembrar do acontecido mas depois do tiro e os breves flashes de consciência é tudo um breu. Começo a me desesperar forçando minha cabeça dolorida a cooperar.
Dr. Sandro percebe minha inquietação.
- Não precisa lembrar de tudo agora, as vezes é muito traumático lembrar do ocorrido – ele responde me acalmando.
Respiro fundo e isso é um erro. Meu lado direito poderia muito bem estar em chamas agora.
- Você vai sentir muito dor nos próximos dias, querida. Os remédios só ajudam até certo ponto, sinto muito –
Assinto.
- Você sabe o que aconteceu com a Cris? – pergunto chorando tanto pela dor quanto pela minha amiga.
Dr. Sandro parece confuso por um momento, mas então seu rosto se ilumina para logo em seguida ficar pálido feito um fantasma.
- Cristina Santos, 18 anos... Ela perdeu muito sangue até chegar ao hospital, morreu na ambulância, o ferimento dela era muito pior que o seu –
Choro silenciosamente e não escuto quando ele se despede e sai.
Muito tempo depois é que percebo uma bala ao lado do meu copo de água.
***
Acordo horas depois e encontro minha mãe dormindo na cadeira plástica desconfortável. Ela está vestindo um vestido florido surrado de muitos anos que fica enorme no seu pequeno corpo. Eu sei que deve ter sido o primeiro que ela viu na frente e não se importou. Minha mãe não se importava com muita coisas desde que tivéssemos um teto para morar e comida na mesa.
A porta se abre e vejo Gustavo entrando com olhos escuros abatidos. Ele usa shorts folgados, camisa de uma banda de rock que desconheço e sua costumeira mochila azul pendurada nas costas. Não parece ferido o que por si só, é um milagre. Ele estava no local do tiroteio também.
- Oi, Cris – Ele chama. Aquilo dói e corta profundo dentro de mim.
Eu nunca poderia ser Cris.
- É Tina – respondo no automático com raiva.
Gustavo fica confuso.
- Mas eu sempre te chamei de Cris – ele responde.
- Agora você me chama de Tina – decreto.
Gustavo parece aborrecido mas cerra os lábios e desvia o olhar.
- Você sabe o que aconteceu? – pergunto. Era só isso que eu queria dele.
- Essa é a sua mãe? – pergunta ele olhando para a cadeira e a mulher sentada nela. A cabeça apoiada na mão que está no braço da cadeira enquanto ela baba e ronca suavemente.
- É – respondo curta – Você sabe o que aconteceu? – Repito.
- Isso não parece muito confortável – Diz Gustavo ainda olhando para minha mãe.
Esse garoto me irrita profundamente.
- Não é. Você sabe o que caralhos aconteceu naquela merda de dia? – pergunto de novo por um fio de começar a gritar para ele responder ou ir embora.
Silêncio.
Gustavo abre e fecha a boca como a porcaria de um fantoche.
- Foi um tiroteio, Cris... – ele começa e o olho feio – Tina, foi um tiroteio – corrige.
- Não me diga, gênio – desdenho com veneno escorrendo no meu tom – Tinha polícia envolvida? – pergunto tentando entender.
-Eu não sei, tinha alguns bota no morro – respondeu neutro.
Eu detestava as gírias profundamente. Essa merda de língua cheia de malícia geralmente usada por algum i****a querendo pagar de malandrão quando não passava de um bosta covarde.
Poucos que tinham peito pra usar realmente fazia e acontecia de verdade.
Considerando meu conhecimento recente Gustavo parecia ser um pouco dos dois.
- Você viu quem atirou? – perguntei. Queria saber se a bala tinha vindo da polícia ou dos bandidos pra saber a quem meu ódio era destinado.
Gustavo imediatamente balançou a cabeça em um claro não e com isso dei nossa breve conversa por encerrada.
Viro a cabeça para o outro lado e fecho meus olhos.
Minutos se passam e mesmo assim sei pelo som inexistente da porta rangendo que ele não saiu.
Quando suspiro cansada e decido olhar ele se sentou no chão com as pernas cruzadas em posição de índio, a mochila no colo.
Ele me olha quase sem piscar.
Bebo água e brinco com o lençol entre os dedos, desenhando padrões aleatórios enquanto o tempo corre.
Ele me chama por Cris e eu ignoro. Ele me chama por Tina e eu ignoro.
Ele não se cansa.
- Você vai falar comigo direito? – pergunta ele calmamente.
- Não – respondo. É a verdade.
- Ótimo, então eu vou ficar aqui e esperar você colaborar – respondeu petulante sentando no chão.
- O que te faz pensar que você vai conseguir me fazer falar com você? – pergunto irritada. Não se podia ter paz nem levando um tiro pelo visto.
Gustavo sorri largo.
- Por quê eu já fiz isso antes – E pisca.
***
“A morte é sempre e em todas as circunstâncias uma tragédia, pois, se não o é, quer dizer que a própria vida passou a ser uma tragédia.”
- Theodore Roosevelt
***
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