Tina Oliveira – Dias atuais
Tudo que posso absorver no momento é dor.
Tento mover minha cabeça no asfalto duro. Estou jogada em um ângulo estranho e não entendo o por quê.
Tento lembrar do últimos minutos da minha vida e não consigo totalmente.
Eu estava feliz por algum motivo e Cris estava quieta, estranhamente quieta.
Eu tentei entender o que ela tinha e ela gritou comigo.
Avistei Gustavo ao longe com um rapaz e abaixei a cabeça por algo a ver com a noite passada, sentia um misto de vergonha e raiva.
O que tinha acontecido noite passada, mesmo?
Lembro de Cris sorrindo um sorriso diabólico em minha direção.
E foi esse sorriso que marcou o início do caos.
Eu ouvi um barulho agudo que poderia ser o escapamento de uma moto, mas os gritos de desespero que o acompanhavam só poderia significar uma coisa: tiroteio.
Joguei-me no chão o mais rápido que podia e com meu braço puxei Cris comigo torcendo para fosse o suficiente, para que desse tempo.
Senti uma dor absurda se alastrar pelo meu corpo quando me choquei contra o chão duro. Isso era muito mais do que uma dor de queda, tudo queimava.
Sei que tentei tatear Cris, saber onde estava mas não cumpri meu intento, ou ela não estava lá ou muito longe para eu alcançar.
E no momento presente, ainda jogada na escada sinto pequenas pedras furando minha bochecha e o leve cheiro de esgoto que permeia o ar do morro seja onde for.
- Pega o celular que deu merd4 – ouvi alguém gritar apesar do ruído forte que sentia no ouvido.
Eu queria levantar mas não tinha força para isso.
Alguém segura minha cabeça e a vira para cima. Tento focar no rosto mas só absorvo olhos castanhos que me encaravam, tentavam falar comigo mas o ruído estava ficando muito alto.
Olhei para cima, para as casas... Janelas com lençóis pendurados numa tentativa de privacidade, chinelos e sapatos pendendo dos emaranhado dos fios dos postes de luz e por entre as telhas dos telhados dos barracos o céu era azul, me concentrei nele.
Fecho os olhos involuntariamente.
- Chama uma ambulância, caralh0! -
Apago.
***
Sinto um leve puxar da consciência quando percebo que estou de algum modo em movimento.
Abro os olhos e tento me concentrar em algo, mas sinto uma sensação semelhante a lutar contra o sono: você quer abrir os olhos e quando consegue quer mantê-los abertos, mas não consegue. Sua força de vontade falha, os olhos rolam de novo nas órbitas e sua cabeça dói pelo esforço. Minhas pálpebras se fecham e sou engolfada pela escuridão. Decido que é melhor assim, a dor fica mais distante.
- O paciente apresenta uma ferida aberta de classificação perfurocon...–
A voz mais próxima soa masculina e minha cabeça tenta entender perfuro o quê? Esse paciente de ferida aberta sou eu?
Uma névoa confusa paira na minha cabeça de tal forma que agora só posso ouvir palavras desconexas ao meu redor.
Sangue... Transfusão... Perdendo.
Alguém está perdendo... O quê?
Bip. Bip. Bip.
Escuto um zumbido alto nos ouvidos e não consigo distinguir se isso é fora ou dentro da minha cabeça.
Sinto algo me tocando e minha roupa pegajosa na pele, o barulho de tecido rompendo sob uma tesoura é inconfundível e então não há mais roupa grudando.
Alguém está gritando, um bipe alto e constante soa.
Bip. Bip. Bip.
Não entendo o que está acontecendo, não sei como vim parar aqui e nem o que fiz para que isso acontecesse. Em alguns momentos a dor é tanta que esqueço até quem sou.
Mesmo no caos há um padrão então com os olhos fechados tento distinguir os sons.
Vozes abafadas, bipe constante, zumbido no ouvido e sirenes.
Sirenes... Estou em uma ambulância e por um momento as coisas ficam mais claras.
- Ela tá perdendo muito sangue – escuto uma voz próxima em tom profissional.
Bip. Bip. Bip.
- o que tá acontecendo? – pergunta alguém acima de mim.
- Ela tá ventilando muito m*l, ela vai parar – responde.
Barulhos confusos e mãos frias no meu peito me apertando me fazem oscilar a consciência. Vejo escuridão nas bordas da minha visão quando tento de novo abrir os olhos, tento me mexer.
- Você precisa ficar parada – ouço de novo a voz acima de mim segurando meus ombros.
Não sei quem é mas obedeço.
- Estou limpando seu ferimento e controlando a perda de sangue, preciso que fique parada para evitar que piore – explicou.
Sinto minha cabeça acenar fracamente mesmo quando não dei uma ordem consciente ao meu cérebro para isso.
Poderia ter se passado um minuto ou dez e eu não saberia mas sou trazida de volta a superfície quando escuto a voz de novo e penso que é comigo.
- Preciso de noradrenalina -
- O que você está fazendo? – a voz que até agora não tinha sido nada além de profissional parece pela primeira vez alterada quando pergunta isso.
É confuso por que não estou fazendo nada. Estou parada exatamente como orientou.
Bip. Bip. Bip. Bip.
O bipe parece mais rápido, mais urgente.
O padrão se quebra quando ouço um estrondo alto e metálico, sinto que arranha meus ouvidos e me lembra a sensação horrível de um giz riscando a lousa.
- Vamos voltar – diz uma voz distante.
Espero que não volte para onde eu estava, não quero retornar para o lugar que aconteceu algo r**m pra me deixar assim.
Tudo parece confuso quando palavras se sobressaem umas sobre as outras. Escuto sobre doses e remédios que desconheço, protocolos que me são estranhos.
- Carregando –
Muito tempo se passa quando percebo que as vozes se calaram por que o bipe que antes era constante, sequencial agora se alonga em um único e sonoro som.
É um silêncio sepulcral que é, de fato interrompido pelo anúncio da desgraça:
- Hora da morte?
Não sei quem morreu, mas por um breve segundo espero que seja eu... desejo isso.
Sinto tanta dor que a esperança de um fim para isso parece muito tentadora.
Mas penso em Dani, minha mãe, Cris e quero viver por e para elas. As mulheres da minha vida.
O terror me percorre e começo a perceber que a minha hora se aproxima também quando tudo fica preto e perco esse cabo de guerra que estava travando contra a inconsciência.
Vivi a vida inteira em lugar chamado paraíso quando na verdade era o inferno. Espero que onde quer que eu vá não seja enganada de novo.
***
“O inferno são os outros.”
- Sartre
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