Capítulo 8 - Hirin

1063 Palavras
Eles dois saíram da sala me deixando sozinha. Respirei fundo. O cheiro forte de Christiel estava em todos os cantos, era como um manto de luz e relva que se enrolava em meu corpo e para minha surpresa não queria sair dali. Porém, com Wesley em minha cola, as coisas seriam um pouco difíceis. Para suportar isso eu precisava de uma bebida. Me levantei e segui para a sua mesa, passei as unhas sobre a madeira firme e escura, deslizando sobre a superfície devagar. Normalmente os homens guardavam suas bebidas na primeira gaveta da mesa, não pensei muito a respeito. Ao abrir a primeira gaveta tinha uma garrafa de vodka e uma de Whisky. Acertei em cheio. Peguei a vodka e voltei a me sentar no sofá. Em poucos minutos os dois voltaram com uma centena de pastas nos braços. Ainda bem que tinha bebida. — Está bebendo no serviço? — perguntou Wesley, incrédulo. Ele largou as pastas sobre o chão e me encarou como se fosse arrancar a xícara das minhas mãos. — Faça o que está pensando, e a garrafa vai parar contra a sua cabeça. – ameacei sorrindo. Alguém – Christiel – limpou a garganta atrás de nós. — Andou mexendo na minha mesa, senhorita Wylard? – sua voz saiu branda, como se estivesse admirando a ousadia do feito. Ergui o olhar para o seu e sorri. — Eu jamais faria isso. Mas sei que guarda as bebidas na primeira gaveta, todos guardam. A propósito, aquele Whisky é maravilhoso, me chame quando decidir abri-lo. — não sei se colocaria em votação de quem foi o olhar mais espantado. De repente senti uma carícia em minha mente, como se alguém estivesse deslizando para dentro dela. Wesley não tinha esse poder, era notório por seu jeito de agir e de se portar. Embora seu olhar fosse acusatório, não vinha dele. Ambos sentaram e pegaram suas xícaras de café. — Chamarei. Na sexta está bom para você? – foi a minha vez de ficar surpresa. Ergui a sobrancelha em sua direção e sorri descaradamente. — Vou olhar na minha agenda. – ele olhou em minha direção e sorriu. Eu poderia tentar descrever a confusão que aquele sorriso fez em mim, mas as palavras para isso ainda não foram inventadas. Suspirei sem perceber. Wesley pigarreou. — Poupe o esforço, estará trabalhando. – estreitei o olhar para Wesley. Ele percebeu de imediato. – Nada contra a sua vida pessoal, apenas está na escala. — Claro que está. – resmunguei. Não olhei para Christiel depois disso, conversaria depois. Ficamos em silêncio por um tempo, não tinha nada útil nas pastas que Wesley apontou. Estava quase cochilando quando um grito ecoou no lugar. Eu e o Wesley já estávamos de pé engatilhando as armas. Christiel correu para a porta mas Wesley a alcançou primeiro. A secretária, Amber, correu para os braços de Christiel, com as mãos na frente do rosto enquanto chorava. — Quanto melodrama. — resmunguei guardando a arma e passando por eles. Ao lado da sua mesa um corpo tinha sido jogado – melhor, arremessado contra a parede e caído no chão. Não tinha sangue, apenas algumas manchas dele na pele. A perna estava dilacerada, parecia que uma criatura com enormes dentes tinha feito aquilo. Me abaixei perto da mulher. O cheiro não denunciava nenhuma raça que eu conhecesse, porém tinha métodos para resolver esse problema. Olhei por cima do ombro onde Wesley estava parado, tenso, olhando para o corpo da mulher como se fosse arrancar um pedaço e sair caçando o assassino em sua forma bestial. — É melhor chamar a perícia. Esse corpo deve estar sendo guardado há uns dois dias, logo vai entrar em decomposição há um nível que não iremos conseguir nada. – comento calmamente para ele, o tirando daquele transe que tinha se enfiado. Não foi uma ordem para ele, nunca faria algo do tipo, mas fez com que ele se movesse do lugar e puxasse o telefone do bolso, já ligando para alguém que no momento não me importava. Meus olhos não saíam da cena. Iria mandar alguém mais calmo conversar com Amber depois, tomar o seu depoimento sobre o que tinha acontecido aqui. Por enquanto minha cabeça maquinava uma cena para aquilo, meu olhar ia da porta de entrada para a parede e em seguida para a janela quebrada do outro lado. E foi ao encarar a janela que me deparei com a cena da Amber e Christiel. Me forcei a desviar o olhar quando Wesley voltou da ligação. — Eles já estão a caminho. Tem alguma ideia do que pode ter feito isso? — ele questionou fechando as mãos em punho e observando o corpo no chão. — Na verdade, tenho algumas suspeitas, mas não posso afirmar nada de imediato. Preciso de um tempo. – ele assentiu e respirou fundo virando o rosto em minha direção, o movimento foi mais para fugir da visão a sua frente do que realmente para olhar para mim. — ... sobre o que eu falei na sala... – estendi a mão à frente para que ele parasse. — Eu já sei. Estava evitando que eu transasse no local de trabalho. – brinco e pela primeira vez vejo uma risada de Wesley, baixa, contida e grave. Mas era uma risada verdadeira. Ele anuiu. — Isso também. Mas estava falando sobre não confiar em você. Sou uma pessoa complicada, apenas tenha paciência. – ele pediu se inclinando um pouco em minha direção para sussurrar. — Vai pegar o depoimento da Amber? — Vou cortar fora a língua dela se tiver que ouvi-la falar novamente. – abano a mão sobre o ombro. — Mande um dos cãezinhos fazerem isso. — Está falando do Jonathan, ou do Leviatã? – ele questionou, ainda no tom de sussurro, como se estivéssemos discutindo quem protagonizaria o fim do mundo. — Dou um no outro, e não quero torna. – ele concordou com um aceno. A perícia chegou, enfaixando o local e cuidando de tudo na cena de desova. Amber foi forçada a tomar água com açúcar por uma das empregadas do lugar, foi isso que fez ela se desvencilhar do prefeito, que praticamente correu em nossa direção mas foi barrado por uma policial antes que pudesse atravessar a faixa. Apenas pelo olhar dele o capitão já sabia o que dizer. — Manteremos você informado. Isso teve que bastar.
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