A vida sempre tem reviravoltas, a alegria da família Sales durou apenas 6 meses, Rafael se foi tragicamente no que parecia um assalto, o luto de Marcela machucava Ítalo, ele passou a cuidar da mãe e da irmã, parecia que estava revivendo as memórias tristes da primeira infância.
Ele passou a pagar as contas, cuidar da casa, até tentava fazer comida, mas nisso não era muito bom. Ele havia acabado de completar 11 anos.
— Senhora Marcela, estou indo pra escola, vou deixar a Meg na creche.
Marcela estava deitada, seus olhos indicavam que tinha chorado, faziam 2 meses da morte do marido e ela m@l saía do quarto.
Ítalo sempre teve problemas na escola, sua inteligência era motivo para os garotos não gostarem dele. Depois da aula ele passou na creche e pegou a irmã.
— Menino, você de novo? Eu sei que sua mãe está em luto, mas é perigoso, estou deixando uma criança com outra criança. — Disse a professora de Megan.
— Eu farei ela vir aqui, estou tentando ao máximo.
— Tudo bem, mas direto pra casa!
— Sim, senhora. — Ítalo disse e pegou a irmã nos braços.
Ítalo não aguentava carregar a irmã por muito tempo, ela já estava com 3 anos, ele preferia que ela andasse, mas a menina era lenta e ele acabava demorando muito pra chegar em casa. Quando estava quase na rua de casa notou que alguns colegas da escola estavam o seguindo.
— E aí nerdezinho!
— Olha lá, ele pensa que é gente grande!
— Não é aquele idiot@ que gosta de humilhar todo mundo?
Ítalo se sentiu encurralado, pegou Megan nos braços e tentou andar mais rápido, ele apenas sentiu o impacto em suas costas e o chão se aproximando.
— Meg, Meg! Fala comigo!
Os meninos viram que havia acontecido algo grave com a bebê e correram. Ítalo não sabia o que fazer.
Duas senhoras estavam passando e viram o ocorrido.
— Aquele não é o filho do médico que morreu?
— Acho que sim, fique aqui com ele, vou ver se mãe está em casa.
Minutos depois Marcela chegou.
— Ítalo, o que aconteceu?
— Me desculpa senhora, eu caí em cima dela.
Marcela chamou uma ambulância e foram para o hospital, Ítalo ficou agarrado a ela, enquanto a menina era tratada, ela acordou ainda na ambulância.
Minutos depois o médico disse que a bebê estava bem, mas ficaria em observação.
— Senhora Marcela Sales?
— Sou eu!
— Sou a doutora Patrícia do conselho tutelar, podemos conversar?
— Sim, pode falar.
— Senhora, sabemos das condições da adoção e que hoje é viúva, acha que ainda pode cuidar das crianças sozinha? Tenho aqui alguns relatos de que o menino tem andado sozinho e é até ele que leva e busca a menina na creche e que a senhora nem voltou a trabalhar.
Marcela não sabia o que dizer, só se perguntava como deixou as coisas chegarem a esse ponto, sentia falta de Rafael, mas tinha que ser a mãe que se propôs a ser.
— Reconheço que errei, prometo que não vai se repetir. Sou a mãe deles e vou me portar como tal.
— Bom senhora, falar é muito fácil, será reavaliada, se por acaso acharmos que não pode cuidar deles voltarão para o abrigo.
Marcela olhou para Ítalo, seus olhos estavam desesperados, Marcela estava se sentindo culpada e agora poderia perder as crianças. A assistente do conselho saiu e Marcela desabou na cadeira e começou a chorar, achava a vida sozinha dura demais.
Ítalo a abraçou chorando também.
— Mãe, não chore, não gosto de vê-la triste! Se me levarem eu fujo, fujo de qualquer lugar com a Meg e voltamos pra você!
— Ítalo, como me chamou?
— De mãe, você é minha mãe, minha e da Megan.
Marcela recebeu ali o impulso que precisava para voltar a viver.
No dia seguinte Megan teve alta e Marcela começou a cuidar de tudo, foi na escola para reassumir seu lugar, levou Megan na creche e Ítalo para escola. Cuidou da casa e fez uma refeição decente para as crianças.
— Bom dia mãe!
— Bom dia meu filho. — Ítalo a chamar de mãe, aquecia seu coração, já faziam 5 meses dessa rotina.
— Filho, hoje você irá sozinho para escola, a Meg está com gripe, não posso mandá-la assim são as regras da creche.
— Tudo bem, mãe. A escola é perto.
Ítalo foi andando e reparou em um carro preto que o seguia. Pensou ser coincidência, mas não era a primeira vez que tinha a impressão de ser seguido.
Na volta ele viu um carro parado na porta da escola, pensou ser o mesmo da manhã e do outro dia, notou que o carro o seguia de longe, ele deu uma volta no quarteirão antes de entrar na rua de casa. Parecia ter adiantado. Ítalo fez isso a semana toda.
Era quinta-feira e ele estava feliz, no fim de semana ficaria trancado em casa, só precisava aguentar mais dois dias, como Megan não melhorava da gripe ele foi sozinho para a escola a semana toda.
Quando saiu se sentiu feliz, Marcela estava na porta sorrindo com Megan nos braços.
— Mãe, veio me buscar?
— Claro, levei a Meg no médico ela está melhor, então resolvi te buscar antes de ir pra casa.
Ítalo a abraçou e aproveitou para olhar em volta. No ângulo que estava não viu nenhum carro, ficou aliviado.
— Vamos?
— Sim, vamos mãe.
Eles começaram a andar e Ítalo esqueceu a preocupação. Enquanto isso no carro.
— Alô chefe, pela primeira vez essa semana a moça que cuida deles saiu de casa, estava com a menina. Tenho que dizer é uma moça bonita, uma das mais belas que já vi.
— Lucius, eu quero meus filhos, essa é a sua missão.— Ah Carlos, já estou cuidando disso, estou apenas comentando, se eu pudesse levaria a moça pra mim.
Carlos riu do outro lado da linha, não pensava que Marcela poderia ser isso tudo.
— Lucius, até amanhã! Você tem só até amanhã.
— Sei o que fazer, Carlos! amanhã conhecerá seus filhos, uma pena eu não ver mais a moça.