Olivia

1473 Palavras
Olivia O som do despertador me tirou dos sonhos, anunciando que já era hora de começar o dia. Estendi a mão e o desliguei, tentando me acostumar à luz que entrava pela fresta da cortina. Suspirei, sentindo uma mistura de ansiedade e alegria. Hoje era o grande dia. Me levantei, ainda meio sonolenta, vestindo apenas calcinha e sutiã. Caminhei até a janela, abrindo-a para deixar o ar fresco da manhã entrar. Atrás de mim, José Henrique, meu noivo, virou-se na cama e me observou com aquele sorriso preguiçoso. — Bom dia, meu amor. — Ele murmurou, com a voz ainda rouca de sono. — Já está de pé? — Sim. — Respondi, enquanto me alongava. — Hoje é o dia em que vou buscar minha filha no aeroporto. Depois de 20 anos, finalmente consegui trazê-la para morar comigo. Minha voz quase falhou ao dizer isso. Era surreal pensar que, depois de tanto tempo, Yasmin estaria sob o meu teto. José Henrique se sentou na cama, esfregando os olhos antes de me encarar com um olhar compreensivo. — Eu sei. Você já me disse isso pelo menos umas mil vezes nos últimos três meses. Sorri sem jeito. Ele não estava exagerando. Yasmin era tudo em que eu conseguia pensar ultimamente. — E quando eu vou poder conhecê-la? — ele perguntou, inclinando a cabeça. — Ainda não sei. — Respondi, andando até o espelho para ajeitar meu cabelo loiro. — Quero que tudo seja perfeito. Apresentar o meu futuro marido para a minha filha não é algo que eu posso fazer de qualquer jeito. Ele balançou a cabeça, sorrindo. — Tudo bem, Olivia. Eu espero. Até você achar o momento certo. Aquelas palavras me aliviaram. José sempre soube ser paciente comigo, mesmo quando eu era indecisa sobre certas coisas. Caminhei até o banheiro, ligando o chuveiro e ajustando a temperatura para um banho rápido e gelado. A água fria despertou meus sentidos e clareou meus pensamentos. A ansiedade ainda estava lá, mas agora acompanhada de uma determinação renovada. Terminei de me arrumar rapidamente, vestindo uma calça social bege e uma blusa branca de seda. Amarrei o cabelo em um coque baixo e passei um pouco de maquiagem, apenas o suficiente para parecer composta. Ao descer as escadas, o cheiro de café recém-passado tomou conta da cozinha. José já estava lá, com um sorriso no rosto e uma xícara nas mãos. — Você vai ser incrível, sabia? — ele disse, estendendo a xícara para mim. — Espero que sim. — Peguei o café e tomei um gole, sentindo a energia começar a voltar. Hoje era o começo de um novo capítulo, não só para mim, mas para Yasmin também. Era hora de recuperar o tempo perdido. Aquele café preto forte era o que eu precisava para manter a clareza nesta manhã. Peguei minha bolsa e dei um beijo rápido no rosto de José Henrique. — Volto mais tarde. Hoje é o dia. — Disse, tentando controlar o tremor na voz. Ele sorriu com aquele jeito compreensivo de sempre. — Boa sorte, meu amor. Vai dar tudo certo. Assenti, agradecida por ele estar na minha vida. Desci pelo elevador elegante do prédio, o som abafado das portas metálicas me acompanhando. Assim que alcancei a garagem, entrei no meu carro esportivo preto e ajustei os espelhos. Inspirei fundo, tentando acalmar o turbilhão de emoções. Era hora de buscar Yasmin. Enquanto dirigia pelas ruas movimentadas da cidade, pensamentos do passado vieram como uma avalanche. Eu tinha apenas 18 anos quando tudo começou. Era jovem, ingênua e cheia de sonhos. Foi então que conheci Josias. Ele era um homem de 30 anos, charmoso e sexy, com uma presença que fazia qualquer um se sentir especial. Eu me apaixonei perdidamente. Ele parecia perfeito aos meus olhos, e eu, tão inocente, não percebia os sinais de alerta. Para ele, eu era só uma diversão, alguém para preencher as lacunas da vida de casado que ele escondia tão bem. Foram poucos meses de encontros apaixonados, mas logo a realidade bateu à porta: descobri que estava grávida. Lembro-me do dia em que fui contar a ele. Estava nervosa, mas esperançosa. Talvez ele fosse assumir a responsabilidade, ser o homem que eu achava que ele era. Mas, ao invés disso, ele me revelou a verdade c***l: ele era casado. A partir dali, meu mundo desabou. A gravidez foi um período de incerteza, cheio de julgamentos e solidão. Quando Yasmin nasceu, eu acreditava que, apesar de tudo, ela seria minha fonte de força. Mas o inferno só estava começando. Josias e sua esposa descobriram sobre a criança. Sua mulher, incapaz de ter filhos, viu Yasmin como a solução para seus problemas. Eles iniciaram um processo judicial contra mim, alegando que eu não tinha condições de criar minha filha. Não era mentira: eu era jovem, sem apoio dos meus pais, que haviam me renegado ao descobrirem que fui amante de um homem casado. Perdi a guarda de Yasmin. Fui obrigada a assistir enquanto ela era levada para viver com eles. A dor daquele momento ficou marcada em mim como uma cicatriz invisível, mas presente. Decidi que nunca mais seria fraca. Usei a raiva, a tristeza e o desespero como combustível para me reconstruir. Trabalhei incessantemente, estudando moda e negócios até construir minha própria marca. Anos de dedicação me levaram ao topo, e hoje sou a CEO de uma das empresas mais influentes do ramo. Mas todo esse sucesso sempre teve um propósito maior: recuperar minha filha. Desde o momento em que a perdi, prometi a mim mesma que, um dia, ela estaria comigo novamente. E hoje é esse dia. Olhei pela janela do carro enquanto me aproximava do aeroporto. Cada quilômetro me fazia reviver um pouco mais da dor do passado e do esforço que foi necessário para chegar aqui. Yasmin, minha filha, finalmente estaria ao meu lado. Sei que ela carrega mágoas. Não posso culpá-la. Do ponto de vista dela, eu a abandonei. Como poderia entender que eu fui forçada a deixá-la? Mas agora, tenho a chance de corrigir tudo. Quero mostrar a ela que sou forte, que lutei por nós duas, e que estou aqui, disposta a construir uma relação, apesar de tudo. Estacionei o carro no terminal e respirei fundo antes de sair. O coração estava acelerado, mas dessa vez era de expectativa, não de medo. Peguei minha bolsa, ajeitei o blazer impecável e caminhei com passos firmes. Hoje, Yasmin finalmente voltará para casa. E, pela primeira vez, eu realmente terei uma chance de ser a mãe que sempre quis ser. Entrei no aeroporto e me vi rodeada pelo som de malas rolando pelo chão e vozes ecoando. Meu coração estava disparado. Finalmente, depois de tantos anos, minha filha estava voltando para mim. Caminhei em direção ao portão de desembarque com passos firmes, tentando ignorar a ansiedade que subia pela minha garganta. O tempo parecia arrastar-se. Olhei para o relógio pelo menos umas dez vezes nos vinte minutos que se passaram. E então, finalmente, eu a vi. Yasmin. Meu coração deu um salto quando a avistei, puxando suas malas e parecendo cansada. Caminhei até ela, sentindo uma mistura de felicidade e nervosismo. Quando cheguei perto o suficiente, abri os braços e a envolvi em um abraço apertado. — Yasmin! — exclamei, segurando-a como se temesse que ela fosse desaparecer. Ela retribuiu o abraço, mas de maneira contida, quase como se estivesse cumprindo um protocolo. — Oi, Olivia — respondeu, com aquele tom casual que eu já conhecia. O coração apertou um pouco, mas não deixei isso transparecer. Respirei fundo e tentei manter a leveza na conversa. — Está com fome? — perguntei, sorrindo, tentando quebrar aquele gelo invisível entre nós. Ela assentiu, ajeitando o cabelo loiro que caía sobre o rosto. — Um pouco. — Ótimo! Vamos encontrar o melhor restaurante que pudermos. Quero que tenha uma boa refeição. — Sorri, mas sua expressão não mudou muito. Ajudei-a com as malas e seguimos para o estacionamento. Coloquei sua bagagem no porta-malas do carro e notei seu olhar distante enquanto ela entrava no veículo. — Então, o que você quer comer? — perguntei, tentando parecer animada enquanto dirigia para fora do aeroporto. — Qualquer coisa está bom. Havia algo em sua resposta que me preocupou. Parecia que ela estava simplesmente exausta, mas talvez fosse mais do que isso. Eu não a culpo por estar desanimada. Depois de tudo o que ela passou, não seria fácil se ajustar a essa nova vida comigo. Resolvi suavizar o clima. — Que tal churrasco? Vamos a uma das melhores churrascarias daqui. Ela deu de ombros, olhando pela janela. — Tá bom. Respirei fundo, mantendo o sorriso no rosto enquanto dirigia. Tinha duas horas de viagem pela frente, e meu objetivo era simples: conquistar pelo menos um pequeno espaço em seu coração. Mesmo que fosse um passo de cada vez.
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