Capítulo 10 - part 1

4837 Palavras
Acordei com a cabeça pesada e o mundo girando ao meu redor. Sorri, pensando que metaforicamente o mundo sempre havia girado ao meu redor. Minha tontura agora vinha apenas para confirmar aquele fato. - Qual é a graça? – perguntou uma voz a meu lado. Abri os olhos de vez. O mundo, porém, estava fora de foco. Virei a cabeça de leve mesmo assim. Senti um enjôo tremendo. Vi a silhueta borrada de Harry sentado em uma cadeira de hospital desconfortável. Que ótimo. Eu estava em St. Mungus. - Sabe onde está? – ele perguntou, caminhando até mim. Interessante. Harry estava preocupado com o meu bem estar? Sorri novamente. Pude ver que ele estava um tanto confuso e irritado. - Malfoy, você está bem? Será que as drogas foram fortes demais? Quis rir. Antes que eu dissesse algo, porém, escutei a voz de Astoria ao fundo. - Ele acordou? Como ele está? Fiz uma careta. Tudo o que eu não queria era Astoria e Harry no mesmo aposento. Astoria sabia demais. Tinha medo de que ela deixasse escapar alguma coisa para Harry. Era pouco provável dada a sua natureza tão discreta, mas era melhor prevenir. - Acho que ele está com um parafuso a menos. Ah, espere, ele sempre foi assim... – disse Harry com um sorriso escarninho. - Hahaha, Potter. – disse numa voz tão rouca que nem parecia minha. - Vou chamar o curandeiro. – disse Astoria. - Não precisa... – tentei dizer. Mas ela já havia deixado o quarto. O mundo começava a entrar em foco. Vi com grande nitidez o olhar zangado de Harry. Estremeci de leve. - O que foi agora? - Como Auror Chefe, é meu dever informá-lo de que está preso por ter me atacado. – ele começou. Fiz uma careta. – Infelizmente, sua mulher já pagou a fiança. Deve, no entanto, comparecer ao tribunal bruxo na data marcada para responder à acusação de n. 138. Vou recomendar ao tribunal que lhe sentencie à prisão domiciliar. - Isso é alguma piada? – perguntei. Prisão Domiciliar? Como se eu saísse muito de casa. – Ah, entendi... Quer com isso evitar que eu vá atrás de você na sua procura pelo Livro dos Mortos. Harry suspirou e fechou o cenho. Não sei por que estava tão zangado. Nenhum dos meus feitiços havia lhe afetado em nada. Tudo o que eu conseguira fazer com meu ataque de nervos fora danificar antigos pergaminhos de família... Algo que meu pai me mataria se soubesse. - Não é piada, Malfoy. Sua mulher me contou que seu curandeiro o proibiu de usar magia pesada. Não sabe que pode drenar todas as suas forças de tal forma que nunca mais venha a se recuperar? Pode perder toda a sua magia! Ah, eu sabia muito bem daquilo. Evitava pensar nisso, era verdade. Eu vinha perdendo meus poderes há muito tempo. Ninguém realmente sabia por quê. Eu tinha uma teoria. Meu psiquiatra também. Naquele momento, contudo, não estava muito a fim de análises. - Foi culpa minha? – ele perguntou quase me fazendo ter um ataque do coração. – Foi porque eu tirei sua varinha de você há tanto tempo? Por um acaso ficou traumatizado? Eu ainda a tenho. Posso devolvê-la. Ou eu posso deixar você simplesmente a tomar de volta se isso for ajudar de alguma forma. Harry Potter sendo tão solícito não era nada comum. Na verdade, era meio que horripilante. Por um instante, imaginei se não estava dormindo, ou se os remédios estavam me fazendo alucinar. Limpei a garganta. - Embora eu realmente sinta falta da minha antiga varinha, - comecei em voz baixa. - o que aconteceu tanto tempo atrás não tem nada a ver com o meu estado agora. - Não mesmo? Ah. Que estranho. Eu havia pensado exatamente aquilo. Será que não tinha nada mesmo a ver com Harry Potter? Eu achava que tinha tudo a ver. Mas se eu admitisse isso em voz alta, mudaria alguma coisa? Não creio. Ver Harry se preocupar comigo, porém, me deixou mais feliz. Meu coração se encheu de esperança. Era ridículo, mas impossível de evitar. - Não seja tão convencido. Nem tudo tem a ver com você. – eu disse. E se ele dissesse novamente 'não mesmo?' eu iria juntar o resto de minhas forças para mandá-lo para o espaço. Harry não disse nada, no entanto. Só ficou me olhando, tentando saber o que se passava comigo. Ele me olhava como se nunca tivesse me visto antes, como se eu fosse um mistério a ser resolvido. O grande Harry Potter estava confuso, e eu era a razão. Senti-me realizado. Então me dei conta de algo espetacular. - Ainda tem a minha varinha? – perguntei. Ele deu de ombros como se não fosse importante. O desgraçado. - Achei que fosse se livrar dela. – insisti. - E por que faria isso? É uma boa varinha. - Não precisa dela. Foi impressão minha ou Harry ruborizou? Fiquei de olhos bem abertos. Meu coração dava saltos olímpicos. - Isso importa? Já disse que posso devolvê-la. – ele falou tentando aparentar indiferença. Era uma oferta tentadora. Eu sentia mesmo falta da minha antiga varinha. A primeira varinha era inesquecível. Era a que mais espelhava a alma de um bruxo. Que ela tenha ido parar nas mãos de Harry com tanta facilidade, e tenha se subordinado a ele como um cachorrinho fiel era mais do que coincidência. Talvez minha varinha tivesse que ser dele. Talvez... Minha varinha fosse minha declaração de amor. Será que ele não conseguia perceber isso? Quis dar uma gargalhada. Harry me olhou com desconfiança. - Talvez eu a queira de volta. – disse olhando para o outro lado. Não queria que ele visse o brilho nos meus olhos. - Ótimo. - Ótimo. Silêncio. Do lado de fora pude escutar os passos dos curandeiros. Achei que alguém entraria no quarto, mas nada aconteceu. Ficamos só eu e Harry naquele silêncio avassalador. - Eu... – dissemos ao mesmo tempo. Sorri. Vi os lábios de Harry se abrirem um pouco, mas ele os fechou rapidamente, como se tivesse medo de que eu o interpretasse m*l. - Como espera ir comigo atrás do livro nesse estado? Não tenho vocação pra babá de marmanjo, Malfoy. Além disso, isso é assunto do meu Esquadrão. Você não é um Auror. - Eu sei. Mas eu quero ajudar. Sei que você não acredita nisso... - Não sei mais em que acreditar. – ele me interrompeu. – Mas sei que vai me ajudar muito mais se ficar quieto no seu canto. - Isso está fora de cogitação. – disse imediatamente. Harry respirou fundo. Provavelmente estava contando até dez também. - Vou partir para o Egito dentro de uma semana. - Eu vou junto! - Como? – ele deu um sorriso enviesado. – De maca e com um soro atrelado ao braço? Dei de ombros. - Estarei recuperado até lá. - Se vier atrás de mim eu juro que te mato eu mesmo. Sorri. - Promessas vãs... Você teve várias oportunidades no passado... Além disso, se realmente quisesse que eu ficasse quieto no meu canto, não teria me dito sobre seus planos. Ele me pareceu levemente surpreso, como se só naquele momento tivesse se dado conta do lapso que cometera. Sorri ainda mais. Meu sorriso o pegou desprevenido. Harry não soube o que dizer. - Você é... – ele começou, mas não terminou. Fomos interrompidos pela chegada do curandeiro, de Astoria e de Angel e Alfred. Sempre éramos interrompidos nos momentos mais cruciais. Droga. Esqueci-me um pouco de Harry quando Angel veio se postar ao meu lado com o olhar preocupado. Acariciei seu rosto de leve. - Eu estou bem. – disse. - Não diria bem isso. – disse o curandeiro ao me examinar. Fulminei-o com o olhar. O homem apenas riu. – Mas nada que um bom descanso não cure. O Sr. Potter vai ter que esperar um pouco se quiser levá-lo para a prisão. Foi uma brincadeira sem graça. Angel e Alfred arregalaram os olhos de preocupação. Fiquei tocado que até mesmo Alfred estivesse preocupado com o meu bem estar. - Malfoy não será preso. Nós temos um encontro marcado no tribunal para resolver o assunto. – Harry se apressou a dizer ao ver o rostinho preocupado de Angel. Dei uma risada. - Um encontro, Potter? Dessa vez Harry realmente corou. Resmungou algo e se retirou do quarto. O curandeiro também se foi, depois de me informar sobre o poder do descanso, e me receitar algumas poções. Meu curandeiro particular não se encontrava no hospital, mas entraria em contato assim que fosse possível. Astoria pegou na minha mão e a apertou. - Você nos deu um susto. O que estava pensando? Seu rosto bonito estava levemente contorcido de medo. Senti-me culpado por preocupá-la. - Eu não estava pensando... - Você vai ficar bem? – perguntou Angel olhando-me em expectativa. - É, seu i****a. Meu irmão ficou preocupado. – disse Alfred mais agressivo. - Não seja rude, pirralho. – ralhei. – E sim, eu vou ficar bem. Espero que não tenha dito nada a Scorpius. - disse olhando para Astoria. - Não. Mas ele mandou uma carta. Está indo muito bem em Hogwarts. – ela sorriu. Meu coração ficou mais leve ao ter notícias de Scorpius. Como eu sentia falta do meu pequeno. Talvez fosse uma boa ideia visitá-lo antes de partir para o Egito. Eu não tinha tempo, porém. Além disso, Scorpius provavelmente suspeitaria de alguma coisa se eu aparecesse por lá sem razão aparente. Os pais não costumavam ir a Hogwarts à toa. Fui convencido por todos a ficar de cama. Passei dois dias no hospital. Quando voltei para a casa, recebi mimos de todos os lados. Foi deveras interessante, e confesso que gostei de ser o centro das atenções. Até mesmo meus cachorros pareciam mais atenciosos, como se pressentissem que logo ficariam sem o dono. Passamos a tarde no gazebo observando a algazarra de Porthos, Athos, Aramis e D'artagnan. O clima estava agradável e o céu maravilhosamente azul. Confesso que me diverti a beça com Angel. O garoto era mesmo especial. Seu jeito meigo havia conquistado a todos, até mesmo o mais ranzinza dos Aurores. Os elfos também haviam sido fisgados. Inclusive, passavam grande parte do tempo ajudando Astoria a tomar conta dele, já que a carinha de anjo escondia um moleque um tanto arteiro. Sorri ao ver Angel brincando com Porthos e Aramis. Como era bom ser criança. Logo em seguida, senti um aperto no peito ao pensar que, há pouco tempo, Angel estivera morando nas ruas de Londres com o irmão, amparados apenas por jovens revoltados e sem perspectivas de vida. Senti vergonha da minha própria infância mimada. - Vai mesmo nos adotar? – perguntou Alfred tirando-me do devaneio em que me encontrava. Olhei para ele quando respondi: - Dei minha palavra, não foi? - Por pena? – ele rebateu em tom jocoso. Pude ver, no entanto, que era apenas seu mecanismo de defesa. - Malfoys não sentem pena de ninguém. Vai acabar aprendendo, já que vai se tornar um. Ele me encarou como se eu estivesse delirando. Talvez fosse verdade. - Vou ser um Malfoy? Dei um sorriso não muito bonito. Tempos atrás ser um Malfoy era ser tudo. Agora... - Não é esse o propósito de uma adoção? Entrar pra família? Seu semblante emburrou. Ele cruzou os braços e desviou o olhar para o irmão. - Só estou perguntando... No começo achara Alfred muito parecido com Harry. Agora, porém, começava a mudar de ideia. Aquela pose irritante, as defesas que construíra ao seu redor para não se machucar e a atitude arrogante eram todas minhas. Os cabelos que deveriam ser castanhos como os do irmão eram de um loiro pálido, como os meus. Ele os descolorira provavelmente num ato de rebeldia. Será que ele realmente não era meu filho? Dei uma risadinha. - Qual é a graça? – ele perguntou quase num rosnado. - Somos muito parecidos. Ele arqueou as sobrancelhas. - Somos? Como assim? – havia um quê de dúvida em sua voz. - Eu também fui um adolescente bastante arrogante. - Não sou arrogante! – Alfred imediatamente se defendeu. - É claro que não. Mas é a imagem que passa para os outros. No fundo tem apenas medo. Ele bufou. - Medo? Não sei do que está falando. Não tenho medo de nada. Sorri enviesado. O gritinho de felicidade de Angel desviou nossa atenção por um momento. Depois ouvi Alfred perguntar como se não fosse importante: - Você tinha medo? Suspirei. De que adiantava mentir àquela altura da vida? - Tinha. - De quê? – podia sentir a curiosidade intensa no tom de voz. - Da vida... – e de Harry Potter. – Eu fui criado para mandar nas pessoas, não para confiar nelas. Potter foi o primeiro a me desafiar, o primeiro a questionar o meu modo de ver o mundo... Minha mente foi reportada àquele dia fatídico quando tive minha amizade desprezada por aquele que viria a ser o meu mundo a partir de então. - Você confia nele. – foi um fato, não uma pergunta. Fechei os olhos. Eu não confiara em Harry, mas quisera muito. Agora ele me tinha nas mãos. - Não é fácil confiar nas pessoas, mas Potter é alguém que estenderia a mão até para um inimigo. Pode confiar nele. - Ele é um i****a então... E não confio em idiotas. Seguindo o raciocínio eu também era i****a. Como se o fato fosse novidade... Ouvir aquilo da boca de um pirralho me irritava. O chá da tarde transcorreu tranquilamente. Os elfos trouxeram uma porção de pães e bolos diferentes para o deleite dos olhos infantis de Angel – e também dos desconfiados olhos castanhos de Alfred. Fingi não ver Angel e Alfred alimentando os cães com guloseimas por debaixo da mesa. Crianças sempre seriam crianças. Voltamos para casa todos juntos. Angel, que perdera grande parte da timidez, falava sem parar sobre suas aventuras ao redor da Mansão – aventuras essas que eram sempre vigiadas por um ou dois Aurores, e também por Astoria. Pelo canto dos olhos vi Alfred sorrir na direção do irmão, o semblante suavizado. Ao chegar à porta dos fundos, porém, seu semblante fechou-se. Acompanhei seu olhar. Harry estava ali. - Pensei que estivesse descansando, Malfoy. – a voz foi ríspida. Franzi o cenho. - Ah, não sabia que você tinha virado meu enfermeiro particular, Potter. – provoquei. A expressão em seu rosto foi impagável. Tive vontade de provocá-lo ainda mais, de deixá-lo fulo da vida, e depois enchê-lo de beijos. Como um adolescente apaixonado. Que ridículo, Draco. Ainda bem que ninguém ali podia ouvir meus pensamentos. Eu ainda estava abalado pelo nosso quase-beijo. Naquele breve instante em que nossos lábios se encontraram, eu conhecera o paraíso. Minha boca ainda queimava ante a lembrança, imaginando como seria beijar Harry com intensidade, sentir sua língua roçar na minha, abraçá-lo. Paraíso ou inferno? - Achamos que um pouco de ar fresco lhe faria bem. – disse Astoria sempre solícita. – E fez não é? Draco está com o rosto mais corado, não acha? Harry olhou para Astoria como se não estivesse acreditando na pergunta feita a ele. Acho que Astoria sempre conseguia surpreender Harry. - Ele se parece menos com um fantasma agora. – foi o comentário de Alfred. Da maneira dele, Alfred estava tentando ser gentil. Escondi um sorriso. - Precisamos conversar. – disse Harry, dirigindo-se a mim. - E quanto ao meu descanso? - Nossa conversa não vai demorar muito. Minha preocupação era se conseguiria ficar no mesmo aposento que Harry, a sós, sem ter um ataque cardíaco. Parte de mim tinha medo. A outra parte estava mais do que ansiosa para fechar as portas da sala de estar onde eu normalmente recebia visitas e encarar os olhos verdes. Astoria, os meninos e os cães foram para um lado. Harry e eu para o outro. Finalmente sozinhos, respirei fundo para me manter calmo. Não adiantou. Meu coração batia forte no peito. Seria difícil me controlar perto de Harry. Era quase impossível permanecer impassível diante dele. Principalmente agora que crescia dentro de mim a esperança de que Harry não fosse assim tão indiferente quanto eu pensara. Talvez ele só estivesse curioso. Meu desejo por ele ficara claro aquele dia na sala secreta. Quem sabe o que se passava pela sua cabeça. O agravante não era apenas o desejo proibido entre dois inimigos, mas também o fato de ambos sermos casados e termos filhos. Decididamente, uma péssima idéia. Imaginei como seria a vida de casado de Harry. Ele e Gina sempre haviam me dado a impressão de família perfeita, do tipo que te faz querer vomitar. Será que não era verdade? - As coisas se complicaram um pouco... – Harry começou. Ah, sim, as coisas entre nós estavam muito complicadas. Mas desde quando aquilo era novidade? - A dura realidade neste momento é que eu preciso de você. Hein? Meu coração quase pulou pra fora. Acho que minha alma saiu do corpo por um momento, talvez para tentar assimilar o que ele acabara de dizer. Por isso, acabei perdendo o resto do discurso, e só voltei a mim quando Harry me encarou bastante zangado e disse: - E então? - Então o que? – perguntei levemente atordoado. Droga. O suspiro que Harry deu continha toda a sua impaciência para com a minha pessoa. - Acha que consegue se recuperar até o final da semana? Minha confusão devia estar mais do que estampada em meu rosto, pois Harry continuou ainda mais irritado: - Escutou uma palavra do que eu te disse? Que droga, Malfoy! Isso definitivamente não vai dar certo! – Harry começou a andar de um lado para o outro. – Não fiquei nada feliz em saber que preciso da sua ajuda para colocar as mãos no Livro dos Mortos. Mas o que é que se há de fazer? Hermione foi bem clara. Somente o sangue de um Malfoy pode abrir a Câmara onde o livro se encontra, e pode quebrar a maldição que paira sobre ela. Qualquer outro que tentar será pulverizado. Provavelmente no sentido literal. Eu disse que não tinha medo, e que você não está em condições de... - Espere um pouco! – minha mente estava num turbilhão. Sentei-me e olhei para o chão, mas meus olhos estavam perdidos em outro lugar. Engoli a seco. Harry Potter precisava de mim, porque só um Malfoy podia colocar as mãos no Livro dos Mortos sem ser fulminado? Meus olhos se voltaram para ele arregalados. Um sorriso torto apareceu em meus lábios antes que eu pudesse me conter. - Malfoy... - Então é por isso que precisa de mim? – havia vitória na minha voz trêmula. Meus olhos provavelmente lançavam raios de satisfação para todos os lados. Aquele era meu momento de triunfo. Tudo bem. Harry Potter não precisava de mim como eu precisava dele. Mas ele precisava da minha ajuda. Já era um grande passo. Será que eu conseguiria conter a grande felicidade que parecia querer exalar do meu peito? - Realmente não escutou uma palavra do que eu disse antes, não é? Decididamente não. Mas o que é que ele esperava? Escutar Harry Potter dizer que precisava de você deixava qualquer um atordoado. - Pode começar tudo de novo? Eu... me distraí. Harry fez uma careta. - O material confiscado da sua sala secreta, ou o pouco que restou depois do seu chilique, nos ajudou bastante. Então eles realmente haviam confiscado tudo. Os bastardos. Astoria havia escondido aquele fato de mim. Não fiquei nada contente com aquilo. Meu pai ficaria ainda menos. -... Havia outras cartas trocadas entre seu avô e Diggus Clark. Numa delas Clark descobriu como tirar o Livro dos Mortos de seu esconderijo no Egito, e exigiu a presença de seu avô, o único que poderia abri-lo. O Livro foi deixado lá por outro Malfoy, e a magia n***a utilizada para protegê-lo só poderia ser quebrada por um Malfoy. Seu avô, porém, descobriu que Diggus não era o respeitável curador bruxo que ele havia pensado, e acabou desfazendo a sociedade... - Ele mandou matar Diggus, não é? – perguntei mesmo já sabendo a resposta. - É. Você parece conhecer bem a família que tem. Tive vontade de mostrar o dedo do meio a Harry, mas me contive. Seria deveras infantil. - Descobriu tudo isso por meio de cartas? – perguntei desconfiado. - Lógico que não. Lembre-se de que eu estou investigando o caso. Existem apenas suspeitas de que seu avô mandou matar Diggus. Não há provas contundentes. Também não há provas de que seu avô colocou os pés no Egito depois disso. Provavelmente, ao descobrir a reputação de Diggus, seu avô decidiu que não valeria a pena ir até o Egito atrás de algo que poderia não ser verdade. Diggus só estava atrás do dinheiro de Abraxas Malfoy para uma expedição que poderia ser uma farsa bem arranjada. - Mas se era uma farsa, então por que...? - Por que pouco antes de seu avô contrair a Varíola de Dragão, ele recebeu novamente notícias da Câmara, desta vez de uma fonte bastante confiável. O curador bruxo do museu do Cairo, Illius Mubarak, mandou notícias sobre a Câmara, mas não especificou o que tinha dentro dela. Só que, pelas escavações, descobriram através de hieróglifos que para abri-la era preciso o sangue dos Malfoys. As pistas morrem aí. Seu avô morreu pouco tempo depois, e Illius também. Foi atingido por uma maldição logo depois de tentar abrir uma tumba egípcia. A localização da Câmara se perdeu. - Mas então como vamos achar a Câmara? O sorriso de Harry foi tão largo e brilhante que quase me cegou. - Eu tenho as minhas fontes. - Quer dizer que sabe onde a Câmara está localizada? – não queria soar impressionado, mas droga, eu estava. Maldito Potter. - Sei de pessoas que podem me ajudar a encontrá-la. Franzi o cenho. Não que eu realmente me importasse. O que eu mais queria com essa história toda era ficar mais perto de Harry, por mais patético que aquilo soasse. Passar um tempo com ele no Egito seria a glória, com ou sem o Livro dos Mortos. Parte de mim também desejava a aventura. Era uma maneira de provar ao mundo, e a Harry em especial, que eu tinha valor. Eu era a chave para salvar o mundo bruxo dessa vez. Meu ego inflou como um balão, mas meu ânimo desapareceu quase que instantaneamente quando me dei conta de algo. - O Grupo dos Poderosos sabe disso? – perguntei temeroso. - Eles sabem que o livro está no Egito. E sabem também quem pode dar a eles informações. - Eles sabem sobre os Malfoys? Nossos olhos se encontraram. Tive a certeza de que Harry sabia onde eu queria chegar com aquilo. - Acho que não. - Acha? Levantei-me. Dessa vez fui eu a andar de um lado para o outro. - Vou até Hogwarts buscar Scorpius. Não posso deixá-lo lá. Ele é um Malfoy. Se os Poderosos sabem sobre o Egito, com certeza irão atrás dele. Ele é presa fácil já que ainda é uma criança. De jeito nenhum vou deixar isso acontecer. De jeito nenhum deixaria meu filho experimentar um milésimo do que eu experimentara no passado com o Lorde das Trevas. - Ajudaria se eu dissesse que seu filho está sendo bem vigiado? – Harry tentou me acalmar. Parei de andar como barata tonta. Harry estava há poucos passos de distância. Eu devia estar muito perturbado para não ter percebido sua proximidade. - Não se preocupe. Estou de olho no seu filho. – ele disse com uma certeza impressionante. - Eu ficaria mais aliviado se você estivesse de olho nele pessoalmente e não outros Aurores. Ele me olhou de maneira estranha. - Estou lisonjeado com sua confiança na minha pessoa, mas confio nos meus homens. E tenho alguém infiltrado no Grupo dos Poderosos. Serei o primeiro a saber se eles resolverem atacar. Respirei fundo antes que mandasse Harry para o inferno. - Não gosto disso. Não me sinto tranqüilo. Ambos sabemos muito bem o que acontece com infiltrados, Potter. Mais um passo na minha direção. Francamente, Harry estava brincando com o perigo. Cruzei os braços. Será que ele estava querendo me confundir com seu cheiro sexy? Não seria enrolado assim tão facilmente. Não era tão suscetível ao seu charme, não quando a vida do meu filho estava em jogo. Respirar, porém, tornou-se complicado, e revi o que havia acabado de pensar já que o perfume de Harry me deixou levemente embriagado. Bastardo sexy. - E se eu dissesse que Albus também corre perigo? - Albus? Seu filho? Ele assentiu. Agora eu estava realmente confuso. - Por quê? O que seu filho tem a ver com isso? O semblante de Harry se fechou, como se falar sobre o assunto lhe desagradasse. - Porque Albus é o melhor amigo de Scorpius, e pelo que eu soube, eles estão sempre juntos... Portanto, se algo acontecer a Scorpius, o mesmo pode acontecer a Albus. Aquilo era uma tremenda novidade. Scorpius não havia me dito nada. Mas por que ele me diria? O garoto crescera escutando Lucius dizer o quanto Harry Potter era insuportável, e o quanto 'papai' odiava o mesmo. Eu, por minha vez, evitava tocar no nome de Harry na frente dele. Obviamente que Scorpius teria receio de dizer a todos que seu melhor amigo era ninguém menos que Albus Potter. E a vida não era engraçada? Meu filho conseguira aquilo que eu falhara em obter, a amizade e lealdade de um Potter. Queria sorrir, mas nas atuais circunstâncias, estava em estado de choque. - Preciso de um drinque. Harry teve a audácia de rir. - O que é tão engraçado? – retruquei zangado. - Foi exatamente o que eu disse quando descobri. Olhamo-nos com cumplicidade. A amizade entre nossos filhos era mesmo difícil de engolir. Quis dar uma gargalhada. - Entende agora por que Scorpius está seguro? – ele voltou ao assunto. Fiz uma careta. - Isso é surreal, Potter. - Mais surreal do que nós dois? E o que exatamente ele quis dizer com aquilo? Meu coração disparou. Juro que antes de tudo aquilo terminar ainda teria um ataque cardíaco. - Enfim, Malfoy, o fato é que você terá que ir comigo para o Egito, por mais que isso me desagrade... – ele continuou. – Acha que estará um pouco melhor até lá? Respirei fundo e assenti. Era óbvio que eu não estaria 100%. Mas eu faria qualquer coisa para acompanhar Harry naquela jornada. Talvez eu até mesmo tentasse algo que não botava muita fé, mas que já haviam me pedido para tentar. Acupuntura, um método trouxa. Senti arrepios. Outro ponto precisava ser esclarecido. - E quanto ao meu pai? – perguntei. Temia que Lucius já soubesse de tudo. Pior, temia que ele estivesse metido com o Grupo dos Poderosos. Por mais que ele houvesse prometido não mexer mais com magia n***a, tinha a certeza de que se ele soubesse estar em suas mãos o poder de trazer o grande Slytherin de volta, ele não titubearia em se voltar contra os bruxos amantes de trouxas. - Seu pai está sendo bem vigiado. Ele não irá a lugar nenhum. Franzi o cenho. - Mesmo estando na França? - Temos um acordo com o governo bruxo Francês. Veja bem, Malfoy, sempre estivemos de olho nele. Acha que o deixaríamos simplesmente se mudar para a França sem mais nem menos? Seu pai sabe que se sair um pouquinho da linha voltará para Azkaban, sem direito a apelação. O brilho implacável no olhar de Harry, e a forma séria como ele me esclareceu o fato foi o suficiente para que me assegurasse de que seria bastante difícil para meu pai estar envolvido com o pessoal de Matilda sem que o Esquadrão dos Aurores soubesse – e o impedisse. - Ok. Em todo caso, era melhor falar com meu pai. Já não podia mais adiar aquela conversa, por mais que eu quisesse. Um arrepio percorreu meu corpo. - Por um acaso pensou em usar meu pai na sua missão ao invés de mim? – perguntei curioso. Harry suspirou. - A idéia me passou pela cabeça por um segundo. Infelizmente, depender de alguém como Lucius Malfoy não é nada agradável. - Mas depender de mim é? – não consegui me segurar. Ser o único a poder ajudar Harry naquela empreitada havia me subido a cabeça. Ele apenas deu um sorrisinho. - Digamos que seja menos complicado. Além disso, não foi você mesmo quem me disse que está envolvido nisso até o pescoço? Realmente. A vida era mesmo estranha. Um Malfoy tinha o poder de recuperar o Livro dos Mortos. Um Malfoy havia salvado das garras dos Poderosos a criança que poderia se tornar Slytherin. Um Malfoy fraco e cheio de inseguranças que amava Harry Potter. - Acho que vai precisar disso. – disse Harry me tirando de meus devaneios. E então minha antiga varinha apareceu em suas mãos. 
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