TRÊS
Alejandro olhava sua linda Juliete numa clínica em estado vegetativo. Os médicos diziam pra ele não vir mais, mas todos os finais de semana dirigia até Mairiporã e passava com ela.
A cada dois ou três meses, tirava ela da clínica e a levava pra casa que ele comprou pra ela. A casa era toda adaptada com rampa de acesso para a maca, ele dispensava as enfermeiras que a acompanhava na clínica. Pagava 4 só para acompanha-la, para ela não se sentir sozinha.
Estava levando ela de volta naquele domingo. Depois de ajeita-la, aguardava a acompanhante chegar pra ele poder voltar pra casa, se lembrando de como foi essa semana com ela.
Ele tinha perdido o controle e gritado com ela, bêbado, enquanto se lembrava de como chegaram aquela situação. Normalmente, ele era calmo, lhe dizia coisas boas, mostrava fotos que a família dela mandava da França. A casa era calma, aconchegante, e ele tinha muitas esperanças de ela sair daquela situação.
Os médicos diziam que ela tinha menos de dez por cento de condições de voltar a ter atividade cerebral, e ele confiava nessa porcentagem. Precisava dela. Precisava se redimir do que fez com ela e com aquela família.
Se lembrou de quando a conheceu, como foi simples começarem a namorar e fazer planos.
Ele tinha ido pra França fazer faculdade, fugindo do que aconteceu em casa. Sua mãe era uma mulher doce e gentil, mas teve câncer quando ele tinha 6 anos e perdeu a batalha antes de ele completar 8. O pai, sempre muito rígido, sofreu demais a perca, mas não perdeu a mão com sua educação. O luto durou bastante tempo, até que ele resolveu se juntar com Sheila. Devagar, introduziu mãe e filha na família, até que decidiram se casar quando Alejandro tinha 12 anos.
Ele gostou muito da idéia. Uma nova mãe e uma irmã, e Sheila sempre o tratou com muito carinho e cuidado. Mas Eleanor era mais complicado. Teve crises, era mimada, tinha o temperamento forte. Os próximos 4 anos do casamento dos pais foi de luta constante para a menina se adequar.
Alejandro tentava de todas as maneiras contornar a situação, mas Eleanor era complicada. r**m até. Tratava m*l os empregados, era cheia de vontades, fazia birra.
Com 14 anos, decidiu que estava apaixonada por Alejandro e que iriam se casar e ela seria a senhora daquela casa quando Paulo Gustavo morresse. Ela simplesmente planejou que a mãe seria o fardo que ela carregaria, e deixaria de ser a senhora da casa e da empresa. Alejandro teve toda paciência do mundo com isso, mas disse a ela que não tinha a menor pretensão de se casar com 16 anos e ela era sua irmã, não sua namorada.
Durante todo o ano seguinte, surpreendentemente, Eleanor parou de fazer investidas. Começou a agir com ele como irmã, estudava com ele, pedia até conselhos sobre meninos e pesquisava as melhores universidades. Ele se afeiçoou muito a nova personalidade dela e até começou a levar ela em alguns rolês, com os amigos dele e os dela.
Quando chegou sua formatura, ainda não tinha decidido qual universidade se matricular, mas não estava encanado, o pai o ajudaria depois. Eleanor foi sua acompanhante de formatura e estava linda. Na volta, foi até o quarto dele para ajudá-la com o vestido e uma garrafa de champanhe.
_ Eu sei que seu pai e minha mãe não me deixa beber, então pensei que você me ajudaria a brindar sua formatura com meia tacinha...
_ Não conto nada se você não contar...
Alejandro abriu a champanhe e ela tomou das mãos dele e pediu pra abrir os botões do vestido atrás. Depois que ele abriu, ela serviu duas taças do líquido. E ele não lembra de mais nada até o dia de hoje.
Apenas de acordar com Eleanor nua em seus braços em sua cama. Sheila entrou enquanto ele ainda olhava pra ela, confuso.
Foi um fusuê na casa, seu pai pela primeira vez deu-lhe um tapa no rosto. Sheila não estava realmente chateada com ele, mas os três juntos decidiram que seria melhor ele se afastar por um tempo, para tudo não virar um escândalo e eles dois ter que se casar aos 17 e 15 anos.
Então o pai buscou alguns de seus contatos no exterior e conseguiu vaga em universidade e estágio na França. Eleanor ficou desesperada e ameaçou se matar se ele saísse do país, o pai se trancou com ela por horas no escritório. Depois que saíram, ela estava calma e até feliz e deixou ele ir.
Ele foi pra França com bastante mágoa, mas dois meses depois já estava achando que tinha feito a melhor coisa da vida dele. Adorava seus novos amigos, a universidade. Ali ele não era o filho de um homem poderoso, era só ele. Um menino de quase 18 descobrindo a vida. Estava apaixonado por essa vida nova quando Sheila e o pai vieram lhe visitar.
Sheila contou que marcou consulta para a filha no ginecologista, pra saber se o estrago não era ainda maior do que eles esperavam. Ela conseguiu adiar o quanto pôde, mas na semana passada, enfim, descobriram que realmente Alejandro não fez nada com ela, que ainda era virgem. Então ele poderia voltar pra casa, pra sua família.
_ Vocês estão loucos? Primeiro, já comecei a universidade e estou gostando daqui. Não tenho mais mágoas de você, papai, por ter me tirado de casa e não acreditado em mim. Gosto daqui, gosto dos meus amigos e do meu trabalho. E segundo, não vou voltar para aquela pirralha armar de novo contra mim.
_ Eu entendo, filho. Mas temos um problema. Quando convenci Eleanor te deixar partir pra evitar o escândalo, foi com a promessa de que você viria, se formaria e voltaria pra assumir sua responsabilidade.
_ Como não tem nada pra assumir, você não está voltando atrás em sua palavra.
_ Sim, mas Eleanor é muito esperta e me pediu garantias. Então redigi um novo testamento. E nele diz que se você não for casado um ano depois de minha morte, ela assume todo meu patrimônio.
_ Com ela? Você disse que eu me casaria com ela?
_ Não sou tão i****a, e ela não percebeu o termo, ou ficou emocionada demais que o plano dela deu certo que não notou esse detalhe. Apenas disse que você tem que ser casado.
_ Então deixa como está, papai. E se cuida até pelo menos eu me casar.
_ Eu preferia que o testamento fosse mudado novamente. Ela teve a mente capciosa para planejar o golpe, e para segurar de descobrirmos a verdade até que o novo testamento fosse registrado - Sheila disse, evidentemente muito nervosa.
_ Relaxe, mamãe. Eu não vou me casar com ela, nunca. E também não vou me importar de dividir meu patrimônio com ela depois que o papai ir pra terra dos pés juntos.
E assim o tempo passou, Alejandro estava quase formado quando conheceu a garçonete que mudou sua vida. Juliete era linda, pequenininha, loira, olhos azuis, um espetáculo de mulher. Rapidamente começaram a namorar, ele se formou e arrumou uma vaga pra ela na empresa, onde foi efetivado. Nunca teve oportunidade de traze-la em nenhuma das visitas ao Brasil, mas os pais falavam com ela ao telefone e por chamadas de vídeo.
Seu melhor amigo, Alain, o ajudava em tudo e conseguiu um imóvel pra ele comprar. Juliete se apaixonou pela arquitetura do lugar e projetou a reforma. Ele pagava a universidade dela. Quando terminaram a reforma, ele a pediu em casamento e levou pra morar com ele, mas ela só aceitava se ele esperasse ela terminar a faculdade, ainda faltavam 3 anos. Ele estava com 26, achava que seria bom aguardar. Era um acordo perfeito. Mas no ano seguinte, seu pai pegou a maldita doença e ele viajou pro Brasil para acompanhar. Depois que o pai morreu, as fronteiras já estavam fechadas. Ele ficou longe de sua amada, fazendo Lockdown com Sheila e Eleanor e cumprindo o luto, enquanto Juliete fazia Lockdown sozinha naquela casa enorme que eles projetaram para ter três filhos.