CAPÍTULO 1
O MORRO VEIO ME CHAMAR
A tarde cai no Palácio do samba, tanta festa enche de vida esse lugar, hoje há um ensaio técnico na Estação Primeira de Mangueira para receber uma comitiva de autoridades francesas.
Pelo que eu fiquei sabendo na “rádio fofoca” do barracão, alguns detalhes do enredo deste ano que homenageará a França serão apresentados a um grupo de políticos, empresários e investidores franceses.
Eu não estou interessada em nenhum desses rapapés, estou fora desta chatice toda de puxar o saco desses gringos.
O motivo de minha atenção são as crianças que participam de um projeto social em que eu estou envolvida.
Eu amo tanto o samba que acabei nascendo em um dia de carnaval.
Já vivi do samba e para o samba. Fui passista por alguns anos, porém, tive que dedicar-me mais aos estudos, a vida de forma caprichosa acabou me levando para outros caminhos.
Mesmo aposentando as sandálias plataformas de passista, eu não me distanciei da minha paixão, até hoje faço questão de participar como um m****o ativo dos projetos da escola, dando aulas de reforço escolar para as crianças da comunidade.
Uma vez filha do samba, sempre no samba.
Ah! Existe algo mais delicioso que um bom samba? Se há eu desconheço...
Não existe nada mais emocionante, quando o intérprete da escola começa a entoar a Exaltação à Mangueira e todos cantam em uma só voz. Não tem um ser vivo que não fique arrepiado.
Eu sou nascida e criada no Morro da Mangueira, com muito orgulho.
E quando eu ouço os versos deste samba exaltação, o meu coração começa a bater descompassado, juntinho com a marcação da bateria, tamanha minha emoção.
“Mangueira teu cenário é uma beleza
Que a natureza criou, ô...ô...
O morro com seus barracões de zinco,
Quando amanhece, que esplendor,
Todo o mundo te conhece ao longe,
Pelo som de teus tamborins
E o rufar do seu tambor
Chegou, ô... ô...
A mangueira chegou, ô... ô...”
Ouvir esses acordes é prazer direto na veia, é orgástico.
Paulinha, uma das crianças do projeto social, me pede ajuda com o top da fantasia que está despencando de seu b***o.
— Tia Bia, pode me arrumar? Eu quero que todos me vejam bem bonita.
Eu agacho para ficar na sua altura, dou-lhe um beijinho estalado na bochechinha gorducha e ajeito a sua fantasia.
— Você está linda Paulinha, todos vão te achar linda, meu anjo.
Quase ninguém me chama de Beatriz, sou conhecida em toda a minha comunidade como Bia.
A Bia que era da ala das passistas e que agora trabalha com a criançada da Verde e Rosa.
Eu prefiro assim, pra minha gente eu sou só Bia, nada mais.
Não consigo resistir ao batuque da bateria, é contagiante.
Mesmo que eu não queira, meus pés começam a se mexer e quando eu vejo, ah! Já era... O samba me toma! Leva-me pra longe, e eu caio em seus encantos, sem medo de ser feliz.
Não importa, rindo ou chorando, eu sempre sambo.
Perto de mim, vejo alguns integrantes da comitiva francesa, que vieram visitar o barracão.
Todos empertigados em seus ternos bem cortados, pálidos tal qual papel, esse povo não sabe o que é sol?
Tão desajeitados tentando sambar, os rostos vermelhos pelo calor, pela cachaça, chega a ser engraçado.
Os homens cochicham entre si, segurando o queixo, absolutamente hipnotizados pelo balançar dos quadris das passistas.
Todas tão lindas, sedutoras, a imagem perfeita da alegria e sensualidade carioca.
Oposto à elegância dessas divas do samba que sambam equilibrando-se em verdadeiras agulhas, os meus pés latejam por causa do salto apertado.
Decido tirá-los, ele estão massacrando os meus dedinhos.
Sentindo-me aliviada sem esse símbolo de opressão feminina, eu continuo sambando livre e feliz no meio das crianças.
Um senhor branco, alto e bem vestido, inesperadamente se aproxima de mim e pergunta em um português pouco articulado:
— Boa tarde, eu me chamo Gerard Dubois e sou secretário do Sr. Thierry, ele pediu-me que perguntasse se a senhorita aceita uma bebida, poderia me acompanhar?
Olho em direção à comitiva francesa e consigo distingui-lo no meio de tanta gente, ele está próximo a mim, um homem muito alto, na casa dos trinta anos, o corpo atlético envolto em um terno cinza chumbo medido à perfeição, e um rosto de uma beleza máscula e singular.
Cabelos curtos e escuros, mas de onde eu estou sambando, não consigo ver a cor de seus olhos.
Ele é um assombro de tão lindo.
Cumprimenta-me em um meneio de cabeça, bebendo água diretamente da garrafa e continua me olhando, sem disfarçar ou desviar os olhos, a expressão séria e enigmática.
Eu não estou disposta a ser mais uma conquista pra um magnata francês qualquer.
Ele terá que procurar diversão com outra mulher que queira t*****r por dinheiro ou status, não é o tipo de relação que eu estou interessada.
Aproximo-me do tal Gerard por causa do barulho da bateria.
— Agradeça a seu chefe, mas eu não bebo, não estou interessada.
O homem ficou pálido, pelo visto o chefe dele não é uma pessoa acostumada a receber um “não”.
Gerard cumprimentou-me em um meneio de cabeça e retornou em direção ao tal do Sr. Thierry.
Eu pude ver o exato momento que o sujeito chamado Gerard cochichou no ouvido do chefe.
O homem abaixou a cabeça e continuou a me olhar de onde estava. Provavelmente insatisfeito com a negativa que recebeu.
Por mais que eu tente disfarçar, ser observada de forma tão insistente, me deixa um pouco constrangida.
O seu olhar não é inquisitivo ou desagradável, de forma alguma, só que o jeito dele me olhar é diferente, como se pudesse emanar calor através do seu olhar, ele me desconcerta.
Tem dias que eu fico cansado dessas atribuições diplomáticas e políticas.
Estou há mais de uma hora acompanhando a confecção de carros alegóricos, sendo apresentado aos integrantes da escola de samba e ouvindo infinitas explicações do tema sobre a França.
E andei bastante, muitos apertos de mão, uma dose de caipirinha pra relaxar, uma dose não, eu não sei bem, mas acho que foram três. Muitas batidinhas nas costas... Engraçado como estou aqui no Brasil há tanto tempo e não me acostumo com a mania que as pessoas têm de manter tanto contato físico, duas palavrinhas trocadas já é motivo para tocarem e afagarem o outro sem o menor pudor. Por vezes, deixei soltar um sorriso polido pra não parecer uma pedra de gelo.
Realmente essa paixão que movimenta tantas pessoas em prol de um espetáculo que dura um único dia, me instiga, é algo simples e genuíno.
Você vê paixão nos olhos dessa gente, esse trabalho é a vida deles.
Eu estava distraído conversando com Gerard, quando me deparei com uma imagem que me paralisou.
Pés lindos da cor do mais cremoso caramelo, desnudos e femininamente pequeninos, me tiraram da grande apatia em que eu me encontrava.
Fui levantando os olhos, absorvendo aos poucos as formas reveladas e deslumbrei-me com pernas perfeitas, bem torneadas, coxas grossas, quadris maliciosos e receptivos.
Um corpo deliciosamente curvilíneo, envolto em um vestido curto e primaveril.
Ela virou-se sambando na ponta dos pés, linda e naturalmente charmosa e olhou em minha direção.
Os cabelos longos com cachos fartos que caíam por suas costas, esvoaçantes e indomados, o sorriso aberto, era um pacote irresistível de mulher, parecia mais uma menina, rodopiando no meio das crianças.
Não me contive, ela era linda.
As feições tão alegres, tão leve, tão solta, nesse momento eurealmente acreditei na máxima deque os opostos se atraem.
Eu sou calado, introvertido, algumas pessoas me acham frio, inacessível, quase soturno.
Bem diferente da luz toda que emana dessa mulher, o sorriso dela ilumina o ambiente.
Pedi ao meu secretário que a convidasse para tomar uma bebida comigo, não que eu tivesse o costume de beber, mas inferno! Eu precisava me aproximar de alguma forma, só que ela não aceitou e eu tive que manter-me longe, só olhando-a, apreciando a imagem daquela figura tão feminina, livre e sedutora.
Já são quase sete horas da noite e tenho muita coisa pra fazer amanhã, vou acordar cedo para procurar emprego.
Despeço-me dos amigos e das crianças, levando o salto alto na mão.
— Tchau, tia Bia.
— Até segunda-feira Juju, não falte aula, hein mocinha!
Dou um beijinho em Marina, minha vizinha e amiga de todas as horas.
— Pretinha, amanhã eu te vejo, passa lá em casa de tarde pra gente tomar um café.
Marina concorda apertando-me em um abraço que só as amigas sabem dar.
— Eu levo o pão quentinho e aí a gente põe as fofocas em dia. Amiga, o Max apareceu?
Nem precisa Marina me lembrar, não sei o que me espera em casa, se ele sumiu de vez ou não.
— Não, nada ainda, vou me adiantando, beijinho.
Deixo o Palácio do samba, cansada e suada de tanto sambar.
Sigo pelas ruas estreitas cantarolando o samba enredo, passando pela barraca da Ana do churrasquinho e mando um beijo pra galera, hoje não vai rolar bate papo com a rapaziada, tenho que ir emborapra casa.
Um carrão preto tipo importado para no meio fio e aquela figura intimidante sai elegantemente vindo em direção a mim, com passos curtos e firmes, o corpo másculo estancando à minha frente.
Ele estende-me a mão surpreendentemente e apresenta-se de forma educada.
— Boa noite, prazer, Thierry. Quer uma carona?
Eu aceito apertar a sua mão e confirmo que o seu toque é quente e forte como eu pensei. Eu não sei por que, nunca fui chegada a esses excessos de “sensibilidades juvenis”, mas confesso que fiquei arrepiada com o contato de sua pele.
Acho melhor eu não aceitar carona, eu nem conheço esse cara.
— Obrigada, mas eu vou andando mesmo, eu moro pertinho.
Ele continua em pé na minha frente, as mãos no bolso do terno, de perto ele consegue ser ainda mais bonito e nesse momento eu posso ver os olhos mais lindos e inquietantes que eu já vi na vida.
Seus olhos são profundamente azuis, translúcidos, um pedaço de imã em forma de mar cristalino.
Os cabelos muito pretos e curtos, as mechas da frente cobrindo-lhe um pouco a testa, cortados de forma irregular.
Evito continuar olhando-o, disfarço que estou completamente embasbacada por ele, que insiste:
— Se é assim tão perto, eu posso acompanhá-la até a sua casa.
Não tenho como negar, ele não me dá chance de dizer não, o carro caríssimo acompanha-nos enquanto andamos a pé, calados, olho-o e ele me encara sem eu conseguir decifrar o que afinal está pensando.
— Já que o carro vai nos acompanhar, é melhor eu aceitar a carona.
Ele curva os lábios sutilmente, quase sorrindo e segura a minha mão. Eu entro no carro e ele gentilmente fecha a porta, o motorista vira e cumprimenta-me em um meneio, Thierry dá a volta no carro e senta-se em seguida ao meu lado.
— Posso saber o seu nome?
— Beatriz, mas todos me chamam de Bia.
— Beatriz, muito interessante.
Terminando de dizer essas frases soltas, Thierry fica em silêncio, o ambiente no carro torna-se estranho, uma aura de inquietação e excitação é percebida nitidamente, ele olha-me de vez em quando e eu fico pensando, o que afinal é muito interessante, eu ou o meu nome?
— Você foi visitar ou faz parte da escola de samba?
— Já fui passista há algum tempo, eu faço parte da escola, mas não tanto quanto eu gostaria. Tô trabalhando com as crianças ajudando no reforço escolar.
Thierry observa-me curioso, não há nada mais constrangedor do que ser analisada por um olhar masculino, você fica pensando, será que estou descabelada? Será que tem casca de feijão no meu dente?
Chegamos a minha casa, ele sai do carro e abre a porta pra mim, pegando a minha mão.
Eu desço do carro e ele vira-me de encontro a ele, segurando os meus ombros.
— Acho que terei que voltar aqui mais vezes.
Eu disfarço e finjo que não entendi a insinuação, dou-lhe um beijo na bochecha e despeço-me.
— Os ensaios abertos são realmente muito bons, tchau Thierry, até um dia desses.
Cumprimentamo-nos novamente e ele vai embora.
Certamente foi muito esquisito a forma que eu conheci Thierry, ele não pediu o número do meu telefone, mas mesmo se ele pedisse, eu não daria.
Não fizemos nada para nos vermos novamente, tudo muito estranho, ele só apareceu em minha frente, como um anjo caído, apertou a minha mão suavemente e foi embora.
Apesar de toda estranheza, eu tenho que admitir, nunca estive em minha vida com um homem igual a ele.
Além da beleza inegável, é uma figura única, instigante e misteriosa.
Pena que encontros inusitados não acontecem o tempo todo, o meu infelizmente foi breve, fazer o quê não é, é vida que segue.