Capítulo 20 — À Mesa dos Lobos

988 Palavras
Vittorio e Siena desceram juntos. Ela sentou-se ao lado dele, a postura ereta, as mãos tranquilas demais para alguém cujo coração batia alto no peito. Beatrice estava alguns lugares à frente, próxima de Luca. As duas trocaram um olhar rápido, curto, mas cúmplice. As apresentações foram formais e breves. Aliados do sul. Nomes antigos. Era a primeira vez que muitos deles viam Vittorio fora de uma cúpula completa, e isso, por si só, já era uma perigo. O jantar começou a ser servido. Homens acostumados a mandar. A observar antes de falar. A medir forças até no silêncio. Eles sabiam — ou acreditavam saber — que as mulheres não estavam ali para ouvir tudo. — Depois do jantar, eu e Luca resolvemos as estratégias no escritório — disse Vittorio, com a calma de quem não precisava se impor. — Trouxe alguns relatórios também — retrucou um dos aliados. — Aquele desgraçado não vai roubar minha área e sair impune. — Nossa área — Luca corrigiu, seco. Beatrice percebeu a irritação imediata no marido. Antes que o clima azedasse, deslizou a mão pela perna dele por baixo da mesa, um gesto discreto, calculado. — Esse frango está ótimo, não está? — comentou, mudando o tom. Siena entrou no jogo. — Também achei, vou pedir a receita — disse com um sorriso educado. — Minha cozinheira vai amar. Vittorio interrompeu, a voz firme, definitiva. — Vamos resolver isso no escritório. Elas não precisam ouvir isso. O silêncio que se seguiu durou um segundo a mais do que o necessário. Sempre durava quando Vittorio falava. Um dos aliados inclinou-se levemente na direção de Siena. — A aliança se fortalece quando a casa está… completa. — A casa está completo comigo ao lado dela. — respondeu seco. Mas a mão dele se fechou de leve sobre a perna de Siena, sob a mesa. Aviso. Estava no seu limite. Siena não respondeu. O jantar seguiu, protocolar, até que os homens se levantaram e seguiram para o escritório. Pouco tempo depois, despedidas rápidas. Formais demais para quem fingia cordialidade. Quando subiram, Siena estava inquieta. No quarto, Vittorio tirava o paletó e afrouxava a gravata enquanto ela permanecia sentada na beira da cama, o olhar fixo em um ponto invisível. — Você ficou quieta — ele observou, sem acusação. — O que quer saber? Ela respirou fundo. — Como vocês conseguem ser aliados e parecer que vão se m***r a qualquer momento? Vittorio parou. Virou-se para ela com atenção total. — A cúpula e a aliança existem justamente pra isso — respondeu. — Pra impedir que homens como nós ajam como os animais que somos. E, claro… tem dinheiro envolvido. Ele se aproximou. — Mas todos sabem que eu tenho limites. — tocou o rosto dela com o polegar. — E você é o meu. Ela engoliu em seco. — Todos sabem disso? — Sabem. — respondeu sem hesitar. Depois suavizou o tom. — Não pensa mais nisso hoje. Vamos tomar um banho e dormir. Amanhã a viagem é longa. Ela hesitou. — Pensei… talvez pudéssemos ficar mais um dia. Falei com a Bea, pra ela tudo bem. Vittorio segurou o rosto dela com delicadeza, o olhar escuro, carregado de intenção. — Pra ficarmos, eu ia precisar te f0der essa noite inteira. — disse baixo, provocador. — E eu sei que você não vai deixar. Siena riu, empurrando-o de leve. — Você é completamente depravado. — E completamente seu. Tomaram um banho rápido. Dormiram juntos, como sempre, ele agarrado a ela, respirando o cheiro do cabelo dela como se aquilo o mantivesse no eixo. ⸻ A estrada começou cedo demais. O comboio seguia em formação perfeita. Siena observava pela janela quando pararam para comer em uma área reservada. Siena m*l tinha entrado no estabelecimento e um homem a olhou de cima a baixo, e aquilo foi suficiente para irritar completamente Vittório O corpo de Vittório enrijeceu, o maxilar travou. — Vittorio… — Siena tocou a mão dele por baixo da mesa. — Não vale a pena. — Ele não sabe com quem está mexendo, não está vendo que está acompanhada. — Sabe sim — ela respondeu, calma. — Ele só não importa. Ela entrelaçou os dedos aos dele. — Olha pra mim. Ele respirou fundo. Uma vez. Duas. — Você não pode sair batendo em todo mundo que olha pra mim. — Posso. — Não deve. — sorriu de leve. — É com você que estou. É isso que importa. O olhar dele suavizou. — Você não faz ideia de como me tem em suas mãos Siena. Ela riu baixo. ⸻ Quando chegaram em casa, o silêncio os envolveu como um abrigo. Siena largou a bolsa e se virou para ele. — Promete tentar? — O quê? — Não reagir como se o mundo inteiro fosse uma ameaça. Vittorio a puxou para perto, a testa encostada na dela. — Não vou mudar quem eu sou, eu sou possesivo e não quero ninguém perto de você. Ela assentiu. — Só promete tentar… por mim. Ele suspirou. — Por você, eu tento tudo. Siena respirou fundo, como se o corpo estivesse finalmente cobrando o dia inteiro, e deu um beijo leve no marido. — Eu vou me deitar um pouco — disse, a voz mais baixa. — Estou me sentindo… estranha. Cansada demais. Vittorio franziu levemente o cenho. — Quer que eu chame alguém… ou vamos ao médico? — Não. — ela negou rápido, apoiando a mão no peito dele. — É só cansaço. A viagem, o jantar… tudo junto. Ele a puxou para perto mesmo assim, atento. — Se não for, você me diz. — Digo. Quando chegou ao quarto, Siena adormeceu como se não dormisse há semanas inteiras. Vittorio chegou a entrar algumas vezes, apenas para olhar. Não quis acordá-la. O corpo dela parecia exausto. Ele gostava de vê-la dormir. Havia algo de calmo, quase sagrado, naquele momento, como se ali, finalmente, nada pudesse alcançá-la.
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